Relato de Heleno de Oliveira, operário da CSN Mineração, em Congonhas (MG)

Túlio Rocha 

O descaso que a CSN e demais mineradoras da região têm com as cidades e seus trabalhadores não é nada novo, todos os anos elas lucram bilhões e deixam somente poluição, doenças e mortes. A política da CSN e demais empresas reflete o modelo de mineração adotado no Brasil e em toda a América Latina. Por exemplo, em janeiro deste ano completou-se 1 ano do crime da Vale, em Brumadinho, que deixou 272 mortos e, em novembro, serão 5 anos do crime da Samarco, em Mariana.

Em todos esses crimes, os responsáveis ainda seguem sem nenhuma punição, enquanto as empresas continuam batendo recordes de produção e lucros para seus acionistas.

Com o avanço da Covid-19 que já matou mais de 47 mil pessoas ao redor do mundo segundo a Organização Mundial de Saúde, as mineradoras continuam com sua irresponsabilidade perante seus trabalhadores e as cidades, e se recusam a seguir as orientações dos especialistas de afastamento social como a forma mais eficaz de parar o avanço do vírus.

Heleno de Oliveira, trabalhador da CSN Mineração relata seu dia a dia dentro da mina Casa de Pedra:

“Há muitos anos a CSN vem atacando seus trabalhadores, e o pior dos ataques é nesse momento em que estamos vivendo a pandemia do coronavírus, onde a CSN continua explorando seus operários sem sequer preocupar com a saúde dos mesmos.

Estamos trabalhando nestes dias com muito medo, muitos estão preocupados, pois a CSN até agora tomou como medidas de segurança somente colocar álcool gel em algumas áreas e nos restaurantes e umas plaquinhas orientando manter distância entre as pessoas, ou seja, nenhuma medida de segurança que nos traga tranquilidade.

Vários operários estão passando mal dentro da mina, e a CSN está encaminhando para hospitais da região. Somente os cargos de chefia foram afastados, mas o restante da turma está trabalhando normalmente, o que deixa as famílias muito preocupadas”.

Para o trabalhador, a contaminação

O relato de Heleno nos mostra a irresponsabilidade e total descaso que a empresa tem com seus trabalhadores e com a cidade. Se bem é verdade que qualquer pessoa pode ser infectada com o vírus, claramente os trabalhadores da produção, os que mantêm a empresa funcionando, de fato, são os mais propícios a contrair o vírus. Os gerentes, acionistas e donos da mineradora, enquanto estão em casa seguindo as orientações médicas de isolamento, continuam enchendo o bolso de dinheiro e deixam os trabalhadores correrem todos os riscos de se infectarem.

“Para piorar, fazemos viagens em ônibus lotados, tem várias áreas sem nenhuma condição de segurança, pois algumas faltam, até sabão e papel toalha para limpar as mãos, além de áreas que faltam produtos de limpeza, copos descartáveis e até mascaras”, relata Heleno.

As poucas medidas de segurança tomadas pela CSN são completamente insuficientes. Não será com placas recomendando o afastamento pessoal ou algumas garrafas de álcool em gel que vão evitar a propagação do vírus.

Para o patrão, o lucro

Dinheiro nunca faltou, a Vale lucrou R$ 84 bilhões nos últimos nove anos e a CSN de R$ 2, 25 bilhões só em 2019. Heleno, como um dos muitos trabalhadores que ajudaram a produzir esses bilhões de reais, relata que “o que mais deixa o trabalhador indignado é que, mesmo com essa vida boa, mesmo com tantos ganhos, a empresa sempre nos ameaça com a possibilidade de turno de 12h, o que significaria mais trabalho e menos emprego”.

Nada mais mentiroso que dizer que as empresas quebrariam se parassem a produção. Não o fazem por dois motivos simples: primeiro porque, se os donos e acionistas contraem o vírus, serão tratados nos melhores hospitais da país; e segundo porque, para essas empresas, o lucro vale muito mais do que a vida, como foi demonstrado no crime de Brumadinho.

