Morre Pena Branca: o Brasil perde uma viola autêntica

Morreu de infarto, na segunda-feira, 7 de fevereiro, José Ramiro Sobrinho, o Pena Branca, irmão do também falecido, em 1999, Ranulfo Ramiro da Silva, o Xavantinho. A dupla ficou famosa por preservar, nas suas canções e melodias, a autenticidades da viola sertaneja, tão raras nestes dias de “breganejos” – cantores sertanejos promovidos pela mídia, mas que nada mais são do que cantores de uma versão pobre e ruim das autênticas músicas sertanejas do interior do Brasil.

Nascido em Igarapava, em 1939, no interior paulista, logo foi para Uberlândia (MG), onde foi criado. Desde cedo, conheceu a lida na roça com mais seis irmãos. Em 1962, ele e Xavantinho começaram a cantar. Em 1968, foram para a capital paulista para tentar a vida como artistas.

Em 1980, participaram do Festival MPB Shell, da TV Globo, com a música Que terreiro é esse?, de Xavantinho, classificada para a final. No mesmo ano, lançaram o primeiro disco, Velha Morada. Destacaram-se, entre as faixas, O Cio da terra, composição de Milton Nascimento e Chico Buarque, e Velha Morada, do próprio Xavantinho.

Depois, vieram os discos Uma dupla brasileira (1982), O Cio da Terra (1987), com participação de Milton Nascimento, Canto violeiro (1988), Cantado do mundo a fora (1990), Renato Teixeira e Pena Branca e Xavantinho – Ao vivo em Tatuí (1992), Violas e canções (1993), Ribeirão encheu (1995), Pingo d´água (1996).

Pena Branca e Xavantinho também participaram do programa Som Brasil, na TV Globo, apresentado por Rolando Boldrin. Em 1993, fizeram shows nos Estados Unidos.
Com suas violas, Pena Branca e Xavantinho colocaram em rede nacional, nos seus 50 anos de carreira, o som da verdadeira viola caipira e sertaneja, com músicas como O Cio da Terra, Cuitelinho, Minha Viola Quebrou, entre outros. Esses violeiros não tinham as letras de músicas melosas e de qualidade duvidosa, como as atuais ditas músicas sertanejas lançadas pelas grandes gravadoras. Tinham como principal virtude as melodias de suas violas.


Cuitelinho

Nos 50 anos de carreira, Pena Branca nunca abriu mão da qualidade das melodias, influenciando artistas como Renato Teixeira, Almir Sater e uma série de grupos de viola pelo interior do país, a manter viva esta tradição que as grandes gravadoras insistem em destruir com os atuais e pobres ditos cantores sertanejos que a mídia lança a cada seis meses.

Com esta morte, a música caipira e a cultura do país perdem. As gravadoras e produtoras mandam e desmandam sobre o que o povo deve ou não ouvir. Ficam as rodas e orquestras de violas caipiras esparramadas pelo país, onde o que conta é o som da viola e não o mercado da indústria fonográfica.


Pena Branca canta “O Cio da Terra” no camarim

O CIO DA TERRA
Pena Branca e Xavantinho
Composição: Milton Nascimento e Chico Buarque

Debulhar o trigo
Recolher cada bago do trigo
Forjar no trigo o milagre do pão
E se fartar de pão
Decepar a cana
Recolher a garapa da cana
Roubar da cana a doçura do mel
Se lambuzar de mel
Afagar a terra
Conhecer os desejos da terra
Cio da terra, a propícia estação
E fecundar o chão

CUITELINHO
Renato Teixeira & Pena Branca e Xavantinho
Composição: Folclore/Paulo Vanzolini /Antônio Xandó

Cheguei na beira do porto
Onde as onda se espaia
As garça dá meia volta
E senta na beira da praia
E o cuitelinho não gosta
Que o botão de rosa caia, ai, ai

Ai quando eu vim
Da minha terra
Despedi da parentáia
Eu entrei no Mato Grosso
Dei em terras paraguaia
Lá tinha revolução
enfrentei fortes batáia, ai, ai

A tua saudade corta
Como aço de naváia
O coração fica aflito
Bate uma, a outra faia
E os óio se enche d´água
Que até a vista se atrapáia, ai