Por Lena Souza, de São Paulo (SP)

Quando pensamos que não poderia piorar, a natureza nos dá outro recado. Uma nuvem de gafanhotos que se formou no Paraguai atravessou várias regiões da Argentina e ia rumo à fronteira do Brasil com o Uruguai. Não é a primeira este ano. Em fevereiro, a África sofreu as consequências do mesmo fenômeno.

Os religiosos, que já consideram o coronavírus um castigo, explicam a nuvem de gafanhotos como uma praga bíblica. Os negacionistas devem achar que não é mais que uma nuvenzinha. Contudo existe uma explicação científica relacionada ao aquecimento global. A praga é o capitalismo.

O fenômeno aumenta em frequência e magnitude

Essa não é a primeira praga de gafanhotos que acontece na terra. No final de 2019 e início de 2020, a praga (como é chamada) devastou plantações inteiras na África Oriental, passando por países como Quênia, Somália e Etiópia, que, como sabemos, já sofrem com a escassez de alimentos devido a vários outros eventos climáticos.

De acordo com o subsecretário-geral das Nações Unidas para Assuntos Humanitários: “Uma nuvem de gafanhoto de um quilômetro quadrado tem em média de 40 a 80 milhões de gafanhotos e pode consumir comida suficiente em um único dia para alimentar 35 mil pessoas. Estima-se que um enxame no nordeste do Quênia tenha até 2.400 quilômetros quadrados; portanto, se minha calculadora funcionar, tudo o que isso significa é que haveria entre cem e duzentos bilhões de gafanhotos nela, e eles devorariam comida suficiente para alimentar 84 milhões de pessoas em um único dia.”

Para os negacionistas, assim como no caso da pandemia, associar fenômenos como a nuvem de gafanhotos com a crise climática é criar pânico. No entanto, não é necessário ser especialista para ver que a frequência e a magnitude das nuvens aumentaram nas últimas décadas e estabelecer as relações do aquecimento global com o fenômeno.

Mudanças climáticas

No caso dessa região da África, as condições para o surto de nuvem de gafanhotos também estão relacionadas a eventos climáticos como período de secas, acompanhados de chuvas intensas que provocam inundações. Além disso, o aumento de temperatura nos oceanos também gera mais ciclones que criam a condição ideal para os gafanhotos.

A formação da nuvem está diretamente ligada às condições climáticas extremas, sendo que quanto mais seco e quente o clima, mais favorecimento para a ocorrência, e o aquecimento global pode fazer com que esses eventos aconteçam com mais frequência. Atualmente, deveria estar frio na parte sul do planeta. No entanto, está quente e seco, o que favoreceu o surto no Paraguai e o deslocamento pelos demais países.

De acordo com o climatologista Carlos Nobre, os gafanhotos são insetos que vivem isolados, mas as mudanças no clima podem funcionar como um gatilho para que se agreguem. Ele continua: “As ondas de gafanhotos se formam após uma forte chuva, seguida por um período de calor, depois de uma estação muito seca. Com essa combinação de fatores, os gafanhotos começam a se reproduzir e migram de acordo com a direção do vento.”

É importante também dizer que, embora sejam chamados de praga, os gafanhotos são muito importantes para o equilíbrio ecológico. Eles são um dos principais insetos que transformam matéria em energia e, por sua vez, geram nutrientes para o solo pelas fezes, além de fornecerem energia para outros predadores que se alimentam dos próprios gafanhotos.

Como explica Leonardo Melgarejo, diretor da Associação Brasileira de Agroecologia, “o fenômeno é uma expressão do desequilíbrio ecológico que favorece esta grande população de insetos, associado ao sumiço dos chamados ‘controles naturais’, com a extinção ou a redução drástica das populações de pássaros, aranhas e pequenos roedores, como a mulita e as preás”.

Cabe destacar que o habitat desses animais está dando lugar aos projetos cada vez mais extensivos do agronegócio. “Todos comem gafanhotos e isso tudo está desaparecendo com o avanço da soja e das outras monoculturas extensivas. O uso de venenos que atacam algumas culturas também mata os predadores desses insetos”, argumenta Melgarejo.

 

SISTEMA EXTERMINADOR
A praga é o capitalismo

O capitalismo é a praga tanto para os gafanhotos, pequenos seres da natureza que fazem parte de uma cadeia importante para o equilíbrio ecológico, quanto para os seres humanos, que temos a capacidade para a transformação. Se os gafanhotos não têm consciência e capacidade para entender que o capitalismo é seu inimigo, nós seres humanos temos.

No entanto, não são todos os seres humanos que enfrentam a fome e outras penúrias provocadas pelos fenômenos naturais, consequência da degradação e da destruição da natureza que o capitalismo produz.

É a classe trabalhadora e os pobres do mundo que sofrem as consequências, e somos nós que podemos mudar essa situação. O capitalismo é um sistema que não serve aos seres humanos e à natureza, da qual dependemos para sobreviver. Ele tem de ser destruído e substituído por um sistema que crie condições para a igualdade e a liberdade do ser humano e que também crie as condições para que tenhamos uma relação de equilíbrio com a natureza.

Se tínhamos dúvida de que a crise ambiental também é provocada por esse sistema, as evidências estão cada vez mais à nossa vista. Antes que esse sistema e a classe que o defende acabem com a gente e com a natureza, temos de nos organizar e estudar sobre a sociedade socialista. Nossa organização como classe e a construção da sociedade socialista será o inseticida que acabará com a praga do capitalismo.