O keynesianismo não é uma saída para os trabalhadores

Quando se completam, no dia 21 de abril, 63 anos de sua morte, Lord J. M. Keynes volta a ocupar o centro de cena. Desde que estourou a crise mundial, se fala do keynesianismo de Obama e que essa seria a orientação que está se impondo na Europa com as nacionalizações. Analistas políticos se referem ao keynesianismo dos Kirchner, e Chávez, que fala do socialismo do século XXI, se autodefine seguidor do lorde inglês.

Por trás dessas definições de Chávez se enfileira a vasta gama de seus seguidores, desde os que, como a direção da CTA (Central de Trabalhadores Argentinos), defendem a “redistribuição da renda”, até os diferentes setores que criam esperanças em torno de saídas burguesas como o Alba, Petrosul, Banco do Sul etc.

Os trabalhadores e estudantes que leem ou escutam essas posições podem chegar a pensar que há dois capitalismos, um muito mau, outro nem tanto. O mau seria o neoliberalismo, o das privatizações, o saque, as intervenções militares, que nos levou à crise. O outro seria o keynesianismo, mais de esquerda ou mais de direita, mas com uma maior intervenção do Estado, com algumas nacionalizações e políticas de ação social.

Seguindo essa linha de pensamento, poderia se acreditar que, se essa corrente capitalista se impusesse, poderia se voltar ao estado de bem estar do pós-guerra e os trabalhadores não ficariam tão mal após a crise. nada mais distante da verdade.

Quais foram as propostas de Keynes
Lord John Maynard Keynes nasceu em Cambridge, Inglaterra, em 1883 e morreu em 1946. Ganhou a fama com suas propostas para encarar a depressão de 1929. A profundidade e extensão desta crise, a pior que já se conheceu até este momento, paralisou os máximos dirigentes do capitalismo, enquanto os operários resistiam, mas com as limitações que lhes impunham suam direções socialistas reformistas e estalinistas.

Nesse marco, Keynes fez suas propostas para enfrentar a crise suas consequências sociais. Não podia ficar esperando que mudasse o ciclo. O Estado tinha de intervir fazendo grandes investimentos, que animassem a iniciativa privada e gerasse trabalho, ou seja, como se diz hoje dia, tinha de se acalmar a economia sem temer a inflação.

Nem uma gota de progressismo
Apesar do que nos querem fazer acreditar muitos de seus atuais seguidores de esquerda, Keynes não tinha nada de progressista. Nunca defendeu nada que se aproximasse de uma redistribuição da riqueza, aumentos de salários, nada parecido.

Pelo contrário, suas políticas para tirar o capitalismo da depressão tinham um alto componente antioperário. Nada mostra isso mais que sua posição frente à inflação. Opinava que a inflação, assim como a deflação – a diminuição progressiva dos preços – eram injustas, mas preferia a inflação já que esta trazia importantes vantagens para os empresários. Por um lado, porque como a maioria deles tem dívidas, estas encolhem, mas centralmente pelo efeito sobre os salários. Com a inflação, estes podem manter seu valor nominal, mas seu valor real baixa, o que favorece aos empresários.

Afirmava: “Ainda que os trabalhadores, frequentemente, resistem a uma redução de seu salário nominal, não costumam abandonar o trabalho quando sobem os preços das mercadorias para os assalariados. Diz-se, algumas vezes, que seria ilógico por parte da mão-de-obra resistir a uma queda do salário nominal e não a outra do salário real. Por razões que daremos mais adiante e afortunadamente como veremos depois, ainda que isso seja lógico ou ilógico, é a conduta real dos operários” (Teoria Geral da ocupação, o interesse e o dinheiro. Fundo de Cultura Econômica Editores. México D.F., 1965, p. 20).

As direções reformistas de sua época assumiram suas propostas e o convidaram a entrar no partido trabalhista. Porém ele, que não tinha nenhuma dúvida de qual era sua localização de classe, negou-se categoricamente “em primeiro lugar, porque é um partido de classe, e de uma classe que não é a minha. Se eu for defender interesses parciais, defenderei os meus. Quando chegar a luta de classes como tal, meu patriotismo como tal, meu patriotismo local e meu patriotismo pessoal estarão com meus afins. Eu posso estar influenciado pelo que estimo que é justiça e bom sentido. Mas a luta de classes me encontrará do lado da burguesia educada” (Profecia e Persuação: ensaios).

Apesar dessa clareza, hoje dirigentes operários e intelectuais de esquerda seguem defendendo suas propostas como progressivas para os trabalhadores. para isso, não só ignoram as verdadeiras posições de Keynes, mas falsificam a história, dando a entender que na depressão 1929 e 30 se saiu aplicando políticas keynesianas que levaram ao boom econômico do pós-guerra e aos estados de bem estar social. Coisa que não tem nada a ver com a realidade.

