Na Síria, Assad continua a matar seu povo, mas a revolução avança

Mega protesto em Hama

O exército sírio continua a usar tanques para bombardear a cidade de Hama. Esta ofensiva já deve ter custado a vida de pelo menos 85 pessoas nesta localidade neste final de semana e mais de 130 em todo o país. Isso ocorre exatamente no mesmo dia em que o mundo islâmico começa a celebrar o Ramadã.

Hama, uma cidade insurrecta
Mesmo com todo este ataque do governo Assad, Hama continua em poder das forças contrárias ao regime.

O exército sírio usa artilharia pesada diretamente contra áreas residenciais. Faz bombardeios com o emprego de tanques e até com helicópteros. Francos atiradores atiravam em dezenas de pessoas desarmadas. Animais são abatidos, e as colheitas são queimadas.

As famílias são obrigadas a enterrar os seus mortos em parques ou nos jardins das próprias habitações por medo de serem atingidas. Mas os residentes armam barricadas nas ruas e estão dispostos a defender a cidade “com pedras se preciso for”.

E os habitantes das cidades vizinhas estão erguendo barreiras nas estradas para tentar dificultar as linhas de abastecimentos do exército. Não é a primeira vez que a cidade de Hama é palco de confrontos mortíferos. Foi lá que, em 1982, Hafez al-Assad, o pai do atual presidente sírio, lançou uma ofensiva contra opositores do seu regime causando então 40 mil mortes.

Manifestações ocorrem em todo o país
O povo sírio continua a realizar heróicas manifestações contra o regime sanguinário de Bashar al-Assad em todo o país.

Elas ocorrem em cidades grandes como no noroeste em Homs e Alepo; nos distritos de Sleibeh e Raml al-Filistini, da costeira Latakia; nos subúrbios da capital Damasco; na cidade de Albu Kamal, na fronteira com o Iraque; em Deraa e outras aldeias da planície de Hauran, no Sul; e até acampamentos de refugiados na Turquia.

O levante antigovernamental já dura quase cinco meses. E que custou mais de 1.500 mortes e mais de 10 mil presos ou desaparecidos.

Deserções e divisões no Exército
A versão oficial que governo diz é que o exército entrou em Hama para eliminar grupos armados que estavam aterrorizando os cidadãos. E que suas tropas estão sendo atacadas por “bandos armados apoiados por potências externas não identificadas”.

Mas a verdade é bem outra, ocorre que o exército sírio é liderado por oficiais alawitas, mas os soldados das tropas são sunitas. Estes vivem em constante contradição com o massacre de cidadãos sunitas ordenado pelo comando do exercito. As únicas unidades absolutamente leais ao governo são a Guarda Republicana e a Quarta Divisão Blindada, comandadas por Maher Al Assad, irmão de Bashar, que estão atuando no limite máximo de repressão.

A brutalidade dos ataques tem levado ao aumento das deserções do exército. Os desertores se juntam à população civil em cidades como Hama, ou buscam abrigo nos acampamentos para refugiados na Turquia.

Lá alguns deles contaram ao jornal “Al Jazeera” que em Hama e Jisr al-Shughour as forças do governo e da polícia se amotinaram e se recusaram a disparar contra manifestantes desarmados e continuar com os massacres de civis.

Em Jisr al-Shughour, houve deserções até mesmo a policia militar e na policia secreta. Uma parte dos soldados amotinados foram mortos por seus próprios companheiros, a mando dos oficiais. Outros conseguiram fugir e juntaram-se à população local e à rebelião, e voltaram suas armas contra as forças de Assad.

A matança e as deserções indicam estar ocorrendo o início de uma revolta armada na Síria.


Imagens de Hama sendo atacada por tropas de Assad, no dia 31 de julho

Assad não quer permitir uma zona de libertação
Esta situação fez com que o exército invadisse Hama e Jisr al-Shughour, no noroeste do país, perseguindo e matando a população civil.

