O governo Mitterrand, suas perspectivas e nossa política (2º parte)

O Governo Mitterrand

Prevenir a “Primeira onda“

Salvar a V República

Uma política conhecida

Uma política dura a serviço da burguesia

Defender o imperialismo

Os ministros comunistas

É incompativel para a burguesia um governo presidido pelo PS?

Três variantes: “chilena, russa e inglesa
A primeira onda é chave
A analogia mais perigosa

Apresentação
Estamos publicando a segunda parte de “O Governo Mitterrand, suas perspectivas e nossa política“, que trata essencialmente das perspectivas do governo de Frente Popular eleito na França em 1981.
Neste mesmo ano, o Comitê Internacional – Quarta Internacional (CI-QI), recém formado a partir da fusão do Comitê de Reconstrução da Quarta Internacional (Corqui) e da Fração Bolchevique (precursora da Liga Internacional dos Trabalhadores – Quarta Internacional), enfrentou uma grande polêmica que atravessou sua seção francesa: a Organização Comunista Internacionalista (Unificada), hoje denominada Partido dos Trabalhadores. A polêmica sobre o caráter do governo Mitterrand e a capitulação da OCI (U) diante deste levaram à divisão do CI-QI.
A terceira e última parte deste texto será publicada na próxima edição e tratará da política proposta por Nahuel Moreno para a OCI(U) diante do governo de Frente Popular.

O GOVERNO MITTERRAND
O governo Mitterrand é, em última instância, uma conseqüência atrasada, expressa no terreno eleitoral, da grande greve geral de 1968. Esta desencadeou a crise do regime bonapartista da V República, mas não pode culminá-la por causa da traição do stalinismo e da social-democracia.
Muito bem disse a OCI(U):
“Do ponto de vista da classe operária, o que nos ensina a lenta agonia da V República, cuja morte começou mas ainda não terminou, reside nisto: a força coercitiva dos aparatos, mais particularmente do aparato stalinista, pôde adiar durante treze anos as conseqüências da greve geral de maio-junho de 1968, desviando não menos não menos sistematicamente, mediante urna tática de divisão sabiamente orquestrada, a luta da classe operária do problema do poder“
O atraso de treze anos e a mediação dos aparatos operários contra-revolucionários fez com que a relação entre a greve de 68 e a vitória eleitoral não fosse imediata.

O SIGNIFICADO DA VITÓRIA
Por isso, não podemos dizer do governo Mitterrand o mesmo que disse Trotsky depois da subida de Blum e das grandes greves de 1936: “A revolução francesa começou“. Mesmo Raymond Aron compreende isto, quando descreve que “as manifestações de alegria entre os vencedores“ (de 1981) “não se assemelham em nada à explosão social“ (de 1936).
De momento, trata-se apenas de uma vitória político-eleitoral, que tem duas expressões: uma, a derrota da burguesia e de seu candidato, Giscard d`Estaing. E outra, quase tão importante como a anterior, a derrota da política divisionista e pró-giscardiana do PC (A quarta parte de seu eleitorado votou contra o PC, pelo PS, provocando a maior queda eleitoral do stalinismo francês em toda a sua história).
Mas o ascenso de Mitterrand não é efeito nem causa de nenhum triunfo revolucionário, ainda que abra a possibilidade, mais ou menos imediata, pela confiança e aspirações que o seu triunfo político estimulou no proletariado, de que estoure uma crise revolucionária.

PREVENIR A “PRIMEIRA ONDA“
No entanto, muitos trotskistas estão fazendo uma analogia, perigosamente equivocada entre os governos de Blum, de 1936, e o de Mitterrand. Outros reconhecem as diferenças, mas reduzem-nas à variação do peso relativo dos partidos componentes da Frente Popular ou derivam-nas dos distintos regimes (república com formas parlamentares antes, bonapartismo com formas parlamentares agora). Em todo caso, crêem que estamos vivendo o que Trotsky em 1936 definiu como a preparação da “segunda onda“. Não é isso.
Trotsky analisou que, com a grande greve de 1936 (e não com o governo Blum), culminou a “primeira onda“ e começou a revolução francesa. Chamou à preparação cuidadosa da “segunda onda“ evitando atitudes impensadas e apressadas do movimento de massas. Esta deveria levar à greve geral insurrecional e colocar abertamente o problema do poder.
Hoje, na França, não estamos preparando a “segunda onda“, mas apenas a “primeira“. Ainda não existem greves como em 1936 ou em 1968. Veio o novo Blum, mas não a ocupação das fábricas. E Mitterrand subiu precisamente para prevenir e impedir que as ocupações se produzam.
A profunda diferença que existe entre Blum e Mitterrand é a chave para compreender o caráter específico do atual governo. Blum foi uma conseqüência da crise revolucionaria de 1936. Mitterrand vem impedir preventivamente que estoure uma crise revolucionária, ou que se repita uma grande greve como a de 1968.
Se Giscard continuasse, o regime corria o perigo certo de chegar a uma crise revolucionaria. Mitterrand, o seu Partido Socialista o Partido Comunista, a sua Confederação Geral do Trabalho (principal sindicato francês) e outros sindicatos, subiram ao poder para preveni-la.

