Não esquecemos, não nos calaremos: “Cadê o Amarildo?”

Campanha "Cadê o Amarildo?" extrapolou as fronteiras do país

Há um ano, o pedreiro negro Amarildo Dias foi arrancado de sua casa, torturado e morto pela polícia “pacificadora” carioca. Seu corpo continua desaparecido. Mas nós não o esquecemos!

4 de julho de 2013, o pedreiro Amarildo Dias, 47 anos, pai de seis filhos e morador da Favela da Rocinha, foi arrancado de seu barraco de um único cômodo por policiais militares da Unidade de Polícia Pacificadora (UPP). Como se soube depois, Amarildo foi barbaramente torturado e executado covardemente pelos PM’s que deram sumiço ao seu corpo.

Amarildo facilmente poderia ter entrado como “mais um” nas estatísticas de um país onde a possibilidade de um negro ser morto (de acordo o “Mapa da Violência 2013”) era, em 2011, nada menos do que 153,4% maior do que a de um branco. Contudo, desta vez, a história foi um pouco diferente.

Seu assassinato aconteceu sob o impacto das “Jornadas de Junho”, fazendo com que o grito “Cadê o Amarildo?” ecoasse país afora com a mesma força com que se lutava por transporte, moradia, educação e saúde. Foi esse clamor que conseguiu abafar as mentiras, farsas e manobras da PM e do governo de Sérgio Cabral, fazendo com as investigações avançassem e o crime praticado pelo Estado viesse à tona.

Contudo, infelizmente, em um país onde a criminalização da pobreza (bem como daqueles que lutam contra ela) é inversamente proporcional à impunidade garantida à classe dominante e às forças de repressão que estão a seu serviço. Um ano depois do desaparecimento, a família de Amarildo ainda não teve o direito de enterrá-lo e a maioria dos 26 policiais diretamente envolvidos no sequestro, torturas e assassinato continua livre. 

Por isso, hoje, quando se completa um ano de seu desaparecimento, a melhor forma de homenageá-lo é mantendo viva a luta para que a justiça seja feita. Não só para ele, mas também para sua família e a de tantos outros que tiveram suas vidas ceifadas ou afetadas para sempre pela violência policial e racista.

A dor e a luta dos que ficaram
Assim como acontece em relação a tantos outros casos, Amarildo não foi a única vítima feita pela PM. A vida de seus familiares também foi profundamente afetada, particularmente a de sua viúva, Elizabeth Gomes da Silva, 48 anos, que desde então tem lutado para manter seus filhos com trabalhos ocasionais como faxineira e uma ofensiva pensão no valor de um salário mínimo que vem sendo paga pelo Estado que lhe tirou o marido.

Na última semana, soubemos, com enorme preocupação, que ela havia desaparecido. Foram feitas muitas especulações e não faltaram motivos para temer que Bete – até mesmo por ter se colocado, corajosamente, à frente da luta por justiça – tivesse tido o mesmo destino de Amarildo. Contudo, felizmente, ela reapareceu no último fim de semana.

A imprensa burguesa fez questão de associar seu desaparecimento com o alcoolismo e uma série de outros problemas pessoais. Contudo, como lembrou Anderson Dias, seu filho mais velho (na “Folha de S. Paulo”, em 13 de julho), por trás de seu sumiço ainda se encontra a ação criminosa da PM: “Ela ficou muito abalada com o que aconteceu, nosso pai era o pilar da casa”, o que a fez entrar em um profundo processo depressivo.

Diante disto, para nós do PSTU, só há alguma coisa a dizer: estender nossa solidariedade a Bete e nos colocarmos, como temos feito há um ano, ao seu dispor para ajudá-la no que for possível. Afinal, se fosse uma mulher branca e rica, em primeiro lugar, Bete dificilmente estaria passando por esta situação. E, mesmo se isso acontecesse, teria tido a assistência social,psicológica e médica que qualquer ser humano precisaria diante de tanta dor.

Mais importante ainda, para nós, particularmente as mulheres negras do PSTU, Bete é, acima de tudo, um exemplo de luta e de garra. Foi esta a mulher que muitas de nós tivemos o prazer e a honra de conhecer no Encontro Nacional do Movimento Mulheres em Luta, realizado no ano passado.

