O Bem Amado, sátira da política nacional

Em pleno período eleitoral, entrou em cartaz nos cinemas brasileiros uma já conhecida sátira dos políticos do país. Baseado na obra de Dias Gomes, o filme “O Bem Amado”, dirigido por Guel Arraes, conta a história de Odorico Paraguaçu, político conservador que assume a prefeitura da cidade de Sucupira em 1961. Uma história e uma cidade fictícias, baseadas em muitos elementos reais do Brasil.

A obra de Dias Gomes já havia sido transformada em novela, minissérie e peça teatral. Ao chegar às telas cinematográficas, a história busca se resumir e se atualizar, sem superar ou negar as versões anteriores.

Odorico tem como principal objetivo cumprir sua promessa de campanha de construir um cemitério na cidade. Após retirar verbas de áreas essenciais para a construção e de um superfaturamento ‘necessário’ para garantir o caixa dois de seu partido, o prefeito se depara com um novo dilema: ninguém morre na cidade. Como dois anos se passam e nenhum morto aparece para inaugurar a obra, o prefeito faz de tudo, desde importar um moribundo de outra cidade até trazer de volta um matador responsável pelo assassinato do ex-prefeito. Odorico chega a transformar o assassino em delegado da cidade!

A comédia é narrada pelo jornalista Neco, paralelamente à história política brasileira. Odorico assume o cargo na mesma data que o presidente Jânio Quadros. O narrador também traz aos espectadores a explicação sobre como a história de Odorico teria influenciado o golpe e a ditadura militar que se instalou no país.
Odorico é a caricatura do político brasileiro, incorporando desde as figuras dos anos 60, quando o personagem foi criado, até os não muito diferentes representantes atuais. Os comícios, as promessas, o jingle, os gestos, tudo parece, não por acaso, familiar ao espectador.

Os discursos verborrágicos característicos do personagem, com neologismos exagerados e alto poder de enrolação, trazem ao filme sua carga mais cômica. O secretário Dirceu Borboleta e as “Cajazeiras”, três peruas amantes do prefeito, complementam o quadro satírico.

Vladimir de Castro, por sua vez, é uma oposição não menos corrompida e criticada pelo filme. Dirigente do jornal “A Trombeta”, o jornalista e candidato concorrente mostra a princípio um discurso progressista. Aos poucos, seu comportamento vai mostrando que ele não é tão diferente de Odorico.

Caricatura da democracia dos ricos
Pode-se criticar o filme de Guel Arraes, entre outros motivos, por seus momentos cartunescos e exageros nos diálogos e montagens. Porém, isso se explica ao considerarmos o filme como uma caricatura do Brasil e de sua falsa democracia. Uma “democracia” onde, como diz o personagem de Vladimir, “ninguém vence eleição dizendo a verdade”.

Talvez este seja o maior mérito do filme. Mostrar como funciona o jogo viciado das eleições burguesas, que favorece notórios picaretas e antigos corruptos envolvidos em famosas maracutaias.

Na vida real, a população é bombardeada pela falsa ideia de que o povo decide tudo com o voto, de que basta votar para se livrar da corrupção. Mas as regras da democracia dos ricos são viciadas e permitem a permanência no poder de muitos “Odoricos”. Muitos deles têm suas campanhas apoiadas por uma imensa máquina eleitoral, financiada por grupos empresariais e banqueiros, que garante o clientelismo, o cabresto e as campanhas milionárias. Dessa forma, “Odoricos” como Fernando Collor (PTB), Paulo Maluf (PP), Joaquim Roriz (PMDB) e muitos outros picaretas conseguem se eleger.

Por outro lado, o filme expõe situações ridículas inerentes ao próprio sistema. É impossível ver as falcatruas realizadas em Sucupira e não se lembrar da grande estrela destas eleições em São Paulo, o palhaço Tiririca, cujo slogan “pior do que tá não fica” deve ajudar a eleger gente como Valdemar da Costa Neto, um dos principais envolvidos no mensalão.

Ao satirizar os políticos em geral, “O Bem Amado” conseguiu escapar da absurda censura imposta pela Justiça aos humoristas do país, que estavam proibidos de ridicularizar os candidatos das eleições de outubro. Assim, a população foi impedida de se deliciar ao ver aqueles homens de terno e gravata constrangidos, numa espécie de saudável vingança.

O artigo na Lei das Eleições, que restringia a piada contra os políticos, caiu no último dia 26 de agosto, mas será que isso garante a democracia neste pleito?
Neste jogo de cartas marcadas, só a burguesia continua gargalhando.
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