SALVAR A V REPÚBLICA
De forma diretamente relacionada ao objetivo de prevenir a “primeira onda“, a Frente Popular propõe-se salvar a V República.
As conseqüências da greve de 1968, última razão da derrota de Giscard, colocam cada vez mais em questão as formas através das quais a burguesia francesa tem exercido a sua dominação durante um quarto de século. Por isso, a vitória política de 10 de Maio pôs na ordem do dia a necessidade de liquidação definitiva das instituições reacionárias da V república, pela ação extra-parlamentar do proletariado.
O governo frente-populista é a resposta contra-revolucionária a esse perigo. E o fato de que a burguesia tenha que tolerar este “último recurso“ é fruto da vitória Política das massas.
O conteúdo de colaboração de classes do governo Mitterrand expressa-se, acima de tudo, na sua vontade de preservar o essencial das suas instituições, fazendo algumas concessões formais, para desviar a luta contra elas.
Não é estranho, então, que um dos principais dirigentes burgueses e imperialistas, Chabam Delmas, “barão“ gaullista e arquiteto da V república, tenha “…constatado com satisfação que o presidente da República mantém nos terrenos da diplomacia, da defesa e das instituições; as orientações fundamentais da V República“.
E que René Monory, ex-ministro das finanças de Giscard-Barre, assegure: “Até agora, em todos os terrenos, o governo respeitou perfeitamente a Constituição; parece-me essencial que a respeite também neste ponto“ (das nacionalizações).
O próprio Mitterrand multiplicou-se em declarações insistindo que “se acomoda“, sem dificuldades, às instituições e que as reformas que pensa introduzir não são tão urgentes.

UMA POLÍTICA CONHECIDA
A política do novo governo francês e parte de um fenômeno geral. Em todos os lugares, a burguesia e a burocracia compreendem que devem fazer algumas concessões democráticas formais ao movimento de massas, para salvar seus atuais regimes. Isto por causa do grande ascenso revolucionário mundial em curso, que começou em 1968 e se acelerou extraordinariamente a partir de 1974-75, com a derrota do imperialismo americano no Vietnã.
Aplicam a política que Lampedusa, em O Leopardo, sintetizou com a frase: “Mudar algo para que tudo continue igual“. O czarismo, quando concedeu a Duma e eleições, recorreu a ela, com o mesmo propósito.
Denominamos esta política de bismarkismo senil. Bismarkismo, porque foi este o bonapartismo que, na Alemanha, fez concessões à burguesia, para servir o regime feudal dos junkers. Senil, porque se trata de uma manobra dos regimes burgueses bonapartistas, na etapa de decadência mortal do imperialismo e ascenso revolucionário dos trabalhadores.
Diferentes tipos de governos burgueses concordam em aplicar este bismarkismo senil para salvar os regimes bonapartistas ou semi-bonapartistas, com a técnica do Leopardo.
O franquismo, através da monarquia de Juan Carlos, outorgou as Cortes, legalizou as organizações operárias e cedeu o direito de voto, para apoiar-se na traição do PCE e do PSOE e, deste modo, salvar-se do impulso revolucionário do proletariado e das nacionalidades oprimidas. As ditaduras militares do Brasil, Equador e Peru fizeram ou estão fazendo manobras parecidas.
Neste sentido, sendo o primeiro frente-populista, e os outros diretamente burgueses, impõem-se uma comparação: Mitterrand está para a V República da mesma forma que Juan Carlos está para o franquismo ou Figueiredo para a ditadura militar brasileira.
Não se pode descartar que, nas próximas eleições espanholas o PSOE saia vitorioso. Poderia surgir urna Frente Popular de Felipe González e alguns setores burgueses, apoiada de fora por Carrillo.
Diríamos que esse governo frente-populista vem salvar a Monarquia, herdeira e continuadora do franquismo. A analogia transformar-se-ia em identidade. Diríamos de Felipe González o que dizemos hoje de Mitterrand: ele vem salvar a Monarquia, assim como este veio salvar o regime gaullista.

