O internacionalismo operário do PSTU

Internacionalismo sempre foi presente na história da corrente

Toda a história do PSTU e das correntes que antecederam o partido é a história da construção de um partido nacional no marco de uma corrente internacional. Tal esforço foi determinante para que o partido pudesse enfrentar com sucesso inúmeros desafios e pNo Brasil, na década de 70, em meio à luta contra a ditadura e tendo como pano de fundo a crise do Partido Comunista, surgiu uma série de organizações de esquerda.
Era uma nova esquerda que, negando a tradição do Partido Comunista, lutava não só contra a ditadura, mas também contra todas as alternativas burguesas. Uma nova esquerda que confiava na classe operária e em suas lutas e que não tinha esperança nos mecanismos de alternância política da burguesia. Uma esquerda que, quando se lançou à construção do “PT sem patrões” (esse foi o nome original do partido), se unificava com consignas como: “patrão da situação, ou patrão da oposição, são todos patrões”.

Agora, três décadas depois, o panorama é desolador. Pouco resta dessa esquerda revolucionária. E não porque seus dirigentes tenham abandonando a política – ainda que muitos o tenham feito -, mas porque sua ampla maioria se transformou, de uma forma ou de outra, em representantes do sistema.
Essa esquerda saiu das barricadas para entrar nos palácios do mesmo Estado burguês que combatia há trinta anos.

O PSTU também fez parte dessa esquerda dos anos 70. No entanto, era sua parte diferenciada. O PSTU não abandonou as barricadas, nem entrou nos palácios da burguesia.

Com o fim da ditadura, o PSTU, igual ao resto da esquerda, teve um novo espaço de atuação. Desde a legalidade, participou das eleições, conseguiu eleger deputados, vereadores e até um prefeito, ao mesmo tempo em que ganhou dezenas de sindicatos operários.

O PSTU, igual ao resto da esquerda, foi submetido à tremenda pressão da chamada “democracia burguesa”, mas diferente daquela, não sucumbiu.
Mas o que explica essa diferença? Por que a burguesia brasileira não foi capaz de destruir essa corrente revolucionária? Por que as mesmas pressões que destruíram (ou degeneraram) a maioria das organizações revolucionárias não acabaram nem degeneraram o PSTU? Há várias explicações, mas uma é central: a burguesia brasileira não enfrentou uma organização nacional, mas sim a expressão nacional de uma corrente política internacional. Também porque essa organização nacional teve o mérito de ter uma correta – isto é, revolucionária – localização internacional.

Chile, os primeiros passos
A vocação internacionalista do PSTU começou no seu nascimento. O grupo Ponto de Partida, que originou a corrente que hoje se expressa no PSTU, nasceu no Chile na década de 70.

Foi um grande mérito deste pequeno e jovem grupo de exilados brasileiros se organizar no exílio com o objetivo de um dia voltar ao Brasil para construir um partido revolucionário. Mas não foi só isso. O grande mérito dessa pequena organização foi se localizar corretamente na realidade política chilena daqueles dias.

Na época, a esquerda do país tinha chegado ao governo nacional através da Frente Popular, encabeçada por Salvador Allende.

A esquerda vivia momentos de euforia. Teria sido muito fácil para o pequeno Ponto de Partida vincular-se ao novo governo ou aos partidos que o sustentavam. No entanto, preferiu se aproximar de alguns dirigentes, como o líder dos camponeses peruanos Hugo Blanco, que combatia esse governo.

Blanco construiu a relação da Ponto de Partida com a Quarta Internacional. E essa aproximação foi decisiva para entender que o governo “socialista” de Allende não era mais do que um governo de colaboração com a burguesia. Por isso, preparava a derrota da classe operária. Em setembro de 1973, o golpe de Pinochet acabou com a utopia reacionária do “socialismo pela via pacífica”. O acontecimento gerou uma grande crise na esquerda. O Ponto de Partida, ao contrário, realizou uma interpretação trotskista das frentes populares. Por isso, saiu fortalecido ideologicamente dessa experiência.

Argentina,
uma experiência decisiva

Após o golpe, a maioria dos integrantes do Ponto de Partida se reagrupou na Argentina, onde a esquerda, como no Chile, tinha chegado ao governo através da Frente Popular, encabeçada pelo peronista Campora.

Para esse pequeno e perseguido grupo, também seria muito fácil se relacionar com a esquerda governamental na Argentina. No entanto, optou por se aproximar de quem, desde a esquerda, combatia o governo. Integrou-se ao PST (Partido Socialista dos Trabalhadores), dirigido por Nahuel Moreno, que fazia parte da Quarta Internacional.
O PST argentino era, naquele momento, uma experiência quase única no trotskismo internacional. No marco da Quarta Internacional, o partido conseguia combinar com bastante sucesso uma importante implantação no movimento operário e uma forte relação com a teoria marxista.

O Ponto de Partida, que na Argentina passou a se chamar Liga Operária, teve oportunidade de acompanhar o trabalho na classe trabalhadora realizado pelo PST, conhecer suas elaborações teóricas e políticas, bem como participar de suas escolas de formação marxista.

