‘Não estávamos lá para observar as eleições. Estávamos lá pra denunciá-las’

O dirigente da Coordenação Nacional de Lutas – Conlutas, Dirceu Travesso, e um representante do Andes estiveram em Honduras durante as eleições do dia 29 de novembro. O objetivo da viagem foi o de apoiar a Frente Nacional de Resistência contra o Golpe de Como foi o processo eleitoral e qual o balanço que você faz das eleições em Honduras?

As eleições foram uma fraude. Os observadores internacionais que estavam lá foram legitimar a eleição. O governo golpista fala em 62% de comparecimento às urnas, mas há muitas outras informações que contrariam esse dado. Creio que menos de 50% da população votou realmente. Uma organização dos EUA, chamada “Construímos a Democracia”, que trabalha sob o auspicio da National Democratic Institute (NDI) e do National Endowment for Democracy (NED) do Departamento de Estado dos EUA, divulgou que 49% dos eleitores foram votar. Essa informação foi dada ao mesmo tempo em que os golpistas falavam em 62%. Ou seja, a maioria não votou como eles tentam fazer crer.

Havia um processo muito forte da resistência ao golpe, que continua polarizando os movimentos sociais. No dia posterior as eleições ocorreram carreatas em bairros da periferia de Tegucigalpa. Nessa manifestação teve um gesto bem interessante. Para votar em Honduras as pessoas ficam com os dedos marcados por uma tinta que sai depois de 48h. Na segunda-feira, muitas pessoas saíram de casa e levantavam as mãos para mostrar que elas estavam limpas e que, portanto, não votaram.

Mas é importante lembrar, por outro lado, que houve uma vitória da política do imperialismo. Conseguir realizar as eleições e tentar legitimá-la na comunidade internacional, além de atrair uma parte da população hondurenha para votar, permitiu ao imperialismo obter uma vitória em sua política e tentar legitimar o presidente eleito, embora exista ainda uma crise entorno do governo de fato de Roberto Micheletti.

A situação de Honduras só pode ser entendida no marco da situação internacional. Você encontra ali coisas muito inusitadas, como um golpe que o imperialismo não pôde dar sustentação. Depois, os EUA tentam construir uma saída por dentro do regime democrático burguês com as eleições, e agora tenta obter o reconhecimento da vitória do Pepe Lobo. As eleições abriram uma possibilidade para o imperialismo estabilizar o país através de uma saída com o reconhecimento das eleições.

Já o candidato que representava os setores mais duros dos golpistas, o candidato do Partido Liberal, Elvin Santos, sofreu uma derrota muito grande. O PL é historicamente majoritário em Honduras. Só perde as eleições quando há divisões internas. E dessa vez isso se expressou de maneira categórica.

A vitória de Pepe Lobo representou uma derrota eleitoral dos golpistas, mas oferece uma oportunidade maior ao imperialismo na sua tentativa de “estabilizar” o país no marco da reação democrática e da submissão a todos seus planos e projetos econômicos.

Há outras questões que são importantes de discutir, que tem a ver com os limites da resistência e a contradição que ela tem com a própria figura do Zelaya.
Com uma resistência impressionante, com organização forte, povo na rua, passeata e enfrentamento, Zelaya sequer foi capaz de buscar uma saída para seu retorno à presidência. Acontece que Zelaya é um político burguês, que subordinou todas as manifestações contra o golpe às negociações internacionais que ocorriam. Zelaya não queria enfrentar sua própria classe, por isso as manifestações foram usadas por ele para buscar uma saída negociada com os golpistas. Estes, por sua vez, não temiam tanto o retorno de Zelaya. Sua preocupação era mais sobre como as massas sairiam do processo. Se elas sairiam vitoriosas ou não.

Como fica a relação da resistência com o novo governo e que balanço faz a Frente de Resistência de todo o processo?

Eles já abandonaram a reivindicação pela restituição do Zelaya. Nesse momento eles estão discutindo como reordenar a luta. Mas querem manter como centro a luta pela Assembleia Constituinte. No entanto, o problema crucial da resistência é que eles continuam apostando numa frente com a presença dos zelaystas e do próprio Zelaya, isto é, numa frente que servirá como um braço político para atuar dentro dos interesses do presidente deposto. Ou seja, a frente infelizmente não tirou a principal conclusão do processo: a necessidade de ter um organismo de luta, com independência de classe, que não se submeta a Zelaya na luta para derrotar o golpe e restituí-lo ao governo. Toda essa luta não pode estar subordinada aos interesses de um político burguês. Como burguês Zelaya mostrou todos os seus limites no enfrentamento com os golpistas.

Essa contradição ainda está colocada no interior da frente, como esteve em todo o período da resistência. As lutas estiveram limitadas a uma estratégia que não era de derrotar os golpistas, mas para manter uma pressão por negociações.

Ao abrir mão da reivindicação sobre a restituição do Zelaya, na verdade, a frente acaba sinalizando para aceitação da “normalidade” com o novo governo de Pepe Lobo. Embora não exista nenhuma declaração formal sobre isso, essa política aponta para esse sentido.

Outro equívoco da frente foi cometido no próprio dia das eleições. A frente chamou o boicote, mas pediu para as pessoas ficarem em casa. Esse tipo de coisa ajudou o imperialismo e a própria burguesia hondurenha a legitimar as eleições. Exceto em San Pedro Sula, onde houve enfrentamento, no resto do país as eleições transcorreram de maneira calma e tranquila. Por quê? Porque a resistência chamou o boicote, mas pediu para as pessoas ficarem em casa. Não chamou os trabalhadores a irem para ás rua.

Já os governos que diziam que não aceitariam as eleições, especialmente o de Lula, formalmente mantêm essa posição. No entanto, concretamente não tomaram nenhuma medida que pudesse impedi-la, como uma sanção, boicote econômico etc. Assim, permitiram que as eleições se realizassem. E agora, apesar das declarações de que não vão reconhecer os golpistas, começam a dar sinais de reconstruir relações com o novo governo. Ou seja, não vão reconhecer o governo golpista de Michelete, mas com o passar do tempo poderão reconhecer o de Pepe Lobo.

Não foi por acaso que Pele Lobo, logo após ser eleito, disse que iria conversar com Lula para explicar a nova situação do país.

Qual é a importância dessa viagem para a Conlutas?

A recepção foi bastante calorosa. Havia poucas delegações internacionais infelizmente. Mas nós, assim como as delegações internacionais da resistência, não nos credenciamos junto ao governo. Não estávamos lá para observar as eleições. Estávamos lá pra denunciá-la.

Tivemos a oportunidade de participar de atividades, como uma assembleia da frente que ocorreu na véspera da eleição. Participamos também de uma manifestação na segunda-feira. No domingo, dia da eleição, acabamos nos dividindo. O Elvio do Andes [sindicatos dos professores universitários] ficou em Tegucigalpa. Eu fui ao interior, onda havia denúncia de prisão e repressão.

Acho que para Conlutas, a viagem reafirma nossa vocação de ser um organismo da classe trabalhadora. E como um organismo da classe, mesmo minoritário e pequeno, estamos presentes em questões tão importantes como na luta contra o golpe em Honduras. Essa viagem minha e do Elvio fortalece a visão de que a Conlutas busca construir uma relação internacionalista com a classe trabalhadora.