UMA POLITICA DURA A SERVIÇO DA BURGUESIA
Mitterrand assume o governo numa séria crise da economia francesa e sem que tenha havido urna “primeira onda“ de grandes greves, que o obrigue a fazer concessões.
Estes dois fatos impelirão seu governo a impor os duros planos da burguesia, de fome e desemprego, continuando a orientação de Giscard-Barre. Tentará convencer os trabalhadores de que o aceitem e se não o conseguir apelar a todos os meios.
Mauroy, primeiro-ministro, faz saber que “o governo está consciente de que o esforço de solidariedade nacional (…) não deve ser realizado unicamente pelas empresas“. E, continuando, enumera as medidas destinadas a ajudar os empresários.
Para o movimento operário e os setores populares, a vida se torna mais dura: tanto a inflação como o desemprego se acelerara durante os quatro meses de governo frente-populista.
Segundo informa a CGT, os funcionários públicos perderam 35% do poder aquisitivo do salário . No mês de agosto, computavam-se oficialmente 1.834.000 desempregados. Desses, 200 mil tinham-se produzidos na indústria, durante o último ano. Todos os comentários coincidimos nisto: “Esta situação não é nova, mas o movimento parece acelerar-se perigosamente, especialmente na indústria“.
E mais: “Dito isto, apesar da criação de empregos públicos; a incidência que o plano de economia de energia, os grandes estaleiros e o relançamento da construção de habitações terão sobre o emprego, não serão suficientes para estabilizar os efetivos de empregados no seu nível atual e evitar que prossiga o agravamento do desemprego“.
Em contrapartida, o governo preparou impostos sobre consumo popular. O diário do PC L`Humanité , aplicando a sua política de apoio crítico, assinalou: “O que é francamente criticável neste projeto de orçamento – se as informações publicadas na imprensa correspondem à realidade – é o recurso a certas medidas fiscais que atacarão particularmente as rendas mais modestas: será assim com o aumento importante das taxas sobre a gasolina (20 cêntimos o litro) com o aumento das tarifas do imposto automóvel (+ 25%) e com o aumento dos preços do tabaco e dos álcoois“.
As nacionalizações foram feitas com o mesmo critério. Quando o governo afirmou que as indenizações seriam justas, a Bolsa reagiu com uma importante alta das ações das empresas nacionalizáveis. Perante novas reclamações empresariais, é provável que os 30 bilhões de francos, inicialmente previstos para as indenizações, aumentem:
“A adoção do sistema de multicritérios, sugerida pelo Conselho de Estado, precisará de alguns bilhões a mais. Para o governo, o novo método aumenta em cerca de 23% o valor da indenização“.
O presidente da CNPF (central da patronal), François Ceyrac, disse sobre a política monetária: “As medidas tomadas, sem dúvida demasiado limitadas e às vezes de difícil aplicação, permitiram evitar o pior. É indispensável mantê-las e simplificá-las“.
E o juízo do próprio Ceyrac sobre a situação global é o seguinte: “Tendo-nos oposto aos princípios defendidos pela atual maioria antes das eleições, o nosso dever de responsáveis não é o de nos recusar a ver o governo, fazer a política de `terra arrasada` mas sim contribuir com as informações que retiramos da experiência para lhe permitir aplicar seus princípios. E como para cada um destes princípios existem muitas modalidades de aplicação, estamos no direito de pensar que há umas melhores que outras“.
Como vemos, é o oposto a uma guerra entre inimigos. O que há, em contrapartida, é uma atitude de pressão política e econômica para que o governo aplique o duro plano econômico burguês.
Se se desenvolve a primeira onda de greves, o governo pode se ver obrigado a efetuar concessões aos trabalhadores contraditórias com as necessidades de acumulação capitalista. Essas concessões e reformas, feitas para frear as lutas, seriam um subproduto destas.
Só se os mecanismos automáticos da economia permitissem uma reativação importante, Mitterrand poderia ampliar sua margem de manobra e encarar uma política de concessões.
É a hipótese menos provável. Tudo indica que a Frente Popular trará rapidamente maior miséria e desemprego para os trabalhadores, se não eclodir a `primeira onda` grevista e revolucionária que, por algum tempo, impeça isso.

