Ato contra o assassinato de Marielle e Anderson. Foto Romerito Pontes

Laura Catapreta e Emília Tolosa

Neste domingo, 14 de março, completam-se três anos do brutal assassinato de Marielle Franco e do motorista Anderson Gomes. No entanto, não se está nem perto de saber quem são os mandantes e quais são suas motivações. A demora nas investigações e nos resultados é justificada pela complexidade do caso e pelo “profissionalismo” dos executantes. Inclusive, os dirigentes do PSOL, partido de Marielle, endossaram esta razão em meio aos vários protestos que denunciavam a demora na resolução do caso. Porém, ainda que os assassinos de Marielle fossem de fato profissionais no ramo das execuções, essa não é a principal causa de tanta demora, mas sim o fato de que as forças que deveriam elucidar o caso estão, em parte, também envolvidas na autoria do crime.

As investigações e levantamentos da imprensa apontam para uma rede complexa e poderosa que envolve a milícia e políticos, incluindo até mesmo o presidente Jair Bolsonaro e seus filhos. Nas manifestações, antes da pandemia, se perguntava: “Quem mandou o vizinho do Bolsonaro matar Marielle?”.

Quais as ligações políticas, sociais e ideológicas entre a milícia (e especificamente os executantes do assassinato) e o clã que comanda hoje o país? Em relação aos motivos do crime, o próprio Raul Jungmann, ex-ministro da Segurança Pública do governo de Michel Temer (MDB), afirmou que haveria um “complô”, com “interesses que envolvem agentes públicos, milícias e políticos” que estariam dificultando a resolução do caso[1]. Ou seja, improvável que a motivação do assassinato não tenha sido a luta que Marielle travava contra os grupos paramilitares, as milícias.

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Marielle era uma vereadora do PSOL, ligada à luta por Direitos Humanos e ao combate às milícias. Mulher, negra, lésbica e de origem da Favela da Maré, localizada na periferia do Rio de Janeiro. Seu assassinato chocou e mobilizou milhares, no Rio, no Brasil e até no mundo.

Se hoje os assassinos estão presos, é porque houve muita luta. Por conta de sua execução, mobilizações imensas tomaram as ruas em todo o país. E os protestos se seguiram. Os blocos de carnaval, em 2019, ecoaram em alto e bom som ofensas ao presidente Bolsonaro. O samba da Mangueira não foi o único a fazer fortes críticas sociais. Em todos os atos de 8 de março, milhares de mulheres e homens, em passeatas grandes e animadas, como ocorreu este ano nas carreatas, seguem levantando a bandeira de justiça por Marielle.

Hoje, Marielle não é mais só a Marielle. Não à toa o samba da Mangueira colocava Marielle no plural. Marielles. Essa mulher virou um símbolo. Símbolo da luta dos setores oprimidos e da periferia. Símbolo da luta contra os poderosos. Símbolo da necessidade de lutar para sobreviver no capitalismo que nos assola e que hoje é responsável por um genocídio global por conta da pandemia de coronavírus.

“Na luta é que a gente se encontra!”

Este é o terceiro aniversário do bárbaro assassinato de Marielle, que ocorre no momento mais crítico da pandemia do coronavírus no Brasil. Obviamente não se pode cogitar atos com grandes aglomerações quando, inclusive, defendemos lockdown para frear a pandemia. No entanto, as críticas que temos feito ao PSOL na condução dos atos de aniversário da morte de Marielle não são na forma como eles ocorrem, mas em conteúdo político. Estes atos, em sua maioria, organizados e controlados pelo PSOL, apresentaram mais um caráter de homenagem e de luto do que propriamente de luta. Respeitamos essa condução e fazemos parte daqueles que prestaram as homenagens à Marielle. Mas queremos mais. Achamos que, se foi uma tragédia sua morte (e como foi!), esta tem que se virar contra aqueles que a assassinaram e os que se beneficiaram com sua morte. E a vingança e a justiça só poderão vir das ruas, das lutas e mobilizações.

E esse é outro ponto importante de ser debatido. Marielle era uma vereadora e antes de ser eleita foi, por anos, assessora parlamentar de Marcelo Freixo (PSOL). Mas, justamente porque Marielle se tornou um símbolo, algo que extrapola sua própria história de vida e luta, é que não devemos minimizar os ensinamentos que podemos tirar de sua existência.

Nossa tarefa não é, portanto, ter mais “Marielles” da forma como Marielle atuava, ou seja, por dentro do parlamento, como o PSOL segue atuando. Queremos mais “Marielles” no parlamento como a voz de defesa das lutas e de denúncia do sistema capitalista. Queremos mais “Marielles” fortalecendo as lutas, mas também combinando essas lutas com a estratégia da revolução socialista, por uma sociedade sem opressores nem oprimidos, sem exploradores e explorados.

A principal tarefa da classe trabalhadora, neste momento, a mais imediata, é derrotar a pandemia de coronavírus e o genocídio dos trabalhadores brasileiros. E é possível fazê-lo. E esta não é uma luta desconectada da luta por justiça pelo assassinato de Marielle. Porque ambas são lutas contra aqueles que dominam a economia e a política no país. São lutas contra os capitalistas e a favor dos trabalhadores. E porque são justamente as “Marielles” desse Brasil, as mulheres negras e pobres, que estão sendo as mais afetadas com a pandemia e com a crise econômica. Estas são as que mais estão sujeitas ao trabalho precário e informal e que têm menos acesso a um atendimento de qualidade. Ou seja, uma das principais tarefas neste momento, que devemos nos dar, impulsionadas pela sede de justiça que se mantém pelo brutal assassinato de Marielle, é engrossar as fileiras da luta contra essa pandemia e pelo Fora Bolsonaro e Mourão já.

Não negamos que, em virtude das crises e do descontrole que se instalou nos três poderes da República, e que não estão descoladas da crise econômica e social brasileira, pode haver uma resolução do caso pela justiça burguesa. No entanto, achamos que a luta contra Bolsonaro e Mourão, conectada com a exigência de apuração e resolução do caso, é que pode acabar colocando os assassinos na cadeia. E é por meio da luta que poderemos solucionar os problemas das vidas das “Marielles” que existem em todo o país.

Nesta luta, não podemos dar espaço para o medo. A execução de Marielle nos mostrou que os poderosos não estão de brincadeira. Mas nós também não estamos. A nossa luta e organização pode e deve garantir nossa auto defesa. Os trabalhadores devem se organizar para resistir aos ataques do Estado, da Polícia Militar (PM), do tráfico e da milícia. Especialmente os trabalhadores, as mulheres, negros e negras e as pessoas LGBT’s devem confiar nas suas próprias forças, contra os racistas, machistas e LGBTfóbicos, e contra as mazelas do capitalismo. Estes setores precisam também se organizar. Não podemos confiar na justiça, na polícia, nas instituições dessa democracia que é controlada pela burguesia. Seremos nós mesmos que nos defenderemos dos ataques e perseguições. Nós temos força! Se somos nós que fazemos a roda da história girar, se somos nós que tudo produzimos, somos nós que garantiremos nossas vidas. Se é verdade que, como dito no samba da Mangueira, campeão do carnaval carioca de 2019, “há sangue retinto pisado, atrás do herói emoldurado”, é desse sangue que tiraremos a força para mudar o retrato do país.

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[1]          https://www.buzzfeed.com/br/tatianafarah/quem-sao-suspeitos-matar-marielle-franco