Itália: Prodi renuncia e põe fim à “grande virada reformista”

Premiê italiano renuncia após derrota no SenadoNo último dia 24 de janeiro, o primeiro-ministro italiano, Romano Prodi, renunciou ao seu cargo após perder o apoio do Senado. Prodi enviou uma moção de confiança ao Senado que votou contra o documento.

O Premiê perdeu votos de vários grupos da União (Mastella, Dini) e do senador Turigliatto, da Esquerda Crítica, que decidiu, após dois anos de apoio oscilante ao governo, não dar seu voto de confiança.

A declaração do PdAC que publicamos abaixo foi escrita pouco antes da queda do governo no Senado e já analisava as prováveis conseqüências da situação. Os partidos burgueses, os quatro partidos social-democratas da “coisa vermelha”, todos divididos internamente e em luta entre si, estão nesse momento buscando uma solução que faça recair mais uma vez sobre os ombros dos trabalhadores os custos da crise.

Na linha de frente, está o grupo dirigente da Refundação Comunista que, diante da derrota de suas tentativas de “condicionar” o governo da burguesia, não muda seu caminho e declara disposta a sustentar, junto com Berlusconi, um “governo de transição” que conduza a novas eleições. Mais uma vez, tudo se faz em nome de uma “grande virada reformista”.

A verdadeira virada necessária é uma virada de oposição classista para construir nas lutas a única saída real para a crise: uma saída operária.

UMA CRISE DE GOVERNO NO “GALINHEIRO DA DEMOCRACIA BURGUESA”
Os interesses dos patrões e os dos trabalhadores

Declaração do Comitê Central do PdAC

1. Depois de quase dois anos de ataques sem precedentes aos trabalhadores, aos jovens, aos desempregados, aos imigrantes, o governo Prodi chegou, talvez, ao fim de seu percurso. A causa do fim deste governo encontra-se toda no interior do embate entre grupos políticos, setores e aparatos do Estado burguês (juízes e parlamentares), um embate entre malfeitores alimentados pela ausência de acordo em torno a um diverso mecanismo eleitoral capaz de garantir, num modo mais eficaz, a estabilidade parlamentar da coalizão de alternância burguesa. O indiciamento do Ministro da Justiça Mastella e de toda a sua família parental e política (faísca que provocou a atual explosão) traz à tona, pela enésima vez, a trama indissolúvel entre negócios lícitos e ilícitos num sistema social – o capitalismo – por sua natureza, baseado na exploração do trabalho assalariado e na corrupção que floresce nos aparatos políticos e estatais destinados a gerir os lucros da burguesia. Esta crise política coloca-se no cenário da crise financeira mundial e no quadro mais geral da putrefação deste sistema que, para aumentar os lucros de um punhado de pessoas, continua a produzir massacres tanto nas fábricas como nas frentes de guerras coloniais.

2. Várias são as possibilidades de desfecho dessa crise: a aquisição de algum senador para a sustentação do governo, na usual compra e venda de parlamentares; um governo técnico e institucional para formular uma nova e ainda mais nefasta lei eleitoral; novas eleições em poucos meses. A conclusão dependerá da resultante do embate em curso nesse parlamento, onde cada vez mais se aplica a definição de Rosa Luxemburgo, ou seja, trata-se de um “galinheiro da democracia burguesa”.

Nenhuma dessas possibilidades é vantajosa para os trabalhadores. A continuação desse governo permitiria a Prodi concluir aquelas medidas de guerra social e militar (daqui a pouco será votado o refinancimento das ações militares) que o imperialismo italiano dita ao governo. Um governo de transição continuaria com esta política e serviria somente para concretizar novos mecanismos eleitorais para assegurar ao próximo governo burguês uma base parlamentar mais sólida, evitando, assim, acidentes de percurso e podendo concentra-se melhor no seu trabalho antioperário. Novas eleições trariam à vitória de um dos dois pólos da alternância burguesa e à constituição de um executivo que, independentemente de quem o dirigisse, recolheria o “testemunho” de Prodi e desenvolveria as políticas exigidas da Confederação das Indústrias para que os trabalhadores paguem pela crise econômica do capitalismo.

3. Neste cenário, são grotescas as declarações dos dirigentes da Refundação Comunista. Depois de terem votado e sustentado cada medida anti-popular de Prodi – inclusive as providências racistas e a caça aos imigrantes – os dirigentes da Refundação declararam hoje que a interrupção prematura da legislatura a impediria aquela “grande redistribuição social” que há dois anos anunciam como “iminente”, para convencer os trabalhadores dos sacrifícios. Giordano disse até que a possível queda de Prodi seria devido ao um complô de presumíveis setores “retrógrados” da burguesia, assustados com a influencia exercida pela Refundação sobre este governo.

