Leia três poemas de Neruda

A Cidade

“E aqui não era a pedra
convertida em milagre, nem a luz
procriadora, nem o benefício azul da pintura,
nem todas as vozes do rio,
os que me deram a cidadania
da velha cidade de pedra e prata,
mas um operário, um homem.
Por isso creio
cada noite no dia,
e quando tenho sede creio na água,
porque creio no homem.
Creio que vamos subindo
o último degrau.
Dali veremos
a verdade repartida,
a simplicidade implantada na Terra,
o pão e o vinho para todos.

(fragmento de “A cidade”, do livro As uvas e o vento)

Como nascem as bandeiras

“Estão assim até hoje nossas bandeiras.
O povo as bordou com sua ternura,
coseu os trapos com seu sofrimento.
Cravou a estrela com sua mão ardente.
E cortou de camisa o firmamento,
azul, para a estrela da pátria.
O vermelho, gota a gota, ia nascendo”.

(do livro Canto geral)

América, não invoco teu nome em vão

“América, não invoco teu nome em vão.
Quando sujeito ao coração a espada,
Quando aqüento na alma a goteira,
Quando pelas janelas
Um novo dia teu nome me penetra,
Sou e estou na luz que me produz,
Vivo na sombra que me determina,
Durmo e desperto em tua essencial aurora:
Doce como as uvas, e terrível,
Condutor do açúcar e do castigo,
Empapado em esperma de tua espécie,
Amamentado em sangue de tua herança”.

(do livro Canto geral)

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