A guerra do Rio da Prata

Argentina 1 x 0 UruguaiA seleção argentina parecia fazer de tudo para não ir à Copa do Mundo. Derrotas inexplicáveis de um time que era uma pálida lembrança da seleção campeã. Tragédias seguidas em casa, vexame em Assunção, tristeza nacional. A lembrança da única vez em que disputou uma repescagem, contra a Austrália, assombrava os torcedores.
A partida contra o Uruguai foi histórica. Argentinos atravessaram o rio que separa os dois países para assistir ao duelo no estádio Centenário. Todo o continente parecia acompanhar. Em Santiago, a seleção chilena recebia os equatorianos, também com chances de classificação.

Mas, em um jogo marcado pela emoção, coube a um reserva fazer o único gol que deu a vitória e a vaga aos argentinos.

Dios
Como jogador, Maradona foi Deus algumas vezes. Aos 16 anos, na primeira vez em que tocou na bola como profissional, ele jogou-a debaixo das pernas do zagueiro. Anos depois, declarou: “nesse dia, toquei o céu com as mãos”. Dez anos depois, em um mundial, foi com as mãos que ele levou os argentinos aos céus, com o toque na bola no gol contra a Inglaterra.

Ele está ao lado de Gardel, Evita, Perón. Seu retrato está espalhado por todos os cantos da Argentina. Tanto quanto o rosto de Che Guevara, que ele mesmo carrega tatuado no braço. Todos os seus exageros, tropeços e erros são perdoados. Mesmo quando viveu publicamente a agonia do vício, expondo suas fraquezas em rede nacional, os argentinos sofreram juntos, impotentes, torcendo pela recuperação.
Como técnico, às vésperas do derradeiro jogo, 70% dos argentinos consideravam-no como principal responsável pelos erros do time e pediam sua saída. Com o gol, pulou, chorou e xingou com a mesma intensidade com que sofreu nas últimas semanas.
Mas nenhuma explosão de alegria pode ocultar sua trajetória como treinador. Como jogador, Maradona foi “Dios”. Como técnico, ele é mortal, uma peça do enorme negócio que se tornou o futebol, preso a figuras como Julio Grondona, há 30 anos controlando a Federação Argentina de Futebol.

Os brasileiros, já classificados, sequer se importaram com o empate morno com a Venezuela. E se dividiram sobre o destino de nossos “hermanos”. Muitos chegaram a torcer pela eliminação de nossos maiores adversários. Mas nenhuma rivalidade pode ser maior do que a ausência de uma seleção como a Argentina na Copa. Torcemos pelo futebol argentino, para que ele volte a brilhar. E para que nossos confrontos continuem escrevendo a história do futebol.

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