O futebol amordaçado em Honduras

A ditadura em Honduras está revivendo cenas que pareciam ter ficado no passado. Sequestro de presidente, censura, assassinatos. Até um estádio usado para guardar os presos, como na ditadura chilena. Os ditadores têm usado a heroica classificação da seleção de Honduras a seu favor.

Quase imediatamente após o término da partida com El Salvador, Micheletti apareceu na TV, decretando feriado, para que a população comemorasse a vitória. O ditador deu parabéns aos jogadores e ao técnico e declarou dois heróis: Carlos Pavón, autor do gol contra El Salvador, e o norte-americano Jonathan Bornstein, que empatou a partida com os costarriquenhos, garantindo a vaga de Honduras. Micheletti alfinetou o bloqueio diplomático feito por governos de vários países, entre eles o dos EUA. “Estamos agradecidos aos gringos, que não nos deram o visto (de entrada), mas nos deram o visto para o Mundial.”

A estratégia dos golpistas teve início ainda antes do jogo, quando o governo colocou ônibus de graça para os que quisessem viajar ao país vizinho e apoiar a seleção. Depois da vitória, os golpistas desviaram o percurso dos jogadores, trazendo-os para uma homenagem no palácio, com transmissão pela TV.

Três jogadores se recusaram a receber a homenagem. Entre eles, o capitão da equipe, Amado Guevara. Sua mãe, Flor Guevara, tem participado da resistência.

A conquista da vaga na Copa coincidiu com o fim do prazo dado pelo presidente deposto, Manuel Zelaya, para o término das negociações. E o ditador apostou na festa para ocultar as manobras. Chegou a usar o futebol para ensaiar um discurso pacifista – “somos um país de paz e queremos a paz”, enquanto recusava-se a aceitar a volta de Zelaya.

Ame-o ou deixe-o
Em sua única participação, em 1982, a seleção de Honduras fez uma campanha mais do que honrada, arrancando três empates, inclusive com a Espanha, anfitriã. Por muito pouco, não se classificou para a fase seguinte, mas seus jogadores até hoje são considerados heróis no país.

Uma proeza como essa moveu multidões. A paixão pelo futebol fez com que os hondurenhos comemorassem por toda a noite.

Nos jornais que apoiam o golpe, o governo iniciou uma campanha afirmando que os partidários de Zelaya e a resistência torciam contra a seleção. Os jornais oficiais chegaram a inventar um “boicote” como parte da guerra de propaganda.

É até possível que uma parte da resistência possa ter calculado que uma vitória em campo pudesse ser manipulada pelo regime e, desta forma, repetiu-se o dilema da esquerda brasileira em 1970. Ainda assim, como ocorreu diante dos lances de Pelé, nada mais natural que se render à paixão do esporte e se juntar à torcida pelos jogadores. Driblando a ditadura.

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