DEFENDER O IMPERIALISMO
O governo Mitterrand sustentará as posições e interesses cio seu imperialismo. Isto implica que defenderá por todos os meios seus domínios coloniais e semicoloniais, estreitando cada vez mais seus laços com o imperialismo norte-americano.
Neste último aspecto, é reveladora a atitude mantida por Mitterrand na Reunião de Cúpula de Ottawa, apoiando o plano armamentista e contra-revolucionário de Reagan, assim como o anúncio feito pelo governo francês de que construirá um novo submarino atômico – o sétimo da sua frota nuclear – e avançará no estudo da bomba de nêutrons.
Como comenta o Le Monde: “É necessário voltar atrás na história das relações internacionais depois da guerra, ao belo tempo do tripartismo franco-anglo-americano que se desvaneceu em meados dos anos 50, para encontrar tanta harmonia entre Paris, Londres e Washington, pelo menos no que respeita às relações com Moscou“.
Por outro lado, a França é a segunda potência colonialista do mundo. Provavelmente também o é, após os Estados Unidos, quanto aos domínios semicoloniais. Através dos pactos de Eviam e OCAM, controla ferreamente as economias, os exércitos e inclusive os governos de suas ex-possessões de ultra-mar.
Que diz o governo a este respeito? Charles Hernu, ministro da Defesa de Mitterrand, declarou: “Nós temos, no momento, tais acordos com os países da África. Eles devem ser respeitados. Isto significa também que a França deve possuir os meios para sua intervenção exterior, quer dizer, em conseqüência disso, equipar-se. Devemos ter forças de intervenção“.
A Frente Popular conforma por todos os meios o seu descarado caráter burguês e imperialista. O próprio Mitterrand declarou à BBC de Londres que o seu país continuará Fabricando e vendendo material de guerra, necessário para a contínua modernização de seu exército.
Esta atitude, típica das Frentes Populares, é parte da sua criminosa e traidora política de defesa incondicional da casta de oficiais e da estrutura hierárquica das Forças Armadas, às quais hoje, talvez mais do que antes, a França oficial faz reverência cotidiana.

OS MINISTROS COMUNISTAS*
(Veja a nota da redação do Opinião Socialista sobre esta parte)
Um traço característico e novo do governo Mitterrand-Mauroy é a incorporação do PCF no gabinete, com quatro pastas ministeriais.
Este fato tem antecedentes bem precisos desde o último pós-guerra. Se descontarmos esse fenômeno especial dos governos stalinistas-burgueses que definimos para Angola e Moçambique, os casos mais importantes foram: na França e Itália, ao terminar a Segunda Guerra; no Chile, durante Salvador Allende; em Portugal, no começo da revolução, e em El Salvador, com a Junta que destituiu Romero, há dois anos.
A primeira diferença profunda é que todos esses partidos comunistas estavam no seu apogeu ou mantinham grande parte da sua força, enquanto que na França atual, depois da gravíssima derrota político-eleitoral, o stalinismo está no seu pior momento, apesar de suas posições sindicais.
Por outro lado, dentro da sua estratégia de excluir rapidamente o PC dos governos burgueses e de recorrer a eles só in extremis, o imperialismo teve seus matizes: opôs-se taxativamente no Chile e em Portugal; apoiou em El Salvador; combate, mas não à morte, em Angola e Moçambique. Hoje, na França, fez saber a sua oposição, mas sem desencadear, ainda, uma campanha feroz.
O que é certo é que a entrada cio PCF dá toda plenitude ao caráter frente-populista do governo Mitterrand-Mauroy. É indiscutível que demonstra a profundidade da crise em gestação: os dois aparatos contra-revolucionários são obrigados simultaneamente a colocar-se na primeira linha. Ambos têm que assumir as suas responsabilidades para deter as massas.
Além disso, há, na inclusão do PC, um cálculo político de Mitterrand e seu partido. Para a social-democracia seria perigoso deixar “solto“ o PC como eventual oposição. Crítico do governo, o stalinismo poderia recuperar-se de sua crise atual e obrigar o PS a devolver, talvez até com acréscimo, esses 25% da sua força que arrebatou nas eleições.
Mitterrand quer evitar o risco, amarrando-o e conservando o desmoronamento do stalinismo em benefício próprio e em benefício da burguesia.
A derrota cio PC é, de qualquer forma, um fenômeno contraditório. Por um lado, foi-lhe infligida pelo proletariado, que votou contra sua política divisionista e pró-Giscard. Mas, por outro lado, beneficia o aparato contra-revolucionário social-democrata e, através dele, o imperialismo, devido à inexistência de um partido trotskista com influência de massas que possa capitalizá-lo.
Apesar da presença stalinista contradizer sua estratégia e introduzir um grave fator de crise, os monopólios podem chegar a considerar, ou deixar a manobra do PS correr um tempo, ainda que criticando-a, pois favorece o seu objetivo de avançar para um sistema bipartidarista na França, no qual o PS hegemonize o apoio de esquerda.
Em resumo: a presença comunista no governo de Frente Popular deve-se a dois tipos de motivações e interesses. Uns são impostos pela gravidade da crise e são comuns ao conjunto dos exploradores e seus agentes, os aparatos operários traidores.
Os outros são mais específicos da social-democracia. Esta quer continuar a usufruir da fração da classe operária francesa que compreendeu que, para derrubar Giscard, era preciso arrebentar o ferrolho da política stalinista.