Também a estada na Argentina permitiu a eles conhecer e assimilar a difícil experiência dos trotskistas argentinos dentro da Quarta Internacional.
A Quarta era dirigida por um grupo de quadros europeus, muito capazes (o que mais se destacava era Ernest Mandel), mas com muito pouca relação com a classe operária.

Isso fazia com que, naquele momento, fossem impactados pelas ações dos grupos guerrilheiros latino-americanos. Isso provocou um profundo desvio que levou, entre outras coisas, a que essa direção não reconhecesse o PST como seção argentina da Internacional, mas sim o PRT (ERP), uma organização guerrilheira que estava rompendo com o trotskismo.

Essa experiência do PST argentino dentro da Quarta deixou profundas marcas no grupo brasileiro. Ali eles aprenderam que o internacionalismo não era simplesmente apoiar a luta dos povos de outros países. Internacionalismo para o PST era, em primeiro lugar, a luta pela construção da Internacional. O PST, apesar das profundas diferenças que tinha com a direção, dedicava mais esforço à construção da Quarta Internacional do que à sua própria construção.

Foi a partir dessa experiência vivida entre os trotskistas argentinos que o grupo de exilados brasileiros foi construindo o perfil internacionalista que hoje, três décadas depois, é a marca registrada do PSTU.

Brasil:
ser internacionalista no próprio país

No ano de 1974, o grupo de exilados começou a voltar ao Brasil. Aqui, a Liga Operaria, desde o primeiro dia de sua construção, ao mesmo tempo em que batalhava para se implementar na classe operária do país, foi parte ativa na construção da Quarta Internacional.

A Liga transformou-se no PST, que por sua vez impulsionou a construção da CS (Convergência Socialista). Essas três organizações, a partir do interior da Quarta, batalharam permanentemente contra as posições da maioria de sua direção. No marco dessa batalha, fizeram parte, primeiro, da TLT (Tendência Leninista Trotskista) e da FLT (Fração Leninista Trotskista), encabeçadas pelo SWP (Partido Socialista dos Trabalhadores dos Estados Unidos) e o PST da Argentina. Posteriormente, entraram na TB (Tendência Bolchevique) e na FB (Fração Bolchevique), encabeçadas pelo partido argentino.

Como parte dessa batalha pela Internacional, quando a Liga Operária era ainda um pequeno grupo, enviou dois de seus principais dirigentes à Europa para intervir na Revolução Portuguesa.

No ano de 1979, a direção da Quarta Internacional passou da capitulação às direções guerrilheiras para a traição. Ela proibiu a construção de partidos em vários países da América Central. Pior ainda, se solidarizou com o governo sandinista da Nicarágua quando este prendeu e expulsou a Brigada Simón Bolívar, que tinha lutado militarmente contra a ditadura de Somoza. A partir desses fatos a FB, da qual a CS fazia parte, rompeu com a Quarta Internacional e, após uma fracassada tentativa de realizar uma fusão com a corrente lambertista, em 1982, impulsionou a fundação da LIT (Liga Internacional dos Trabalhadores – Quarta Internacional). Desde o primeiro momento, a CS (e depois o PSTU) apoiou de forma entusiasmada a construção da nova organização internacional.

O partido e a internacional.
A internacional e o partido

Toda a história do PSTU e das correntes que antecederam o partido é a história da construção de um partido nacional no marco de uma corrente internacional. Esse esforço foi importante e, em muitos momentos, determinante para que existisse esse marco. Porém, o mais importante a destacar é que a existência dessa orientação internacional foi determinante para que os trotskistas brasileiros pudessem enfrentar com sucesso os desafios e perigos colocados pela construção do partido.

Foi por isso que a CS pôde lançar a proposta de construir o PT. Foi por isso que pôde propor, desde o primeiro momento, a necessidade de ser oposição a Lula, pois este queria construir um partido independente da burguesia, mas para terminar colaborando com a burguesia.

Foi por isso que, de um dia para o outro, a CS pôde ganhar e dirigir importantes sindicatos. Foi por isso que o PSTU pôde enfrentar, pela esquerda, o governo de frente popular de Lula. Foi por isso que a CS (e também o PSTU) enfrentou com sucesso o perigo da burocratização dos sindicatos e pôde garantir que seus parlamentares não fossem corrompidos pela burguesia.

Todas essas situações eram novas para um jovem partido que estava se construindo. Mas nenhum desses desafios foi enfrentado como sendo novo pelos trotskistas brasileiros. Isso porque situações similares já tinham ocorrido na história ou na atualidade de outros países. E essas experiências estavam presentes na elaboração da corrente internacional.

Foi fundamentalmente por isso que a Liga Operaria, o PST, a CS e o PSTU foram capazes de enfrentar e derrotar as tremendas pressões da burguesia. Tudo isso permitiu que o PSTU continue vivo e se desenvolvendo como um partido revolucionário.
Post author Martín Hernandez, da Liga Internacional dos Trabalhadores (LIT-QI) e da redação da revista Marxismo
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