O G8 em Áquila: usar o terremoto para amordaçar a divergência

Abruzzo, na Itália, é uma região arrasada pelo terremoto, ocorrido no último dia 29 de abril, que aguçou a já difundida crise econômica. São inumeráveis as empresas que estão fechando. É uma região maltratada pelos governos de centro-esquerda, cujas experiências se avariaram por acusações muito fortes a seus máximos expoentes, acusações que não foram pagas pelos interessados, senão pelos cidadãos de Abruzzo, através do desastre das contas da saúde, que levou à reintrodução dos odiosos tickets sobre os remédios, a frustrada estabilidade aos trabalhadores precários dos AUSL (sistema de saúde), além das centenas de trabalhadores do famoso (Vincenzo) Angelini – grande acusador de (Ottaviano) Del Turco e proprietário de numerosas clínicas privadas – que não vêem um salário há meses.

Por que um G8 em Áquila: vontade de amordaçar a divergência?
Cada visita de Berlusconi à região serve para diversos serviços televisivos, o conflito é inexistente nos meios de comunicação. A cada dia registram-se tensões nos acampamentos, onde vivem os refugiados do terremoto, e pouco ou nada se sabe. Nenhuma palavra nos jornais nacionais sobre a região da província da Áquila, em torno de 49 municípios considerados vítimas de terremotos pelo governo e que estão em contínua mobilização.

Até no coração da mesma cidade de Áquila, após o clamor dos primeiros momentos e após as primeiras promessas de reconstrução, a junta municipal autorizou, em 12 de maio passado, aos cidadãos de Áquila que têm a possibilidade de edificar um manufaturado temporário, que não é outra coisa que uma barraca (1).

Neste contexto, qual pode ser o instrumento mais incisivo para ocultar as dificuldades da reconstrução? Para ocultar as investigações sobre as responsabilidades dos desabamentos tão dramáticos como evitáveis, se as edificações tivessem sido construídas segundo as imprescindíveis técnicas de construção? Qual é a solução? Numa região destruída material e socialmente, se desenvolve o encontro dos países do G8, uma escolha a dedo para a “instrumentalização do desastre” e, um desafio às organizações que se opõem ao G8. Na prontidão dos fatos, o próprio Berlusconi disse: “não acho que o Não Global (referência a quem se opõe à globalização) terá a cara de vir a estes lugares a organizar manifestações duras como aquelas a que nos acostumados no passado” (2).

Já seus jornais alertam sobre os riscos das manifestações. O procurador de Áquila, após ter dito que, além dos manifestantes pacíficos, poderão ter também “contestatários violentos”, afirmando: “Como Áquila é um palco ainda que triste, onde todos tratam de se fazer notar, não excluímos que também os manifestantes, por motivos justos ou equivocados, aparecerão aqui e farão manifestações sobre as quais nós estaremos atentos” (3).

Não é difícil imaginar que, onde se detectassem tensões, se buscaria sufocar todo o tipo de contestações do chamado Não Global aos cidadãos de Áquila e das regiões excluídas da reconstrução. As populações locais, já obrigadas a viver em acampamentos onde sua liberdade é limitada fortemente – há acampamentos onde “se entra e se sai somente com o documento de identidade” e nos que “a cada aglomeração de natureza política tem que ser autorizada” (4) – verão sua cidade ulteriormente militarizada com uma concentração de forças da ordem que sempre é o marco da cúpula dos grandes e que, neste caso, será ainda mais massivo, se diz que desde uma semana antes serão fechadas as principais vias de comunicação que levam à cidade.

Organização dos protestos
Uma primeira importante etapa para um protesto da população de Abruzzo foi o último G8 sobre economia, realizado em Lecce, em 12 e 13 de junho passado. Na cidade salentina, realizou-se uma passeata de movimentos, acompanhados pelo PdAC pugliese, com cerca de 5 mil participantes que definiram reunir-se em Áquila, o que será o momento de maior contestação às políticas econômicas das grandes potências econômicas mundiais.

As organizações contra o G8, considerando impraticável o desenvolvimento de uma resposta NÃO G8 e de uma marcha internacional em Áquila (seja pelos perfis organizativos ou por respeito para a população golpeada e castigada pelo terremoto) planejou uma série de iniciativas de 2 a 10 de julho.

No dia 2 de julho, desenvolveram-se muitas iniciativas na Sardenha; no dia 3 em Bonefro (CB) um congresso sobre a “economia da catástrofe”; no dia 4, manifestações em Vicenza contra as bases dos EUA; no dia 7 de julho, em Roma, por ocasião da chegada dos grandes, se realizará o Dia da Recepção às Potências da Terra, com iniciativas diversas e praças sociais anticrise; no mesmo dia 7, se fará a primeira iniciativa em Abruzzo, em Pescara, onde se desenvolverá uma iniciativa de Goletta Verde contra o “decreto de segurança”, em solidariedade com os imigrantes, com o título de “Abruzzo é um porto de mar, nós não rejeitamos!”, enquanto em 9 de julho se desenvolverão na cidade iniciativas em defesa da água como bem comum da humanidade; no dia 8 de julho ocorrerão iniciativas em várias cidades (Nápoles, Gênova, Pádua, Bolonha, Milão), com o título Mapa da Crise e se discutirão a precariedade, o desemprego e a crise; em 10 de julho se realizará uma marcha nos territórios do terremoto (o documento da última reunião das associações contra o G8 expressa que não há uma posição única sobre este projeto, pelo que para ter notícias sobre a localização e a realização da marcha, se deve consultar o site abruzzosocialforum.org, onde se publicam os documentos das assembléias nacionais NÃO G8).

A participação em massa nas iniciativas no território de Abruzzo será o meio mais incisivo para manifestar a solidariedade com a população golpeada e a oposição às políticas do capitalismo que mostrará, por ocasião da Cúpula, seu rosto mais cínico, bárbaro e repressivo.

NOTAS:
1.
Como informa repubblica.it, (22/05/2009): “L’Aquila, ricostruzione fai-dá-te. Chi può se edifichi um ricovero”.
2. Corriere.it de 23.04.2009
3. primadanoi.it de 13.06.2009
4. Entrevista a um “habitante” de acampamentos, reproduzida por repubblica.it (22/05/2009), no artigo já citado.

*PdAC é o Partido da Alternativa Comunista, seção italiana da Liga Internacional dos Trabalhadores – Quarta Internacional (LIT-QI)