É INCOMPATÍVEL PARA A BURGUESIA UM GOVERNO PRESIDIDO PELO PS?
No mínimo desde 1968 a burguesia francesa vinha se preparando para a eventualidade de perder as eleições. A própria constituição bonapartista, gaullista de 1958, ao estipular a existência de formas parlamentares coexistindo com o poder presidencial, previa a integração ao regime de uma representação social-democrata.
A partir da crise de 1968, a adaptação mútua entre os partidos burgueses e a social-democracia (e, à sua maneira, o stalinismo), na perspectiva de que o PS hegemonizasse, como agora, uma Frente Popular, acelerou-se e não parou um instante.
Não só “a imprensa, o exército e a polícia“, como prognosticou Trotsky, protegeram a social-democracia, como também os bancos e toda a burguesia para preparar um PS e um candidato, Mitterrand, que, sabia-se, poderia chegar em qualquer eleição ao governo, e dar origem a um bonapartismo frente-populista.
A adaptação e preparação da burguesia para o indesejado momento em que tivesse que apelar ao “último recurso“ Mitterrand, tem o seu melhor exemplo no comportamento eleitoral da frente gaullista encabeçada por Chirac. Como se sabe, este não se uniu no primeiro escrutínio a Giscard e, no segundo, não colocou como questão de vida ou morte deter o avanço de Mitterrand. Converteu-se assim num dos fatores eleitoralmente decisivos para a vitória do PS.
Isto demonstra a crise política da burguesia, como também que tinha previsto apelar ao recurso de Mitterrand.
Por sua vez, Mitterrand adaptou-se durante décadas à burguesia e ao imperialismo francês. Não é uma surpresa que agora diga, com toda a naturalidade que “se acomoda“ à V República.
No decorrer dos últimos anos e até pouco tempo antes de sua vitória eleitoral, a OCI utilizou na sua análise e denunciou na sua imprensa a adaptação de Mitterrand, do Ps e da Frente Popular, aos interesses, necessidades e instituições da burguesia e da V República.
Denuncia a OCI, em 1971:
“Esta constituição bonapartista, Mitterrand julga inútil substituí-la. `Mais vale corrigi-la`, quer dizer, tentar construir um bonapartismo moderado e bem temperado ao nível de amplas camadas da burguesia francesa“.
E em 1973:
“A solução constitucional proposta pelo `Programa Comum` (da Frente Popular) respeita integralmente a Constituição de 1958, tanto no seu espírito como na sua letra“.
E em fevereiro de 1978:
“Mitterrand é um autêntico partidário do `Programa Comum de Governo`, da defesa da V República e de suas instituições, da `austeridade` e de tudo o que será necessário à sociedade burguesa e ao Estado burguês para sobreviver, incluindo se necessário, a repressão contra as massas“.
E em dezembro do mesmo ano:
“Ela (a corrente de Mitterrand) é igualmente forte em função dos problemas que se colocam à burguesia: tentar desesperadamente impedir que este regime se desmorone, e se abra uma crise revolucionária, é certamente indispensável, mas não menos indispensável é poder responder a esta eventualidade, que todo mundo sabe, é, em última análise, inevitável.
Por esta velha e mútua adaptação entre a burguesia e a social-democracia francesas, não acreditamos que exista, de forma abstrata, incompatibilidade entre elas.
Isto é confirmado pela situação atual, quatro meses depois da subida de Mitterrand ao governo. Os monopólios não desencadearam nenhuma campanha nacional e internacional preparando a derrubada do novo governo, nem a adulada casta militar levou a mão ao cinto para desembainhar a arma da restauração plena do bonapartismo ou do golpe fascista.
Longe de manter uma oposição violenta, frontal, no momento a atitude burguesa é de preocupação, mas tolerante. Exerce uma forte crítica sobre o governo, para arrancar-lhe mais vantagens – coisa que geralmente obtém – e para começar a capitalizar seu inevitável desprestígio.
Os líderes burgueses, dentro de sua crise política, estão fazendo seus planos, não sobre a perspectiva de uma derrubada violenta de Mitterrand, mas sim da reconquista do terreno perdido num calendário eleitoral que começa com as eleições cantonais de 1982 e discutem sobre a crise que se aproxima. Preocupa-lhes a presença do PCF no gabinete e, supremo temor, a futura conduta do movimento operário. Até quando este continuará sem irromper na cena política?
Le Figaro de 9 de setembro perguntava-se com temor: “Por quanto tempo a base aceitará os sacrifícios que recusava na época de Raymond Barre? (…) Por quanto tempo o aparato do Partido Comunista vai colaborar com os socialistas?“
E Les Echos analisava:
“Será necessário, colocando de lado os socialistas, esperar que um dia os comunistas os substituam e atrai-los assim para escolhas mais razoáveis? Ou devemos pensar que, face aos acontecimentos trágicos que virão inevitavelmente, os franceses se afastarão do PS de uma forma tão violenta como se aproximaram dele e que sua sucessão só poderá vir daqueles que tiverem praticado uma oposição sem concessões?“
Por enquanto, até o movimento de massas não irromper massivamente na arena, o mais grave elemento da contradição política que a burguesia e a sua V República mantém com governo de Mitterrand, produz-se pela participação do PC no gabinete. Nisto, existe uma ambivalência não resolvida: a presença stalinista é rejeitada pela burguesia francesa e pelo imperialismo norte-americano. Mas eles também precisam dela, para que o governe possa cumprir seu papel preventivo frente à “primeira onda“.
Esta contradição é, a rigor, insolúvel. Por isso, inclinamo-nos a prognosticar um agravamento da crise geral, com a aceleração da crise da burguesia e do stalinismo e com a crise do PS colocando-se abertamente.

