Morreu Daniel Bensaïd

Bensaïd

Neste dia 12 de janeiro morreu, em Paris, Daniel Bensaïd. Nascido a 25 de março de 1946 em Toulouse, Bensaïd foi um destacado militante e dirigente político. A sua militância iniciou-se no movimento estudantil no final dos anos 60, quando estudava na Universidade de Paris (Nanterre). Aí foi um dos principais ativistas que emergiu das fortes lutas do Maio de 68.

Bensaïd começou a militar na Juventude Comunista Revolucionária (JCR). Destacou-se durante as lutas do Maio de 68 como um dos jovens militantes mais brilhantes, entre as várias centenas que durante aquele período aderiram ao trotskismo na França, fazendo com que a seção francesa da IV Internacional tivesse um salto importante no seu crescimento e se tornasse uma referência no país e na vanguarda a nível internacional.

Foi também parte de uma geração de jovens e antigos militantes trotskistas europeus que impactados com as lutas latino-americanas e especialmente com as ações espetaculares dos grupos guerrilheiros, tentaram transformar uma tática – a guerrilha – numa estratrégia, tendo por isso durante vários anos capitulado à política destes grupos guerrilheiros. Os debates sobre este tema foram uma das polêmicas importantes que mantivemos durante esse período com a corrente onde se organizava Bensaïd, no marco da IV Internacional.

Em 1969, a JCR unificou-se com o Partido Comunista Internacionalista (PCI), donde surgiu a Liga Comunista, onde Bensaïd integrará o Bureau Político, e que posteriormente se tornará a Liga Comunista Revolucionária – LCR.

Daniel Bensaïd não foi apenas um dos dirigentes mais destacados da seção francesa da IV Internacional. Tendo em conta as suas capacidades e o lugar que ocupava numa das principais seções da IV, Bensaïd tornou-se também um importante dirigente da IV Internacional, tendo escrito vários textos de elaboração sobre diversos temas, e estado durante vários anos responsável pelo atendimento à América Latina.

Mais recentemente, Bensaïd foi um importante impulsionador do giro do Secretariado Unificado da IV Internacional (SU) para a construção de partidos anticapitalistas, tendo sido fundador do NPA (Nouveau Parti Anticapitaliste) na França e um dos dirigentes do SU que mais escreveu e teorizou sobre a construção dos partidos anticapitalistas como um projeto estratégico.

Nas suas tarefas políticas, Bensaïd era um dirigente inteligente, um orador envolvente e determinado que não tinha medo de enfrentar uma platéia que discordasse das suas opiniões, utilizando os seus argumentos para tentar ganhar os ouvintes para as suas idéias.

Historicamente, a corrente que hoje se organiza na LIT-QI teve várias polêmicas políticas e de estratégia revolucionária com Bensaïd e a corrente da IV Internacional onde se organizava – o SU. Apesar destas diferenças mantivemos, durante vários anos, o projeto em comum da necessidade da revolução socialista e da construção de partidos revolucionários para a tomada do poder pela classe trabalhadora a nível mundial.

Nas últimas décadas, todavia, as nossas diferenças com Bensaïd e a corrente que dirigia deram um salto qualitativo. Essa corrente abandonou a política de construir partidos revolucionários, a nível nacional e internacional (tal como a maioria da antiga esquerda revolucionária e mesmo do trotskismo), passando a defender a construção de partidos reformistas – os chamados partidos anticapitalistas.

Estes partidos unem revolucionários e “reformistas honestos” sob um programa onde é ausente a luta revolucionária pela derrubada do capitalismo: bastaria, apenas, através de reformas combater os aspectos mais bárbaros e selvagens do capitalismo. Abandonaram, assim, a perspectiva revolucionária da tomada do poder pela classe trabalhadora – o projeto que originou a fundação da IV Internacional. Por isso, contra as posições de Bensaïd e do SU, temos travado batalhas políticas sobre o projeto estratégico que é necessário hoje para acabar com o capitalismo.

Apesar destas diferenças políticas estratégicas, podemos dizer que Bensaïd não se corrompeu metodologicamente, ao contrário de outros dirigentes que ao abandonarem politicamente a estratégia revolucionária, e que caíram numa degeneração moral, recorrendo a calúnias, roubos, machismo, como instrumentos “políticos”.

Pela firmeza e honestidade com que Bensaid defendeu as suas idéias, ele transformou-se num militante e dirigente político que soube ganhar o respeito de quem compartilhava as suas idéias, mas também daqueles – que como nós – sempre as combatemos.