‘Não calar’. Carta de intelectuais de esquerda sobre a situação em Cuba

Confira carta de intelectuais uruguaios criticando o regime cubano pela morte do dissidente Zapatero, que realizou uma greve de fome no mês passado. Assinam a carta Gerardo Caetano, historiador e autor de “A história contemporânea do Uruguai”. Caetano foi ordenador de una comissão que investiga os crimes da ditadura militar uruguaia (1973-1985). Alma Espino, é economista pesquisadora da Universidad de la República, Co-autora do livro La situación del servicio domestico em Uruguay. Álvaro Díaz Maynard, é engenheiro agrônomo e decano da Facultad de Agronomía de la Universidad de la República. Jack Couriel é arquiteto e Sub-secretário do Ministério da Habitação, Ordenamento Territorial e Meio Ambiente. José Manuel Quijano é diretor da Comissão Setorial para Mercosul do Uruguai. Judith Sutz é engenheira elétrica e professora de la Universidad de la República. Mario Wschebo é do Centro de Matemática de Uruguay.

Fonte: La Diária, de 25/03/2010

Cuba tem tido uma influência capital sobre a política regional dos últimos cinquenta anos. Maior nas primeiras três décadas de sua existência e em franco declínio nas duas seguintes. Foi motor de rebeldia, de reivindicações contra as injustiças, de oposição aos atropelos imperiais, de impulso a políticas de forte impacto social e conquistas substantivas em áreas fundamentais, como a saúde, e de uma vitalidade política para aprovar e desqualificar como, possivelmente, não tenha tido outra após a metade do século passado.

Várias gerações estiveram sob a influência da revolução cubana no seu lado bom, e também no mau. Por exemplo, em relação com o mau: na imposição do partido único, excludente de outras opiniões cujos mandatos e descrições da realidade operam como dogmas; na equivocada percepção da negociação multipartidária, que é a essência da boa política, como algo desprezível; o não desconhecimento de direitos fundamentais que imperam, com mais ou menos imperfeições, em muitas das nações do mundo cujos povos têm avançado nas últimas décadas; e no encarceramento de pessoas com coragem, que se atreveram e se atrevem a reivindicar e se propõem exercer seus direitos básicos de reunião, de associação, de opinião e de ir e vir.

Desde o mea culpa público de Heberto Padilla, na União de Escritores e Artistas de Cuba, em 1971 (após semanas no cárcere por ter se atrevido a escrever um livro com o sugestivo titulo “Em meu jardim pastam os heróis”), até o mea culpa público mais recente dos altos servidores públicos, que foram deslocados por serem “indignos”, segundo palavras de Fidel Castro, o governo cubano têm persistido em hábitos marcadamente estalinistas, que nem sequer estavam em vigência nas últimas décadas da União Soviética. E quando não há mea culpa, e os cidadãos com dignidade mantêm seu ponto de vista – como ocorreu, por exemplo, em 2003 com escritores, jornalistas ou simples vizinhos que por meios pacíficos solicitavam mudanças na situação vigente -, as condenações a prisão são severíssimas e as desqualificações (“vermes”, “traidores”, “aliados do imperialismo”) são humilhantes.

O contexto dos acontecimentos do presente compõe-se, também, por uma longa história de violações dos Estados Unidos à ilha do Caríbe (e à região). Desde a Emenda Platt, a base de Guantánamo, a invasão em Praia Girón e as tentativas de assassinato a Fidel Castro, até o persistente embargo, sem esquecer a responsabilidade nos golpes de Estado que assolaram a região. Mas o contexto atual também se integra pela construção sistemática de ditadura difundida como uma forma mais perfeita de “democracia”, pela alta concentração de poder simuladamente compartilhada com alguns correligionários e verdadeiramente absoluto para o “chefe máximo”, e pelas penas draconianas aos cidadãos chamados “conflituosos”, que se atrevem a discordar.

A conclusão é simples, e até de má fé, se justifica o atropelo quotidiano dos legítimos direitos dos “conflituosos” com a menção do bloqueio do imperialismo.
Preso e com prolongada condenação, um destes “conflituosos”, a quem o governo cubano qualifica de “delinquente comum” (sabemos destas denominações vieram das ditaduras do Cone Sul), até pouco tempo desconhecido, se converteu no mais eficaz questionador do poder estabelecido. Efetivamente, Orlando Zapata Tamayo, um simples cidadão com ideias próprias, preso de consciência segundo a Anistia Internacional (quantas vezes recorremos a ela nos anos da ditadura?), esteve tão disposto a não se dobrar que se deixou morrer de fome. Não foi, certamente, um fato isolado, pois esse caminho também foi tomado por outro “conflituoso” que poderá ter a mesma sorte.

Trinta anos atrás, referindo-se à greve de fome até a morte realizada pelos presos irlandeses em cárceres britânicos, Fidel Castro pronunciou as seguintes palavras na União Interparlamentar Mundial: “A teimosia, a intransigência, a crueldade, a insensibilidade ante a comunidade internacional do governo britânico diante do problema dos patriotas irlandeses em greve de fome até a morte, recordam a Torquemada e a barbárie da Inquisição da Idade Média”.

Tremam os tiranos ante os homens que são capazes de morrer por suas ideias depois de 60 dias de greve de fome! Ao lado deste exemplo, o que foram os três dias de Cristo no calvário, símbolo durante séculos do sacrifício humano? É hora de pôr fim, mediante a denúncia e a pressão da comunidade mundial, a essa repugnante atrocidade! Ao governo cubano agradou tanto essas palavras de Fidel Castro que elas foram gravadas em bronze e ainda estão na praça Víctor Hugo de Havana. Tal como assinalou Castro quando os ataques se dirigiam para outro lado, quanto de humanidade e de coragem há em um calvário semelhante, e quanto de atrocidade vivida se oculta por trás de um ser humano capaz de levar a greve de fome até as últimas consequências!
Este drama cubano e esta longa agonia – tanto dos “conflituosos” que não se submetem ao próprio regime que os reprime – têm que encontrar um caminho dentro da via da civilização. Sem se intrometer nos problemas dos outros, sem violentar o princípio de não intervenção, tudo o quanto se possa fazer, dos outros países da América Latina, para contribuir a uma solução pacífica, democrática e respeitosa dos direitos humanos, centralmente em Cuba, deve ser bem-vindo. E entre os primeiros passos, existe um que sempre nos deu um sentido de irmãos com relação à sorte do povo cubano, e que respiramos na esquerda: não calar diante das repugnantes atrocidades e se colocar do lado daqueles, cujas armas são seus corpos, defendem legitimamente seus direitos.

Alma Espino, Álvaro Díaz Maynard, Carlos González, Gerardo Caetano, Jack Couriel, José Manuel Quijano, Judith Sutz, Mario Wschebo