TRÊS VARIANTES: “CHILENA, RUSSA E INGLESA“
Toda a situação evolui para uma crise crônica generalizada, que favorecerá o crescimento e irrupção da luta. A manutenção do bonapartismo bastardo da V República em vias de decomposição; a contradição política aguda que a presença do PC provoca no governo; o rápido desprestígio deste como conseqüência da aplicação de seu duro plano contra-revolucionário; a crise econômica e o ascenso do movimento operário – acelerado pela vitória eleitoral; tudo isso pode converter, a curto prazo, a crise crônica em crise revolucionária, nas condições nacionais e internacionais constituídas do 1968. O requisito é que o ascenso não se detenha.
Mas não se predetermina o curso da luta de classes de urna maneira rígida, única. Ele depende de muitos fatores. De modo que no curto prazo, nos próximos anos, não há um prognóstico nem um desenlace seguro, mas existem, esquematicamente, três alternativas possíveis: a “inglesa“, a “chilena“ e a “russa“.
Continuará a burguesia com a Frente Popular, defendendo a V República em crise e aceitando as suas regras do jogo, respeitando a alternância eleitoral, como na Inglaterra?
Ou, ao contrário, optará por liquidar as formas semi-parlamentares da V República, mediante um golpe bonapartista e fascista, como no Chile?
Conseguirá o partido revolucionário, cavalgando o ascenso, a suficiente influência de massas para derrotar o fascismo e a Frente Popular, ou o governo burguês estabelecido, quando eclodir a crise revolucionaria?