O boom econômico do pós-guerra e o estado de bem estar social
Todas as crises capitalistas são de superprodução. Por isso, não há nenhuma saída capitalista que nque não passe pela destruição do capital, o que causa desemprego massivo, fome, enfermidades. Assim se saiu da crise de 1929. Calcula-se que em 1932 havia 13 milhões de desocupados nos Estados Unidos.

Depois desta brutal destruição de forças produtivas, apresentaram-se melhores condições para sair da crise. Foi então, em 1933, que Roosevelt assumiu a presidência dos Estados Unidos e aplicou seu famoso New Deal, baseado na proposta de Keynes de intervenção estatal. Sua política consistiu em: ajuda aos bancos, subvenção aos agricultores, aumento de salários e redução de horas de trabalho, criação de novos postos de trabalho na administração pública e em obras públicas.

Porém tudo isso se deu depois que já havia se destruído uma imensa quantidade de postos de trabalho, que o salário havia chegado a um mínimo insustentável e que os agricultores estavam na máxima miséria.

Essa política não deu resultados nem nos EUA, nem no mundo. O resultado foi a Segunda Guerra Mundial (1939-1945). Com essa terrível perda de vidas humanas e recursos naturais, completou-se a destruição que o capitalismo necessitava para sair da crise.

Daí surgiu o imperialismo ianque hegemônico e foram criadas uma série de instituições internacionais com o objetivo de garantir a ordem mundial e tratar de evitar que se pudesse voltar a uma situação como a de 1929. Assim surgiu a Organização das Nações Unidas (ONU), o Fundo Monetário Internacional (FMI), o Banco Mundial e o Acordo Geral sobre Comércio e tarifas (GATT) que se converteria, em 1995, na Organização Mundial de Comércio (OMC).

Depois da guerra, se impuseram as políticas de corte keynesiano. Houve um grande investimento dos EUA para reconstruir a Europa (Plano Marshall), mas essa reconstrução e o boom econômico que se seguiu tiveram uma explicação mais política do que econômica. Quando acabou a guerra, houve três importantes países (França, Itália e Grécia) onde se deram todas as possibilidades para que os trabalhadores tomassem o poder.

Nesses países, os estados capitalistas estavam destruídos. As únicas organizações armadas eram os movimentos de resistência, com grande influência dos partidos comunistas. Esses movimentos compostos centralmente por operários e camponeses pobres se negavam a desarmar-se. Mas, no fim, se desarmaram, seguindo as instruções que vinham da burocracia da União Soviética: era preciso entregar as armas e encarar a reconstrução nacional, ou seja, a reconstrução do Estado burguês.

Porém não foi fácil conseguir isso. Para consegui-lo, a burguesia europeia teve de fazer muitas concessões. Assim foram surgindo os chamados “estados de bem estar social”. Não foram produto dos postulados de Keynes, mas foi o que a burguesia teve de pagar para evitar que os trabalhadores tomassem o poder. Durante este período, melhorou muito o nível de vida da classe operária e das classes médias dos países imperialistas. Em menor medida, isso também se deu em algumas das semicolônias mais ricas, como Argentina, Chile e Brasil.

Até que, em meados dos anos 1970, da mão de outro economista, o estadunidense Milton Friedman (1912-2006), da Escola de Economia de Chicago, surge o chamado neoliberalismo, que começou a aplicar suas políticas no Chile, na Argentina e na Inglaterra. A partir do Consenso de Washington, em 1989, o neoliberalismo se impôs em todo o mundo com sua disciplina fiscal, desregulamentações trabalhistas, abertura econômica e privatizações.

A única saída positiva para a crise passa pelo poder operário
O mais negativo desta defesa, mais ou menos direta, que fazem dirigentes operários e de esquerda, destas saídas keynesianas ou neokeynesianas ao estilo chavista, é que criam expectativas em saídas por dentro do sistema capitalista. Essa é uma utopia reacionária.

Esta terrível crise mundial é uma confirmação de que o capitalismo, como sistema, não pode responder às necessidades da humanidade. Todos eles, neoliberais ou keynesianos, coincidem em jogar a crise sobre as costas dos trabalhadores. Temos de resistir de todas as formas. Temos de impulsionar a máxima unidade de ação para lutar contra o desemprego, pela redução da jornada sem redução salarial, pela nacionalização sob controle operário de toda empresa que feche ou demita, por aumento de salários, pelo não-pagamento da dívida.

Quanto mais unitária e forte seja nossa luta, mais poderemos conquistar. Mas temos de ser conscientes que não podemos impor nenhuma das medidas de fundo se não acabarmos com o sistema capitalista e impusermos governos operários e populares que rompam com o capitalismo e com o imperialismo.

É uma tarefa muito difícil, mas essa é a única possibilidade de saída operária para a crise. Aproveitemos este período para fazer avançar a construção da direção revolucionária que torne possível cumprir com este objetivo.