Massacrar a população do norte e expulsá-la para a Turquia, onde cerca de 3 mil sírios já se refugiaram em campos de concentração, e outro 6 mil esperam acesso, é o plano das Forças Armadas sírias.

Al Assad não pode aceitar nenhuma tentativa de organizar um exército ou uma resistência rebelde militar em uma região. Não pode permitir uma “Benghazi” na Síria, isto é, uma base física para os rebeldes.

O imperialismo sustenta Al Assad
Otan diz que ‘não são atendidas as condições’ para intervir na Síria. Dentre os ditadores árabes, nenhum reagiu com uma violência mais descontrolada do que Bashar al-Assad aos protestos sociais.

Apesar das lágrimas de crocodilo do presidente dos EUA, Barack Obama, que se declarou “profundamente chocado com a brutalidade do regime sírio”, afirma que a intervenção militar está “fora de questão”.

Diferente do que ocorreu com Kadafi, os governos imperialistas continuam sustentando-o acreditando, mesmo com muitas dúvidas, que Assad ainda possa controlar o levante contra seu governo. Consideram-no o guardião da ordem e da estabilidade regional.

Os EUA e Israel temem que o regime sírio caia, pois seu maior medo é a “desestabilização” de toda região. Isto é, o avanço da revolução árabe. A maior ameaça atual para o imperialismo é a possibilidade de que o processo se estenda para a Arábia Saudita, a maior produtora mundial de petróleo e “garantia” do seu abastecimento internacional.

Israel particularmente está muito preocupado com toda instabilidade em suas fronteiras (Egito e Síria) particularmente neste momento com a retomada da luta palestina. Por isso aconselham “reformas” e pressionam por “aberturas”. Vergonhosa é a posição do governo brasileiro, que tenta evitar uma resolução contra a Síria no Conselho de Segurança da Organização das Nações Unidas (ONU) alegando evitar uma intervenção militar.

O imperialismo não pretende intervir neste massacre e, ao governo brasileiro ser mais realista que o rei, defende o governo sanguinário de Assad. Depois o governo Dilma se diz comprometido com os “direitos humanos”.

A revolução síria pode derrubar o regime
Ameaçada por deserções nas Forças Armadas e pela resistência do movimento popular, o Estado sírio está tentando esmagar as manifestações populares com assassinatos em massa.

Com isso se aproxima de um cenário de guerra civil, seguindo o roteiro de Muammar Kadafi, da Líbia, e o rei Hamad bin Isa al-Khalifa, do Bahrein. A resistência está assumido caráter armado em algumas regiões. Homens armados atacam tribunais e delegacias de polícia.

Se o movimento popular está tomando as armas depois de semanas de protestos e repressão, é porque cresce, rapidamente, apesar das mortes e prisões. Na verdade, os horrores infligidos pelo regime têm radicalizado o movimento, que se num primeiro momento foi localizado, assumiu logo um caráter nacional.

Formaram-se Comitês de Coordenação Local em algumas partes, que tentam vincular os protestos e apresentar uma plataforma básica, que começa com a derrubada de Bashar al-Assad e uma conferência nacional que visa “a transição do país para um Estado democrático e pluralista baseada na liberdade e igualdade para os cidadãos sírios.”

É difícil medir a força da oposição, seja pela falta de informação, seja por que ela mesma é dividida entre ativistas na Síria e grupos de exilados, todos com diversos matizes políticos, variando de pró-imperialistas, democratas e socialistas.

Mas a força desta revolução, como em toda região, está com as mulheres e os homens que iniciaram a luta pela democracia protestando contra a tortura e o assassinato de seus compatriotas.

São trabalhadores que participam em manifestações e greves, soldados que se amotinam contra seus comandantes, mães que ignoraram as ameaças de selvageria.

Eles são a esperança de todos que querem ver a revolução árabe crescer em toda região.

Viva a luta do povo sírio!

Abaixo a ditadura e o regime de Bashar el Assad!

Viva a revolução síria e árabe! Fora imperialismo!

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