O canto geral de Neruda

O centenário de Pablo Neruda é um bom momento para relembrar a obra e a vida de um dos maiores poetas latino-americanos“Quem não conhece o bosque chileno não conhece este planeta. Daquelas terras, daquele barro, daquele silêncio, eu saí a andar, a cantar pelo mundo.”

No dia 12 de julho, Pablo Neruda completaria cem anos. Nasceu na cidade de Parral, no Chile e nesse país conheceu as injustiças da sociedade, que fizeram nascer seu sentimento coletivo. Depois, resolveu cantar sua poesia em outras partes do mundo, pois as necessidades que ele vira no povo chileno eram as necessidades do homem em toda parte.
Mais que comemorar seus cem anos de vida, cerca de 50 países celebram sua poesia e mensagem política. A simplicidade poética de seus versos comove. Neruda falava do povo, do homem, de maneira próxima e cotidiana e, ao mesmo tempo, com valores universais. Acima do amor por uma ou outra musa, Neruda nutria um amor pela humanidade, um amor que transforma as mensagens revolucionárias em poemas.

O verdadeiro nome de Pablo era Ricardo Eliezer Neftalí Reyes Basoalto. Quando jovem, ele já escrevia poesias. Aos dezesseis anos, resolveu adotar o pseudônimo Pablo Neruda, já que seu pai não aprovava a vocação artística do filho. Escolheu “Pablo” porque o som lhe era agradável e “Neruda” em homenagem ao poeta checo Jan Neruda. Em 1946, aos 42 anos, Neruda trocaria seu nome no cartório, dando registro oficial ao nome pelo qual adquirira fama internacional.

O político

A atuação política do poeta despertou definitivamente em 1936. Nessa época, Neruda era Cônsul na Espanha e participou junto com seu amigo Garcia Lorca na Guerra Civil Espanhola, ao lado dos republicanos e contra o franquismo. Nessa luta contra o ditador fascista Francisco Franco, o poeta Garcia Lorca foi uma das primeiras vítimas assassinadas. Esses fatos e o clima conturbado que a Europa vivia foram decisivos para que Pablo Neruda escrevesse sua primeira obra com conteúdo político: Espanha no coração. Com isso, o escritor se distanciou do lirismo de seus primeiros livros, como Crepusculário e Vinte poemas de amor e uma canção desesperada. Ele perdeu o cargo de Cônsul, devido a sua aberta participação política na Guerra Civil Espanhola.

Em 1945, Neruda entrou para o Partido Comunista e foi eleito senador no Chile. Em 1948, perdeu seu mandato e passou à clandestinidade, devido às mordazes críticas que fazia ao presidente Gabriel González Videla. O escritor e poeta viajou por vários países, na maioria das vezes como exilado político. Em 1950, publicou Canto geral, no México. É uma de suas obras mais importantes sobre os povos da América e suas lutas. No ano de 1971, Neruda ganhou o Prêmio Nobel de Literatura.

Em 1970, sua imagem e participação política eram de tal importância, que foi indicado pelo Partido Comunista para a Presidência da República. Entretanto, renunciou, capitulando à candidatura frente-populista de Salvador Allende, que ganhou as eleições. Pablo apoiou o governo de Allende até o fim, mesmo quando esse se recusou a conclamar os trabalhadores a resistirem ao golpe militar promovido por Augusto Pinochet. Em 1973, com o assassinato de Salvador Allende, Pinochet assumiu o poder instalando uma ditadura militar.

Doze dias depois, morreu o poeta e político Pablo Neruda. Seu cortejo fúnebre foi o primeiro grande ato contra a ditadura Pinochet. No meio da multidão, as palavras de ordem políticas se somaram às lágrimas da perda.

Neruda era um poeta revolucionário, polêmico tanto para a esquerda quanto para a direita, devido às poesias políticas e as suas relações com o stalinismo. Apesar de jamais ter se distanciado do PC e ser um stalinista convicto, o poeta não se enquadrava na estética panfletária propagada pela escola soviética do realismo socialista. Escrevia de forma simples sua poesia, para que, colada na realidade, atingisse os trabalhadores. Em seu livro de memórias, Confesso que vivi, o poeta explica que “a burguesia exige uma poesia cada vez mais isolada da realidade. O poeta que sabe chamar o pão de pão e o vinho de vinho é perigoso para o agonizante capitalismo”.

De que outra maneira tão singela alguém conseguiria reivindicar igualdade em uma “Ode à maçã”? No poema, Neruda diz à maçã: “Eu quero uma abundância total, a multiplicação de tua família. Quero uma cidade, uma república, um rio Mississipi de maçãs. E em suas margens, quero ver toda a população do mundo unida, reunida no ato mais simples de toda a terra: mordendo uma maçã”.

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