O dilema da esquerda do PT

Heloísa Helena, Babá e Lindberg fizeram críticas às medidas neoliberais do governo Lula. Esses companheiros vivem um dilema: ou rompem com o governo e votam contra a reforma da previdência, a autonomia do BC e o projeto do FMI que vem sendo aplicado, ou aceitam a disciplina do PT e se tornam cúmplices dos ataques contra os trabalhadores

``HeloísaHá algumas semanas houve na imprensa uma grande repercussão das declarações da senadora Heloísa Helena (PT-AL) que negou-se a votar em favor da nomeação de Henrique Meireles, para o Banco Central (BC), e de Sarney, para a presidência do Senado.
Em seguida Babá, deputado federal (PT-PA), levantou uma polêmica aberta com Antônio Palocci sobre os rumos da política econômica. Lindberg Farias (PT-RJ) também se manifestou no mesmo sentido.
A direção do PT ameaçou punir estes parlamentares. Houve uma negociação e aparentemente um acordo. O assunto saiu de cena. Porém, as votações dos projetos e medidas do governo poderão suscitar um embate ainda maior.
O governo do PT, que veio com promessas de mudanças, está dando continuidade à política econômica de FHC. As “mudanças” que estão ocorrendo são para pior: aumento da taxa de juros, elevação do superávit primário, cortes dos gastos sociais, aumento dos preços e tarifas, continuidade da reforma da previdência de FHC e autonomia do BC.
Esta política tem conseqüências: está levando ao começo – repetimos: apenas começo – do desgaste do governo Lula. Não se trata ainda de um fenômeno de massas, pois seguem existindo esperançosas ilusões de melhora de vida. Mas já há uma insatisfação crescente entre os ativistas mais politizados que não foram tragados para o aparato de Estado. O clima já não é mais de “oba-oba”, mas de perplexidade em amplas camadas.
Heloísa Helena ocupou, com suas declarações, um lugar nos corações e nas mentes de todo esse setor crítico na base. “Aí está alguém do PT que critica estes absurdos”. A direção do PT recuou da ameaça de punição imediata quando percebeu, pelas pesquisas de opinião, que existia uma ampla oposição a qualquer represália contra a senadora.

Votar contra ou a favor do governo: eis a questão

Estes companheiros tiveram o mérito de, pelo menos, denunciar as medidas do governo, coisa que a maioria da esquerda petista não fez.
Mas este setor minoritário da esquerda petista vive um grande dilema: vai ter de votar contra ou a favor das medidas neoliberais do governo que representam um ataque claro contra os trabalhadores e a soberania. A direção do PT ameaça expulsar quem votar contra. O que farão Heloísa Helena, Babá e Lindberg?
Até agora, suas críticas não citaram diretamente Lula. Heloísa Helena, depois de criticar a indicação de Sarney para a presidência do Senado, disse: “Não acredito que o que está acontecendo seja culpa de Lula, não é uma questão de malevolência individual. O que está havendo é uma inaceitável demonstração de fraqueza do partido, de não se apropriar de um momento tão belo para viabilizar as mudanças profundas de que o Brasil precisa e que o PT prometeu em seu programa.” (Veja). Heloísa Helena está equivocada e deveria saber que isso não é assim. Palocci e Meirelles não dariam um passo sem o consentimento de Lula.
Esses companheiros não criticam Lula, porque consideram este como “seu” governo. Lindberg chegou a declarar que “a derrota do governo seria a derrota de toda a esquerda” (FSP). Babá não ficou atrás: “Não sou nenhum maluco que quer desestabilizar o governo” (FSP).
Essa é uma boa discussão: De quem é o governo? Para um observador com um mínimo de objetividade, a dinâmica das decisões fundamentais do governo Lula é dada pelos interesses do capital financeiro e ditada pelo FMI e Banco Mundial.
Ao seguir reivindicando o governo Lula como seu, estes companheiros estão assumindo parte da responsabilidade com todas as suas medidas. Não se trata de qualquer governo: Lula apóia-se na confiança dos trabalhadores para entregar o Brasil à Alca e está preparando ataques às massas que nem mesmo FHC conseguiu desferir.
Esses companheiros também falam que “esse governo tem que dar certo!” O que isso significa? Dar certo seria aprovar a reforma da previdência e a autonomia do BC? Todos os que defendem os interesses dos trabalhadores devem querer que o governo seja derrotado nestes temas.
Essa discussão terá uma conseqüência direta na hora da votação das medidas propostas por Lula – e não só por Palocci, Meirelles, Sarney e cia. Se esses parlamentares, por qualquer consideração tática, votarem a favor do governo ou se abstiverem, estarão sendo cúmplices de ataques contra os trabalhadores.

Para se manter ao lado dos trabalhadores, parlamentares terão de votar contra o governo

Post author Eduardo Almeida,
da Direção Nacional do PSTU
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