Nova greve geral paralisa a França

Na segunda paralisação deste ano contra a crise, cerca de três milhões protestaram em todo o país, segundo sindicatosMais uma greve geral paralisou a França no dia 19 de março. A segunda paralisação geral em menos de dois meses foi chamada pelas oito centrais sindicais (CGT, CFDT, FO, CFTC, CFE-CGC, Unsa, FSU e Solidarias) e promoveu mais de duzentas ações de protestos em todo o país.

Já no início da manhã do dia 19, o sistema de transporte começava a ser afetado pela greve. No aeroporto de Orly, em Paris, foram cancelados pelo menos um terço dos voos.

Houve também uma forte mobilização nas universidades francesas, que há meses protestam contra a reforma do ensino superior. Nos últimos dias, metade estava em greve.

Em Paris, uma imensa passeata saiu da Praça da República em direção à Praça da Nação, reunindo 350 mil pessoas, segundo a CGT.

Na cidade de Orléans, a greve foi maior do que a do dia 29 de janeiro, reunindo trabalhadores do setor público e do setor privado. Em Marselha, cerca de 320 mil pessoas, segundo os sindicatos, protestaram. Em Toulouse, uma passeata percorreu as ruas da cidade e todo o setor de transporte foi paralisado.

Como na última paralisação, no dia 29 de janeiro, o protesto foi contra a injeção bilionária de dinheiro público nos bancos franceses, realizada pelo governo Sarkozy, e pela exigência de ajuda aos trabalhadores vítimas da crise.

O desemprego no país não para de crescer. A taxa de desemprego no quarto trimestre de 2008 subiu de 7,2% a 7,8% na França continental, mas com os territórios do ultramar o índice chega a 8,2%, segundo o Instituto Nacional de Estatísticas (INSEE).

No total, no quarto trimestre de 2008, a França tinha 2,2 milhões de desempregados. No entanto, só no primeiro mês deste ano, a crise e o desemprego atingiram mais 90 mil franceses, pelo menos.
Mas, como outros governos imperialistas, o presidente da França distribuiu 366 bilhões de euros para banqueiros e empresários e anunciou que vai liberar mais 428 bilhões.

“O pior de tudo é ver o governo desbloquear num só golpe os bilhões para salvar os bancos. Durante anos eles disseram que não havia margem de manobra para o Estado intervir com ajudas nas escolas, hospitais ou na Justiça”, explicou indignada uma funcionária pública que participou dos protestos em Paris.

Temor de uma rebelião
A greve geral de 29 de janeiro, que reuniu 2,5 milhões em protestos em toda a França, fez soar o sinal de alerta. O governo, a burguesia e os partidos reformistas temem a explosão de uma revolta social.

O jornal Le Monde, em janeiro de 2009, escreveu: “O Palácio do Eliseu (sede do governo), como o Partido Socialista e sindicatos de empregadores, teme uma explosão do caldeirão social”. Os dirigentes do Partido Socialista, que procuram capitalizar eleitoralmente o desgaste de Sarkozy, também não escondem suas inquietações. A dirigente do partido Martine Aubry declarou “temer uma propagação dos acontecimentos que agitam as Antilhas” sobre um movimento de revolta social em território metropolitano.

Martine Aubry se refere à fúria que tomou conta dos territórios coloniais da França. No dia 20 de janeiro, uma greve geral estourou no arquipélago de Guadalupe, ilha do Caribe que faz parte da França. Lá a greve é contra a carestia de vida e por aumentos de salários, mas também denuncia o controle da economia da ilha por parte de uma elite branca.

Sarkozy se viu acuado depois dos protestos de 29 de janeiro. O presidente foi obrigado a apresentar um pacote de ajuda de 2,6 bilhões de euros para ajudar os desempregados – um valor muito menor do que foi destinado aos banqueiros. Mas a tentativa de aliviar a pressão social não atingiu os resultados esperados. As demissões aumentaram e, na véspera da nova paralisação e o governo fez questão de dizer que não irá ampliar a ajuda aos desempregados.

Recentemente, na petrolífera Total, foram demitidos 555 trabalhadores, pouco depois de a empresa apresentar lucros de 13,9 bilhões de euros. Causou indignação o fato de o governo (que tem participação na Total) não ter feito nada para impedir as demissões.

Tudo isso só aumentou a indignação da população. Segundo uma pesquisa realizada pelo jornal Libération, a grande maioria apoiava a jornada de greve, inclusive os eleitores de Sarkozy: 62% dos entrevistados se dizem solidários à greve. Quanto aos motivos da paralisação, o apoio sobe para 78%, 53% entre os eleitores do governo.

Protesto teve ampla participação operária
Um dos destaques desta segunda greve geral foi a participação do movimento operário, nas ruas e nas fábricas. Nas últimas semanas foram anunciadas demissões em várias fábricas francesas, como Sony, Glaxo, Total, Continental e Valeo.

Durante os protestos, os operários da fábrica de pneus Continental, em Clairoix, ameaçada de fechamento, saíram em passeata. Os operários já realizaram vários protestos e atiraram ovos e sapatos contra as imagens dos seus patrões. A fúria deles é ainda maior depois que concordaram, em 2007, em cumprir jornadas semanais de 40 horas (na época, o máximo permitido na França era de 35 horas por semana) para manter a fábrica em funcionamento.

Operários da Sony também participaram da greve. Recentemente, os trabalhadores dessa fábrica tomaram uma atitude desesperada para manter seus empregos. Eles detiveram diretores de uma unidade da empresa por uma noite e os obrigaram a abrirem negociações.

Ainda no dia 19, os trabalhadores da Caterpillar de Grenoble ocuparam a fábrica em protesto contra a demissão de 733 trabalhadores.

“Estas ações mais ou menos radicais, já vistas num passado muito próximo, se estendem no contexto social atual. Muitos assalariados em meio ao conflito social tentam chamar a atenção da mídia para não serem esquecidos”, escreveu um analista do Libération.

Desafios
A França é o país europeu com o processo mais avançado de lutas e mobilizações. No entanto, os trabalhadores também enfrentam os limites impostos pelas direções sindicais burocráticas e reformistas. Não há, por exemplo, iniciativas de unificação das lutas cada vez mais radicalizadas que se desenvolvem nas fábricas ou no setor público. Tampouco se trabalha seriamente com a perspectiva do chamado de uma greve geral por tempo indeterminado. Ao invés de políticas de unificação, o movimento é submetido a uma série de manobras por parte das burocracias sindicais.

Por outro lado, o crescente peso do operariado nas lutas fortalece e radicaliza o movimento. Algo que poderá colocar abaixo as esperanças alimentadas pela burocracia sindical de controlar um movimento em ascenso.

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