“Minha avó não era macaca”: o obscurantismo criacionista

Com essa célebre declaração, um professor do Estado do Rio de Janeiro resumia, há três anos, o conteúdo de sua argumentação favorável ao criacionismo.

Para quem não sabe, o criacionismo é a versão da religião cristã para a origem e evolução da vida na Terra. Consiste basicamente em interpretações literais ou arredondadas do livro bíblico Gênesis: aquela história sobre as costelas de Adão, imagem e semelhança, Arca de Noé, etc.

Parece que o próprio Anthony Garotinho, que na época era Secretário de Segurança Pública, e a então governadora Rosinha Matheus, ambos adeptos do criacionismo, teriam repetido essa frase à imprensa.

Não sei se o criacionismo está sendo de fato “ensinado” nas escolas do norte do Rio de Janeiro. Mas o simples fato de que autoridades do Estado tenham repetido tais afirmações para justificar a reintrodução do ensino religioso nas escolas públicas é uma mostra do quanto o Brasil pode ainda decair em termos de cultura, ciência e conhecimento.

Nesta quinta-feira, 22 de novembro, foi divulgada a notícia de que os escorpiões marinhos de 390 milhões de anos atrás eram maiores do que os seres humanos. Não é curioso que tenham existido tantos animais fantásticos que desapareceram?

A vida tem aproximadamente 4 bilhões de anos (3,5 bilhões, mais precisamente). Quando observamos os experimentos bem sucedidos da vida, temos a impressão de que deve haver alguma inteligência por trás deles. Afinal, os homens criam mecanismos complexos como os relógios. Logo, alguém deve ter criado um mecanismo tão complexo como uma bactéria, ou um vírus, ou uma esponja, ou um ser humano.

O senso comum é incapaz de aceitar que a vida tenha evoluído de formas simples até formas mais complexas. Parte dessa incapacidade deve-se a uma ilusão dos sentidos.

Acontece simplesmente que não somos capazes de entender o significado de “4 bilhões de anos”. A nossa intuição capta apenas a significação do “4” e da palavra “ano”.

Para se ter uma idéia do que significam 4 bilhões de anos, pensemos o seguinte: em uma hora, existem 3.600 segundos. Num dia, há 24 horas. Logo, em um dia existem 24 x 3.600 segundos. Como em um ano há 365 dias, resulta que em um ano existem 365 x 24 x 3.600 segundos.

Pois bem. Em vez de 4 bilhões de anos, pensemos em 4 bilhões de segundos. É uma redução drástica, colossal.

Agora vamos começar a contar: 1, 2, 3, 4, 5, etc. Cada segundo representa um ano. Vamos contar até 4 bilhões. Podemos até usar um computador para fazer a contagem e emitir um som a cada segundo para facilitar as coisas. Quanto tempo levaríamos para contar 4 bilhões de segundos?

Mais de um século.

Seriam necessários 126 anos para contar até 4 bilhões. Agora voltemos aos anos. São 4 bilhões de anos, não 4 bilhões de segundos. Essa é a idade da vida, a vida que os seres humanos estão destruindo.

Cada animal, cada planta, cada bactéria, cada um dos microorganismos que habitam esse planeta é resultado de 4 bilhões de anos de experimentos, de uma luta incessante pela autopreservação, pela sobrevivência.

Centenas de milhares desses experimentos vitais, milhões deles, extinguiram-se, pois não eram suficientemente adaptados, ou foram vítimas de catástrofes ambientais, ou de grandes alterações em seus ecossistemas. Desapareceram, por exemplo, os trilobitas, os escorpiões marinhos gigantes, os tigres dente-de-sabre, os dinossauros… A vida fez muitas experiências que fracassaram, deixaram de existir.

Os organismos vivos que conhecemos hoje são os vencedores dessa batalha de bilhões de anos pela sobrevivência. São criaturas extraordinariamente bem adaptadas e complexas. Quando as observamos, temos a impressão de que alguma inteligência superior deu origem a elas espontaneamente, num “faça-se a luz” ou coisa parecida.

Mas isso é apenas ilusão, crenças populares, religião.

A história da vida é infinitamente mais bela do que as lendas que os hebreus relataram na Bíblia. A história real da vida é mais bela e complexa do que qualquer um dos relatos ideológicos ou religiosos de que temos notícias, sejam hindus, budistas, cristãos, muçulmanos, judaicos, tupis-guaranis, etc.

É precisamente essa herança de 4 bilhões de anos que está ameaçada pela destruição de ecossistemas inteiros, que serão transformados, a título de exemplo, em plantações de cana-de-açúcar para a produção de etanol. Cem anos depois do advento da física moderna, que abriu as portas para o domínio da energia nuclear, os homens voltarão ao monocultivo da cana-de-açúcar, dada a ganância das indústrias de automóveis com motores de combustão interna.

A organização (ou desorganização) social do homem está extinguindo gradualmente as condições naturais que permitiram o surgimento da vida no planeta. Quando se observa o espaço à nossa volta, os planetas de nosso sistema solar, como Vênus, com sua atmosfera de gases tóxicos e ácido sulfúrico, temos a impressão de que a Terra é de fato um paraíso, uma fascinante explosão de vida e beleza.

É precisamente esse paraíso azul que está sendo destruído pela irracionalidade de um sistema socioeconômico condenado.

As trevas do obscurantismo se transformarão em breve em realidade. A vida deverá lutar novamente pela existência. Os defensores da ignorância e da escuridão gritarão que seus antepassados não eram macacos, mas os seres humanos que sobreviverem às condições ambientais e climáticas criadas pela destruição da atmosfera se parecerão muito pouco, no futuro, com os atuais.

Não se deve descartar a hipótese de que surjam variedades mutantes adaptadas a uma atmosfera de dióxido de carbono e sem a proteção da camada de ozônio, que talvez voltem a habitar os pólos, fugindo do inferno equatorial, vivendo pouco tempo nessas regiões mais frias antes do derretimento completo das calotas polares. Então, quando o mar cobrir as faixas litorâneas em que se situam as grandes cidades dos nossos dias, os homens subirão os cumes das montanhas, e, quem sabe, voltarão ao topo das árvores. Lá, ao lado dos símios dos quais se separaram há centenas de milhares de anos, lutarão para conseguir alimento e sobreviver.

Terá sido uma longa jornada. Infelizmente vã.

José Luís do Santos, 31, é jornalista desempregado.