Toda essa riqueza produzida que vai parar nas mãos dos patrões e acionistas é dos trabalhadores e da população. É hora de usar, então, essa riqueza para garantir a total paralisação das mineradoras, acompanhada de estabilidade no emprego para todos os trabalhadores com remuneração integral, incluindo as empresas terceirizadas. Além disso, que as mineradoras invistam na saúde pública das cidades, construindo leitos, distribuindo itens de prevenção, financiando testes para todos os moradores. E também é preciso criar um fundo emergencial de salvamento, garantindo empréstimos a juros zero para pequenos empresários e agricultores para manterem seus negócios em tempos de crise.

A política de Bolsonaro e Zema é assassina

A cada pronunciamento, Bolsonaro demostra que é o legítimo representante da barbárie capitalista. Ao negar todas as orientações da OMS, sair para tirar fotos com manifestantes que pediam o fechamento do Congresso Nacional, e gastar R$ 4,8 milhões para colocar a população em risco com a campanha “o Brasil não pode parar”, Bolsonaro tem uma postura criminosa e genocida com a saúde do povo. O governador de Minas Gerais, Romeu Zema (Novo), que anda de braços dados a Bolsonaro, já estuda a possibilidade de reabrir o comércio no estado, uma política igualmente genocida.

É urgente que o governo pare de pagar a dívida pública. Além disso, é necessário cancelar a PEC do teto que, por 20 anos, limita os investimentos em saúde e outros serviços básicos para a população. Dinheiro para combater o vírus e investir em saúde e ciência não falta!

O capitalismo nos mata, com lama, vírus e fome

Recentemente, um estudo demonstrou que 1% mais rico do mundo detém mais do que o dobro da riqueza de 6,9 bilhões de pessoas. Essa é a demonstração nua e crua de como funciona o capitalismo. Todos os bilhões que a Vale e a CSN lucraram nos últimos anos e os bilhões que o governo brasileiro paga religiosamente todos os anos aos banqueiros vão parar exatamente nas mãos desse 1%. Toda essa riqueza é produzida pelos trabalhadores de todo o mundo, seja dos metalúrgicos estadunidenses, ou dos mineiros sul-africanos, todo e qualquer trabalhador do mundo é roubado por esse 1% da população todos os dias quando sai para trabalhar.

E, mesmo com tanta riqueza produzida todos os dias por nós trabalhadores, somos obrigados a presenciar coisas que não deveriam sequer fazer parte da nossa imaginação. No início do ano, em Belo Horizonte, morreram dezenas de pessoas, porque choveu. Segundo a ONU, 820 milhões de pessoas no mundo passam fome, e agora um vírus se alastra por todo o mundo. Com tanta riqueza que produzimos, é inaceitável que uma chuva, a falta do que comer ou um vírus mate as mesmas pessoas que produzem a riqueza que vai parar nas mãos desse 1%.

Socialismo ou morte

A única possibilidade que nossa classe tem de sobreviver à barbárie capitalista é fazendo uma revolução socialista no mundo. É uma revolução porque temos que destruir o capitalismo, matar o que nos mata. Hoje toda essa riqueza produzida segue uma lógica: o lucro (para aquele 1%). Temos que destruir essa lógica e produzir o que a população necessita: respiradores artificias ou dezenas de modelos diferentes de celulares todos os anos, o que necessitamos? Precisamos extrair desenfreadamente minério ou extraímos somente o necessário? A saúde e a educação são para quem pode pagar ou para todos?

Todos os meios de produção de riqueza hoje estão nas mãos desse 1% e, por isso, serve a seus interesses. Para que sirva aos interesses de toda a população, todas as minas e fábricas têm que estar nas mãos do povo, dirigida por conselhos populares com representantes que não terão nenhum privilégio e com mandatos revogáveis. Esses conselhos de trabalhadores decidirão o que é necessário produzir para suprir as necessidades da população. Se tudo estiver voltado para suprir as necessidades do povo, no futuro, não acreditarão que uma chuva matou dezenas de pessoas porque elas não tinham condições de construir uma casa em local seguro, ou tampouco verão relatos de trabalhadores receosos pela própria vida, porque sua condição de trabalho não é favorável para protegê-la, como vimos nas falas do operário Heleno.