No espetáculo da “Superterça”, a nova roupagem do imperialismo

No meio de uma recessão e após o fiasco de Bush, um negro e uma mulher são favoritos para a Casa BrancaA “Superterça” nos Estados Unidos, quando ocorrem as votações em 24 dos 51 estados, é a mais disputada que se tem notícia no país há anos. No Partido Democrata, Hillary Clinton e Barack Obama disputam palmo a palmo e é muito improvável que o partido saia com um candidato definido ainda hoje. A convenção partidária só será em setembro e, até lá, muito pode acontecer, inclusive a formação de uma chapa “Hillary-Obama”, ou vice-versa.

Contudo, a principal surpresa da disputa eleitoral no coração do imperialismo não é a disputa entre os candidatos do Partido Democrata. A “novidade” está nos perfis dos próprios candidatos: pela primeira vez em sua história, os EUA discutem, seriamente, a possibilidade de terem uma mulher ou um negro na Casa Branca, algo só visto, até agora, em seriados e filmes.

Uma possibilidade que, apesar de ser apontada como uma enorme mudança no cenário político norte-americano, pode ser comparada à passagem de um livro da década de 50, “O leopardo”, um dos mais belos romances históricos da literatura, do italiano Giuseppe di Lampedusa, adaptado por Luchino Visconti. Situado na época do “Risorgimento” italiano, no século 19, o livro gira em torno da decadência da aristocracia e na ascensão da nova classe dominante, a burguesia, e traz uma das frases mais emblemáticas sobre este processo histórico: “É preciso que as coisas mudem de lugar para que permaneçam onde estão”.

Pronunciada por um astuto príncipe que arma o casamento de seu sobrinho com a jovem filha de um burguês para continuar no poder, a frase, proporções à parte, bem que pode servir como ponto de partida para analisar as primárias democratas e seus candidatos.

As razões desta “novidade” estão na própria história dos Estados Unidos. Tendo criado uma imagem de respeito à diversidade, à pluralidade e de exercício da democracia, a sociedade norte-americana, particularmente sua elite, é, na verdade, uma das mais conservadoras do mundo. Um conservadorismo onde o machismo e o racismo só não são maiores devido à longa história de luta e resistência de negros, mulheres e imigrantes naquele país.

Por isso, é também sobre esta perspectiva que devemos analisar o destaque que vem sendo dado às possibilidades de Hillary Clinton e, principalmente, de Barack Obama nas prévias democratas.

No exato momento em que há sinais concretos do início de uma recessão nos EUA e após Bush estar deixando o governo como o presidente com o maior índice de impopularidade na história do país, não é um acaso que os analistas voltem suas atenções para as intenções de voto dos setores mais oprimidos e explorados. Exatamente os mesmos que estão sendo disputados por Hillary (que tem vantagem entre as mulheres, os hispânicos e os idosos) e Obama (que lidera entre negros e jovens).

Os artigos a seguir mostram como as “novidades” Hillary e Obama são necessárias para que as coisas “permaneçam onde estão” nos EUA e que, as diferenças entre democratas e republicanos desmancham-se no ar, quando se olha mais de perto.

  • O que há de novo em Barack Obama?
  • Hillary Clinton: longe da luta feminista, perto do capital