O Brasil está preparado para a crise econômica?

Governo aposta em reservas e investimentos no PAC para uma ‘blindagem’ do paísO fantasma de uma iminente recessão da economia norte-americana está assombrando Brasília. Desde o início da crise desencadeada pelo mercado de hipotecas dos EUA, o governo brasileiro vem tratando de exorcizar os ricos de a crise atingir o país. Dizem que o Brasil atingiu um patamar de “crescimento sustentável” e de que estamos preparados para enfrentar os abalos do mercado.

Dois são os principais argumentos esgrimidos pelo governo. O primeiro é de que os investimentos do Plano de Aceleração do Crescimento (PAC) asseguram o crescimento econômico do país. O segundo é de que existem mais de US$ 170 bilhões em reservas para encarar uma fuga de capitais. Com uma olhada mais de perto, perceberemos que estes argumentos têm a mesma profundidade de um pires.

Maquiagem
Com muita pompa, o governo divulgou no último dia 22 os resultados dos PAC. Entretanto, os dados anunciados foram maquiados. Projetos que ainda não saíram do papel foram considerados em andamento.

Por outro lado, dados obtidos pela ONG Contas Abertas no sistema de acompanhamento dos gastos públicos mantido pelo Tesouro Nacional mostram que o investimento estatal na economia é praticamente o mesmo dos governos anteriores. Os investimentos passaram de 0,66%, no ano anterior, para 0,76% do Produto Interno Bruto, ou seja, há muito mais propaganda do que investimentos estatais na economia. O investimento público perde até mesmo para o governo neoliberal de FHC que em 2002 chegou a 0,83% do PIB.

Outra medida fundamental do PAC é o fomento de investimento privados em infra-estrutura garantida por isenções fiscais. Mas num cenário de recessão da economia norte-americana e retração dos investimentos seria de uma ingenuidade atroz pensar que isso poderia ocorrer.

Dependência
Mas a imprensa e o governo dizem que as reservas internacionais (moeda estrangeira mantida pelo Banco Central) deixam o Brasil mais preparado para as turbulências econômicas. Não dizem, porém, que a aquisição destas reservas deixou nossa economia mais vulnerável do que nunca, uma vez que elas são acumuladas pela venda de títulos públicos. Algo que além de garantir lucros aos banqueiros e investidores, aumentou brutalmente a dívida pública. Não é por outro motivo que a dívida interna quebrou todos os recordes, alcançando mais de R$ 1 trilhão.

A verdade é que Lula não só manteve como aprofundou o mesmo modelo neoliberal de FHC. A abertura da economia tornou o país mais dependente de tudo o que ocorre na economia internacional. A estabilidade da economia que o país gozou nos últimos anos foi apoiada no crescimento da economia mundial. Mas a bonança acabou.

Como subproduto da redução de investimentos, até mesmo o setor do etanol – defendido com tanta euforia pelo governo – deu sinais de profunda desaceleração, com exportações de álcool em queda e o anuncio do adiamento de projetos de ampliação do setor.

Por outro lado, a crise hipotecária já começa a causar instabilidade nos juros e no crédito de setores marcados pela expansão. Uma reportagem do jornal Valor Econômico do dia 23 de janeiro mostra que no mercado de automóveis, por exemplo, financeiras começam a reduzir os prazos dos planos de pagamentos e aumentar a taxa de juros. Um automóvel de R$ 20 mil que num plano de 60 meses tinha como parcela de R$ 454, hoje tem R$ 514.

Pagar a conta
Perante a crise, o governo Lula vai agir como qualquer outro governo neoliberal, isto é, vai querer que os trabalhadores paguem a conta das perdas dos capitalistas.

Em meio à turbulência, o governo decidiu enviar ao Congresso projetos de lei pontuais para alterar a Previdência. O anúncio foi feito nesta terça-feira pelo ministro Luiz Marinho. As alterações afetariam, a princípio, os requisitos mínimos de acesso ao beneficio e a fórmula do cálculo do fator previdenciário.

Mudanças como o tempo de contribuição e o aumento da idade mínimo poderiam vir nesse pacote. A aprovação destas medidas representaria um duro golpe nos trabalhadores e só beneficiaria o grande capital.