PSTU-Bahia

Marcos Paulo da Mota, morava há 17 anos na rua Coronel Francisco Bahia, bairro do Acupe de Brotas, em Salvador. Hoje, pela manhã, viu sua casa desmoronar e cair de um barranco. Ao lado da casa, ficava o bar, de onde Marcos Paulo tirava o sustento. O estabelecimento também foi atingido pela queda da casa. Foram destruídos dois refrigeradores, cadeiras e outros produtos.

Assim como Marcos, outras famílias também perderam suas casas em Salvador, atingidos pelas fortes chuvas que caem na capital baiana.  Uma casa desabou no bairro Vila Canária. Três pessoas da mesma família estavam no imóvel quando houve o desabamento, mas elas ouviram barulhos provocados pelo rompimento da estrutura e conseguiram sair a tempo. Fogão, geladeira e demais objetos desceram com a terra no desabamento.

A Rua Areial de Cima, no bairro do Dois de Julho, foi interditada pela Defesa Civil de Salvador (Codesal), após dois casarões desabarem na segunda (11) e terça-feira (12). A rua possui diversos casarões antigos e ainda há riscos de novos desabamentos.

De acordo com os dados da Codesal, até as 11h desta quarta (13/05), foram 248 solicitações atendidas pelo órgão. Do total, 93 deslizamentos de terra, 42 ameaças de desabamento, 28 avaliações de imóvel alagado, 18 infiltrações, 16 imóveis alagados, 15 ameaças de deslizamento, nove árvores ameaçando cair, nove desabamentos parciais, oito desabamentos de muro, três ameaças de desabamento de muro, três árvores caída, dois desabamentos de imóvel, um destelhamento e uma orientação técnica.

A culpa é dos governos

Os responsáveis por essa situação tentam culpar a natureza. “Diferente do que afirma o prefeito ACM Neto (DEM) e seus secretários, a culpa desses desastres não é da natureza, das chuvas. Tampouco dos moradores, que diante da segregação urbana, não tem opções a não ser se arriscar para viver em áreas de riscos. Esse é o retrato do capitalismo nas cidades. Um modelo desigual, cruel e de abandono”, pontua Matheus Araújo, militante do PSTU-Bahia e ativista do Movimento Aquilombar.

Segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), Salvador é a cidade brasileira com o maior percentual da população vivendo em áreas de risco. Quase 50% da população soteropolitana vive nessas condições.

“Na cidade mais negra do mundo fora do continente africano, o povo negro e pobre foi empurrado a viver em morros e favelas, em precárias condições. Enquanto isso, a minoritária elite branca mora nos bairros com infraestrutura de alto padrão. Esses episódios diários mostram a farsa da data de hoje, o 13 de Maio, de uma abolição que de fato nunca ocorreu, de reparações históricas que nunca vieram. Por isso, essa data não nos representa”, afirma Matheus Araújo.

Moradia popular, já!

De acordo com a Codesal, Salvador tem 400 áreas de risco e, nestes locais, são mais de mil pontos de perigo. As áreas que correm mais riscos na capital baiana são os bairros de São Caetano, Bom Juá e Castelo Branco.

“Apesar de todo o levantamento que a prefeitura e o governo estadual têm sobre estas áreas, não são aplicadas políticas concretas para resolver esta situação. Ao contrário, a situação dos moradores de áreas de riscos virou uma grande máquina de contagem de votos nas eleições. Não é por menos, que o prefeito ACM Neto e o governador Rui Costa, do PT, disputam no marketing sobre quem faz mais encostas. Mas o que queremos ver é eles disputarem sobre quem faz mais moradias populares para tirar a população das áreas de riscos”, defende Matheus.

Para o ativista do Movimento Aquilombar, os governantes aplicam políticas paliativas, que não resolvem o problema. “As encostas por si só são insuficientes, já que as famílias seguem morando nas áreas sem estruturas adequadas. A única preocupação deles é com o marketing eleitoral. Já teve encosta que passado poucos dias de inaugurada, desabou. O povo tá cansado de enrolação e enganação. É preciso que a prefeitura e o governo estadual construam moradia popular, para retirar as famílias das áreas de riscos. Transformar escolas em abrigos ou conceder apenas auxilio aluguel é insuficiente”.

E, completa: “essa é a luta imediata que tem que ser travada, mas ela deve ser combinada com a luta contra este sistema desigual e opressor. Enquanto o capitalismo existir, as cidades serão marcadas por suas desigualdades socais. Nos marcos desse sistema sempre existirão duas cidades: a Salvador rica, bem estruturada da elite branca; e a Salvador negra, dos morros e favelas. Ou seja, trata-se da histórica divisão casa grande versus senzala. Só os trabalhadores organizados, aquilombados, podem destruir esse sistema, acabar com esse Apartheid escravocrata e construir uma outra sociedade sem opressão, exploração e segregação social”.