Naquele dia, ela nos emocionou e nos inspirou ao dizer: “Não se calem, gritem quando atacarem seus filhos, seus maridos, sua família. Muitas pessoas ficam quietas e escondem os abusos que acontecem nas comunidades, nas UPP’s. Os que mataram meu marido são bandidos fardados. Não vou descansar até os ossos do meu marido aparecerem. Mulheres sejam fortes, sejam fortes”.

Um genocídio racista!
Hoje, quando lembramos um ano do desaparecimento de Amarildo, as palavras de Bete continuam a nos inspirar. Inclusive, infelizmente, porque desde então, o genocídio racista não recuou. Pelo contrário. No último ano, perdemos os jovens Douglas e Jean, em São Paulo; vimos estarrecidos Cláudia, uma mulher negra, ser arrastada como um saco de lixo por um camburão da PM carioca e nos indignamos com a morte do bailarino DG, também no Rio.

Isto, só para falar dos casos que ganharam projeção nacional. Lamentavelmente, os Amarildos deste país são contados aos milhões, já que a cada 25 minutos uma mãe, filha, irmã ou companheira de um homem negro tem que chorar sua morte. Segundo o Ministério da Saúde, mais da metade dos 52.198 mortos por homicídios, em 2011, eram jovens (27.471, equivalente a 52,63%), dos quais 71,44% negros e 93,03% do sexo masculino.

Uma situação que, longe de ter diminuído durante os governos petistas, só piorou. É isto que dizem os dados do próprio governo: entre 2002 e 2011, o número de brancos assassinados caiu em 26,4%; já o de negros subiu absurdos 30,6%.

Por mais que negue, o governo petista, inquestionavelmente, é cúmplice nesta situação. No caso de Amarildo, de forma ainda mais próxima, na medida em que tem em Sérgio Cabral um aliado. Mas não só neste caso. E não sozinho. Por trás de todas estas mortes estão as “prioridades” deste governo e seus aliados (como o PMDB) ou seus oponentes de ocasião, como o PSDB e o DEM.

Ao invés de moradia, saúde, transporte, educação e melhores condições de vida, que todos eles prometem, principalmente neste momento eleitoral, o que vemos são rios de dinheiro desviados para os banqueiros, empresários, latifundiários, FIFA ou qualquer outro setor da elite dominante. Ao invés de segurança e defesa da vida, o que eles oferecem, é cada vez mais violência, repressão, faxina-étnica e perseguição generalizada aos que ousam questionar esta situação.

Desmilitarização, já! Pelo direito a vida!  
Para mudar esta situação, algumas medidas imediatas são necessárias, a começar pela desmilitarização da PM e o fim das famigeradas Unidades Pacificadoras.

Amarildo é um lamentável exemplo de como estas corporações só servem para manter a ordem vigente, defender os ricos e poderosos e, por isso, tem como principal função manter os trabalhadores e o povo preto e pobre sob constante repressão. Mergulhados na corrupção, estes “bandidos fardados” estão sempre dispostos a vender seus serviços a quem pague mais. Alimentados pela ideologia racista, eles tratam negros como permanente suspeitos e bandidos em potencial, cujas vidas valem muito pouco ou literalmente nada.

Não foi por um acaso que a desmilitarização da PM é um dos gritos que mais tem ecoado nas ruas desde junho passado. Esta é uma necessidade urgente. É preciso dissolver as atuais polícias e criar um novo tipo de aparato de segurança que seja colocado sob o controle da população (entidades dos movimentos sociais e associações de moradores, por exemplo) e submetido aos interesses da população.

Da mesma forma, defendemos a imediata legalização das drogas. A chamada “guerra às drogas” chegou a ser usada como cortina de fumaça no assassinato de Amarildo. E isto tem se repetido caso após caso; chacina após chacina. Contudo, o que de fato acontece é que ela é uma guerra aos pretos e pobres, que só serve como “justificativa” para a ocupação e repressão nas periferias, onde pequenos traficantes varejistas são tratados como seres que precisam ser exterminados.

Enquanto isso, os que realmente lucram com o tráfico, permanecem impunes e lucrando alto, confortavelmente instalados em suas mansões nos bairros da elite. Por isso, a única saída para o fim do tráfico e diminuição da violência passa necessariamente pela legalização das drogas, com o Estado controlando a produção e a venda, e a prisão e confisco do bem de todos os empresários e banqueiros que financiam e lucram com o tráfico.

Esta é nossa forma de homenagear Amarildo e nos solidarizar com Bete e seus familiares. Não o esqueceremos e não nos calaremos até que tragédias como estas sejam banidas de nossa história.