A realidade é bem diversa: a burguesia, e seus setores principais, não confabularam contra o governo, aliás hoje em coro todo a grande imprensa burguesa (da Repubblica ao Corriere della Serra, da Stmpa al Sole 24 Ore) definem como “irresponsável” a iniciativa de Mastella. A grande burguesia apoiou desde o início este governo, porque sabia que poderia atuar um violentíssimo ataque contra os trabalhadores sem causar uma adequada reação social, graças ao papel de amortecedor exercido pelas burocracias sindicais (Cgil em primeiro lugar) e pelas burocracias social-democráticas (Prc, Sd, Pdci, Verdes). O que hoje a grande burguesia prefere não é, portanto, um retorno de Berlusconi (ao qual também se adequaria, se necessário, como já fez no passado), mas sim um menor litígio no galinheiro parlamentar (obtido através de uma lei eleitoral diferente) e, se possível, a repetição dessa mesma forma de governo, eventualmente com uma nova coalizão entre o recém-nascido Partido Democrático de Veltroni e o futuro partido social-democrático em cuja fundação trabalham os quatro partidos de A Esquerda- o Arcoiris. Qualquer governo serve à Confederação das Indústrias, desde que seja capaz de tutelar os ganhos das empresas: a fórmula do centro-esquerda revelou-se até agora a mais eficaz e é portanto a preferida no jogo da alternância entre os dois pólos, pois garante a vitória da burguesia, como um jogador de roulette que apostasse a mesmo tempo no vermelho e no preto, no par e no impar.

4. Os fatos desses meses e os acontecimentos desses dias confirmam as lições da história interna do movimento operário que retomamos e apoiamos desde o nascimento de nossa organização que surgiu de uma cisão da Refundação Comunista em abril de 2006 (saímos enquanto outros dirigentes daquele partido preparavam-se para a divisão dos cargos): não há governo amigo dos trabalhadores no capitalismo, não há possibilidade de “condicionar” os governos da burguesia, a tarefa dos comunistas é a de construir a oposição a cada um desses governos, para preparar as relações de forças necessárias para derrubar este sistema social e os seus governos e abrir o caminho para um governos dos operários para os operários. É um caminho longo e difícil, mas como se vê, não existem atalhos. Por isso, hoje, insistimos em afirmar que nenhuma das soluções que podem sair do galinheiro do parlamentarismo burguês pode satisfazer as necessidades, mesmo as mais imediatas, das massas populares. O centro de gravidade do embate não está nas poltronas aveludadas de Mastella, Dini e D´Alema: o centro de gravidade está na luta de classes, nas praças e nos locais de trabalho, na retomada do conflito operário, sufocado nestes últimos dois anos (com uma queda histórica de horas de greve), devido à ausência de um sindicato de classe forte e de um partido comunista com influência de massas.

É necessário, portanto, retomar as lutas e as experiências já atuantes de oposição de classe ao governo, para construir um grande sindicato de luta, que não aceite remendos, e um partido comunista revolucionário. É necessário unir os trabalhadores, os precários, os desempregados, os trabalhadores imigrantes em torno de uma plataforma de reivindicações que derrube todas as políticas sociais e militares dos governos de centro-direita e de centro-esquerda que se alternaram durante esses anos. E, nessas bases, construir também, onde for possível, uma representação do mundo do trabalho nas instituições burguesas, a ser utilizada como tribuna das lutas. Aquela tribuna que até agora faltou, não só devido à responsabilidade das burocracias social-democráticas, mas também devido às oscilações de organizações como a Esquerda Crítica de Turigliatto (que se define “tendencialmente de oposição”) ou como as minorias do Prc que, com seus parlamentares, até hoje apoiaram as principais medidas do governo e não foram além de uma lógica de abstenções, de ausência em plenário ou, no máximo de algum voto contrário (mas somente quando não influía na matemática parlamentar).

5. O centro de gravidade da luta de classes está fora do parlamento e de seus embates internos, encontra-se ele no crescimento das mobilizações dos trabalhadores. Quanto às eleições, quase certamente antecipadas (ou para a próxima primavera ou, no caso de governos de transição, para aquela sucessiva), representarão, neste quadro, um momento secundário, mas contudo possível, de luta dos comunistas. Como PdAC estamos disponíveis na autonomia do nosso projeto revolucionário complexivo, para a construção de blocos eleitorais com todas as forças que se colocarem estrategicamente fora dos dois pólos da alternância burguesa e estarão prontas para construir uma firme e real oposição de classe à burguesia nos locais de trabalho, nas praças e também no parlamento.

Roma, 25 de janeiro de 2008

Tradução de Alberto Albiero Junior