A PRIMEIRA ONDA É CHAVE
Estas perguntas só poderão ser respondidas quando soubermos se a curto prazo produzir-se-á urna “primeira onda“, igual ou superior à de 1936 ou 1968. Esta, e não outra, é a chave mestra dos próximos acontecimentos. Esta, e não outra, deve ser a preocupação dos revolucionários: a preparação, organização e o chamado à “primeira onda“, a partir das primeiras lutas que começaram: corno as dos ferroviários (que ocuparam a Gare de L`Est), a da Renault (greve nas fábricas de Le Mans e Billancourt), setores docentes, etc.
Em todo o caso, o importante não é discutir se a “primeira onda“ está para começar ou se já começou, mas, reconhecendo que ainda estamos muito longe de abril, maio e junho de 1936 ou de maio de 1968, lançarmo-nos a impulsionar com todas as forças os seus primeiros sintomas ou evidências.
Se a “primeira onda“ ocorrer rapidamente e não se detiver nem se desviar como as anteriores, entraremos na via das variantes “chilena“ ou “Russa“. Não será um caminho sem retorno: o capitalismo francês conservará muitos mecanismos de mediação e amortecimento. Nem mesmo nesse momento se poderá descartar, ainda, a variante “inglesa“. Mas, indiscutivelmente uma “primeira onda“ forte e persistente colocar-nos-á às portas do fascismo ou da revolução.
Em contrapartida, é categórico que sem uma “primeira onda“, grande e duradoura, que desencadeie o início da revolução francesa, entraremos em cheio na variante “inglesa“. Sobreviverá, então, a V República. Cairá certamente o atual governo com participação stalinista e surgirão outras combinações frente-populistas, presididas por Mitterrand. E, depois, os acontecimentos indicarão a evolução e se Mitterrand terá também que sair do governo.
A desilusão das massas pode fazer baixar os votos do PS e subir os do PC ou dos partidos burgueses. Será então inevitável uma crise política que afastará o PC do governo, passando, possivelmente, a colaborar de fora com o governo burguês de alternância de poder.
Dentro desta crise crônica instalada, o movimento operário não será derrotado. Não terá conseguido provocar uma situação revolucionária, mas continuará lutando contra os exploradores e os aparatos contra-revolucionários. Isso renovaria as condições para que o PS e setores mais fortes da burguesia, certamente sem o PC, realizassem combinações de Frente-Popular, ou, inclusive, fórmulas de unidade nacional com toda a burguesia, se a crise se tornar mais perigosa para ela.
O característico desta evolução “inglesa“, a nosso ver a menos provável das três que estão colocadas, seria o prolongamento da V República, mais ou menos crítica, mais ou menos agonizante. O seu manto cobriria quase todo o espectro da contra-revolução francesa, deixando fora o aparato stalinista, que teria de se conformar em apoiar o governo burguês, sem fazer parte dele.
É a hipótese ideal trabalhada hoje pela burguesia. Baseia-se naquela que, para ela, seria a melhor variante: poder prevenir ou deter rapidamente a “primeira onda“.
Só assim poderia se tornar realidade a produção de um governo, igual ao que um colunista de Le Figaro, de 8 de Setembro, considerou como o desideratum burguês:
“Quatro ministros de Estado: Giscard, Chirac (assim obrigados a terminar sua briga), Rocard, Jospin. Nas finanças, Raymond Barre. Sob que primeiro-ministro? Quem teria a autoridade necessária para dizer a estes homens que tanto se combateram `salvemos juntos a França`? O próprio Mitterrand“.

