O fundo do poço


Crise da água atinge as maiores cidades do país; em São Paulo, metade da água que abastece a metrópole poderá acabar até o meio do ano

É grave a situação do abastecimento de água em São Paulo. Nos últimos dias, o corte de água se ampliou. Apesar de negar, o governo Geraldo Alckmin (PSDB) impôs um racionamento que atinge, principalmente, os bairros e regiões mais pobres. Neles, falta água por dois ou três dias consecutivos.

A Sabesp, empresa de abastecimento de água do estado, anunciou que pode adotar rodízio de cinco dias sem água por semana. Enquanto isso, a água do Sistema Cantareira, que abastece metade da região metropolitana, continua diminuindo e registrou 5% da sua capacidade.

Segundo o Centro Nacional de Monitoramento e Alerta de Desastres Naturais (Cemaden), do Ministério da Ciência e Tecnologia, as represas do Cantareira poderão secar em junho. Ou seja, metade da água da maior cidade da América do Sul pode simplesmente acabar. É possível imaginar a dimensão da tragédia social que se abaterá sobre a metrópole.

Desesperado, Alckmin disse que poderá utilizar água da poluída represa Billings. As águas da represa são as mesmas dos superpoluídos Rio Pinheiros e Tietê, impróprias para o consumo humano.

Belo Horizonte e Rio de Janeiro
A crise da água também chegou a Belo Horizonte e Rio de Janeiro. Na capital mineira, o sistema Paraopeba, que abastece os 34 municípios da região metropolitana, está com somente 30% de seu volume. O governador Fernando Pimentel (PT) declarou que o estado poderá sofrer racionamento de água nos próximos três meses.

Mas a crise passa longe das mineradoras. Em meio à falta de água, os mineriodutos, tubulações que levam o minério de ferro misturado com água aos portos, continuam desperdiçando um recurso precioso. Essa água é suficiente para suprir uma cidade de 1,6 milhão de habitantes.

No Rio, a maioria das represas que abastece a cidade está prestes a se esgotar. O governador Luiz Fernando Pezão (PMDB) minimizou a crise e disse que o Estado vem investindo em obras de infraestrutura hídrica nos últimos anos. Mas a realidade é bem diferente. A Cedae, empresa responsável pelo abastecimento, vem sendo destruída pelos últimos governos, com ampliação das terceirizações e falta de investimentos. A intenção foi desmoralizar a Cedae para depois privatizá-la. O resultado está aí.

O Brasil é um dos países mais ricos em água do mundo, com cerca de 13% de toda na água doce do planeta. Mas o maior consumidor de água no país é a agricultura, especialmente o agronegócio (72%), seguido pela indústria (22%) e residências (6%). A produção do agronegócio é voltada para exportação e tem resultado em desastres ambientais, como a contaminação dos rios e do solo por agrotóxicos. Em 2013, o setor gastou 200 trilhões de litros de água na produção de soja, carne bovina e suína, milho e café. Isso representa 200 Sistemas Canteira cheios.

Privatização é o que gera crise

A imprensa e os governos têm responsabilizado a natureza pela falta de água. Mas a crise não é simplesmente resultado de “fenômenos naturais”. Em 2003, quando Alckmin já era governador, uma severa seca levou o Sistema Cantareira a 1% de sua capacidade. As chuvas do ano seguinte salvaram o tucano, mas nenhuma providência foi tomada para impedir uma nova crise. Em 2012, um relatório da Sabesp para seus investidores já apontava para riscos de desabastecimento. Novamente, nada foi feito por Alckmin.

Desde 2002, a Sabesp passou por um processo de privatização. Hoje, 49% das ações da empresa estão divididos entre acionistas brasileiros e estrangeiros. A Sabesp deixou de enxergar a água como um bem público para transformá-la em mercadoria e proporcionar lucros aos seus acionistas. Por isso, nenhum investimento para ampliar o tratamento de água, a captação ou melhorar a distribuição foi realizado.

A privatização também avançou em Minas Gerais. A Copasa começou a ser privatizada em 2003 pelo então governador Aécio Neves (PSDB), com a venda de ações na Bolsa de Valores. Hoje, 73% dos acionistas são estrangeiros.

No Rio, o sucateamento da Cedae imposto pelo governo Cabral tinha por objetivo privatizá-la. Hoje, a Nova Cedae é empresa de capital misto e o novo sistema de abastecimento da cidade (o projeto Guandú II) foi entregue ao capital privado por meio de Parcerias Público-Privadas (PPPs).

Não faltaram avisos sobre a possibilidade da crise hídrica. Faltou sim investimentos que não foram realizados para não diminuir os lucros dos empresários.

É preciso reestatizar estas empresas e investir em infraestrutura de captação, tratamento e distribuição de água; na recuperação de rios e mananciais e realizar a reforma urbana para atacar a especulação imobiliária, que leva a população mais pobre a ocupar as áreas próximas das fontes de água.