O Brasil pode produzir caças numa empresa nacional e estatal

Nosso país tem tudo o que precisa para desenvolver sozinho um projeto deste porte: infraestrutura, tecnologia de ponta, profissionais capacitados e mão-de-obra. Seria um motivo a mais para o governo Lula reestatizar a Embraer.O Brasil encontra-se às vésperas do desfecho de uma discussão que dura mais de dez anos: a modernização da frota da Força Aérea Brasileira (FAB), processo que ficou conhecido no país como o programa FX-2.

Os países imperialistas, chamados de desenvolvidos, querem salvar suas empresas dos efeitos da crise econômica mundial e entraram numa grande disputa, unindo governos e empresas, para empurrar os seus aviões para o Brasil e abocanhar um contrato bilionário. A licitação aberta pelo governo prevê a compra de 36 jatos supersônicos de combate, que podem custar até US$ 12 bilhões.

Nesta reta final, estão no páreo três aeronaves: o caça Gripen, da sueca Saab; o F-18, da norte-americana Boeing; e o caça Rafale, da francesa Dassault. Uma grande polêmica está colocada. Aparentemente, os setores do governo ainda não chegaram a um consenso sobre qual seria a melhor opção.

Uma parte dos empresários, a maioria da nossa região, o Vale do Paraíba, (inclusive com o recente apoio da CUT) aposta no avião Saab Grippen NG, da Suécia.

Em relatório emitido no ano passado, a Aeronáutica apontou o caça Gripen como a melhor escolha. Já o caça francês, que não é o mais barato entre as opções, é o preferido do presidente Lula, que chegou a declarar sua preferência causando muita confusão. Por fim, o F-18, da Boeing, é o mais barato, mas os Estados Unidos já deixaram bem claro que não estão dispostos a transferir a tecnologia para o Brasil.

Para nós, nenhuma das opções é correta, embora o governo insista em afirmar que, do ponto de vista técnico, as três aeronaves que disputam a licitação atendem às necessidades do país. Afinal, nosso país tem tudo o que precisa para desenvolver sozinho um projeto deste porte: infraestrutura, tecnologia de ponta, profissionais capacitados e mão-de-obra suficiente.

O Brasil tem condições de produzir os caças, seja na Embraer, seja na Avibrás ou até, se quiser, criando outra empresa. A opção correta é produzir os caças no Brasil numa empresa nacional e estatal. Seria um motivo mais para o governo reestatizar a Embraer, empresa privada lucrativa, que é sustentada pelo BNDES, enquanto seus acionistas, majoritariamente estrangeiros, especulam no mercado financeiro e demitem milhares de trabalhadores.

O Brasil hoje já é considerado como um dos maiores fabricantes de aviões do mundo. Mesmo na área de aviões militares, o país não deixa a desejar, já que tem em seu currículo dois casos de grande sucesso: o Xavante e o AMX, produzidos pela Embraer.

Do ponto de vista econômico, a compra de um avião deste porte não implica somente na sua aquisição, mas em toda a logística, como manutenção e peças de reposição durante a sua vida útil. Estima-se que o valor que seria transferido para fora do Brasil pode chegar a mais de R$ 32 bilhões dinheiro que significa quase duas vezes o que vale a própria Embraer hoje. Sem dizer, que tais caças têm uma vida útil curta e precisarão ser repostos.

A questão da soberania e da autodefesa também é relevante. Além de o Brasil possuir uma grande extensão de territorial, possui uma grande reserva de biodiversidade e o maior lençol de águas potáveis do planeta, sem contar a recente descoberta de reservas minerais e matrizes energéticas, como o pré-sal.

Além disso, o Brasil também tem uma indústria bélica competente e altamente capacitada. Aliás, a indústria bélica foi um dos segmentos que mais se desenvolveu tecnologicamente no país. Exemplos disso não faltam. É o caso da Engesa, Avibras, Helibras e da Imbel. No entanto, a partir dos anos 1990, os países imperialistas, definiram uma nova divisão mundial do trabalho e decidiram alijar o Brasil da fabricação de armas, exigindo a destruição desta indústria.

Neste mesmo contexto, exigiram a privatização das empresas estatais e a desnacionalização de grande parte do parque industrial brasileiro. Sem contar a tecnologia de ponta já demonstrada pelo CTA e pelo ITA, que já desenvolveram, com grande sucesso, vários satélites que hoje estão em órbita e até ousaram na fabricação de um VLS (Veículo Lançador de Satélites).

Ou seja, nosso país já é internacionalmente reconhecido por sua capacidade tecnológica e científica nesta área. Certamente teríamos condições de desenvolver, no ITA e em outras universidades, softwares que possam fazer a integração entre a aeronave e os armamentos, dispensando assim, por completo, a participação de outros países e preservando a soberania nacional.

Chama a atenção que em nenhum momento o governo brasileiro tenha considerado a opção de desenvolver e produzir os jatos aqui no Brasil, sem a interferência de nenhum outro país. A pergunta que fica no ar é: por que será?

É por isso que o Sindicato dos Metalúrgicos de São José dos Campos e Região, filiado à Conlutas, defende que o Brasil invista no desenvolvimento de seus próprios caças, valorizando sua soberania e desenvolvimento tecnológico nacional e aproveitando a mão-de-obra altamente qualificada disponível.

Os caminhos para se fazer isso podem ser vários. A primeira, e melhor alternativa, seria a reestatização da Embraer, que manteria a produção das aeronaves comerciais, mas também atuaria no ramo militar e de defesa. Outra alternativa é a estatização da Avibras, já que hoje o governo já tem 25% de suas ações. Uma terceira opção seria a criação de uma nova empresa estatal, para esta finalidade.

Portanto, três alternativas totalmente viáveis, se o governo Lula estivesse realmente interessado em defender a soberania nacional. Este tema não pode ser tratado sem qualquer um debate mais democrático com o povo brasileiro, afinal estão em jogo nossa soberania, defesa militar e desenvolvimento tecnológico.

*Edmir da Silva é diretor do Sindicato dos Metalúrgicos de São José dos Campos e Região e militante do PSTU