A ANALOGIA MAIS PERIGOSA
No marco internacional, o conjunto da situação francesa nos faz pressupor que, dentro das variáveis colocadas, a maior possibilidade é a de que estoure uma crise aguda, revolucionária. Como dissemos, ela nos levaria pelo caminho de um Outubro soviético ou o seu contrario: um pinochetaço a la chilena.
No entanto, a analogia mais perigosa é a que se pode fazer entre a França de Mitterrand e o Chile de Salvador Allende, sem levar em consideração a luta de classes.
Dessa forma, não se comete somente um erro metodológico – dissolver o presente em um futuro possível, porém hipotético – mas um crime político. Comparar Mitterrand em seus primeiros 120 dias de governo, com o Allende encurralado em seu final de mandato, é a mesma coisa que afirmar que estamos no prólogo da “segunda onda“, como nos tempos de Blum; leva-nos a embelezar Mitterrand pela negativa fazendo-nos acreditar que este goza do ódio “fascista“ da burguesia francesa.
Assim, oculta-se o plano contra-revolucionário que agora o governo está articulando, com a tolerância e expectativa da burguesia e Forças Armadas.
Dessa forma, se desarma as massas e o partido revolucionário, afastando-os de sua tarefa atual, e não futura, que é garantir a preparação e a erupção da “primeira onda“, bem como sua eficácia e contundência.
Aqueles que sugerem que, como provavelmente mais tarde deveremos lutar de armas nas mãos ao lado de Mitterrand contra os fascistas, agora devemos nos calar ante as massas e não dizer que Mitterrand encabeça um governo de burocratas canalhas e traidores, se convertem em agentes da Frente Popular e seu plano contra-revolucionário e liquidador do partido revolucionário. Assim, não fazem nada a não ser abrir caminho ao próprio fascismo.
Mitterrand não se parece com Allende acossado em final de mandato, mas com o Allende que subiu ao poder.
A Frente Popular chilena também chegou ao poder para desviar, mediante concessões e confusões, a ameaça iminente de um ascenso revolucionário. Não conseguiu.
Como Mitterrand, integrou em seu gabinete um setor da burguesia mais tarde fez a mesma coisa com vários generais). Assim que começou a instabilidade, por causa da presença dos comunistas no gabinete, como se insinua no caso de Mitterrand, instaurou-se de cheio uma crise crônica, que se combinou com os demais elementos da situação.
Aqui, as semelhanças se interrompem. A crise do governo Allende agravou-se rapidamente. O imperialismo dominante passou ao ataque frontal, não só por causa dos ministros comunistas, como por causa das nacionalizações. Estas, ainda que tímidas, foram um golpe sem comparação com a França, onde nem a burguesia monopolista e nem o imperialismo francês foram agredidos.
As medidas anti-imperialistas do Chile produziram uma divisão da burguesia nacional, já que no início, um setor dela – o do ex-presidente Frei – deu-lhes o seu apoio. Os setores mais ligados ao imperialismo, e o próprio, certamente, passaram ao ataque.
Porém a maior diferença é entre os níveis da luta de classes. Desde a vitória eleitoral de Allende, o grau de mobilização das massas chilenas foi muito superior ao da França. Por exemplo, as manifestações da vitória em Santiago, se comparadas às manifestações da Bastilha cio 10 de maio em Paris, reduzem este último a um festejo de bairro.
No Chile, esta combatividade resultou rapidamente em um salto qualitativo, e chegou a um extremo, que se situa a anos-luz de distância do atual grau de combatividade da classe operária francesa. A revolução socialista começou a se desenvolver, até atingir um nível insuportável para o regime capitalista.
Dois exemplos ilustram isso: o aparecimento de formas semi-soviéticas ou diretamente soviéticas, os cordões industriais, que começaram a expropriar a burguesia e a colocar o problema do poder. Além disso, desenvolveu-se um movimento na tropa e na sub-oficialidade, principalmente na Marinha, contra a casta dos oficiais; movimento este que ameaçava estender os embriões de poder dual às forças armadas.
Diante disso, e diante do fato de que havia uma aguda crise econômica, com mil por cento de inflação anual, a burguesia e a classe média alinharam-se totalmente com o imperialismo, tendo à sua frente Pinochet. Os burgueses como Frei, que inicialmente apoiaram o governo, já um ano antes começaram a apoiar o golpe.
Como vemos, não existe nenhuma semelhança entre a situação do governo Mitterrand e a fase final do governo Allende.
É possível que futuramente se aproximem, mas isso deverá acontecer quando a luta de classes na França der um salto tão grande como o que assistimos no Chile.
Por isso é tão perigoso fazer uma falsa analogia das duas situações. Em todo caso, o paralelo possível seria a aquele entre o oportunismo das correntes operárias de ambos os países. O MIR e o PSR (seção do SU), acompanhando o stalinismo e a social-democracia, passaram todo o tempo, e desde o início, alinhados com Allende, sem educar as massas sobre o caráter contra-revolucionário que este possuía, e sem colocar para elas uma alternativa de poder.
Repetiram até se cansarem o argumento que começamos a ouvir na França: que, como existe o perigo de um golpe fascista, não temos que atacar o governo.
Tal oportunismo levou o grosso das correntes operárias, seguidoras do stalinismo e da social-democracia. a desperdiçarem os anos de heróica luta do proletariado, sem construírem o partido revolucionário que fosse capaz de barrar os passos de Pinochet e derrubar Allende, fazendo a mesma coisa que os bolcheviques fizeram com Kornilov e Kerensky. Dessa forma, essas correntes facilitaram a tarefa desmobilizadora e confusionista, Frente Popular a serviço da contra-revolução, que conduziu à vitória do golpe.

Veja a primeira parte do texto “O Governo Mitterrand, suas perspectivas e nossa política“, de Nahuel Moreno

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