Michael Roberts: O G20 e a guerra fria no setor de tecnologia

    Michael Roberts

    A reunião de cúpula do G20 no último fim-de-semana em Osaka não resolveu nada de substancial na guerra comercial e tecnológica que os EUA estão travando com a China. Na melhor das hipóteses, foi acertada uma trégua nos aumentos de impostos de importação e em outras medidas contra empresas de tecnologia chinesas. Mas não foi alcançado um acordo duradouro, pois esta é uma “guerra fria” entre o poder econômico relativamente declinante dos EUA e um novo e perigoso rival pela supremacia econômica, a China. Assim como a última “guerra fria” entre os EUA e a URSS, esta pode durar uma geração ou mais antes que um vencedor surja – e, quanto mais durar a guerra fria, as chances são contra os EUA desta vez.

    No G20, Trump e Xi concordaram com uma trégua sobre as atuais medidas e em reiniciar as “negociações”. Trump fez algumas concessões, permitindo que empresas norte-americanas voltem a vender produtos para a Huawei. Então, presumivelmente, o Google, o Android, etc., reaparecerão nos dispositivos da Huawei. E a China poderá, presumivelmente, comprar os processadores e chips de que precisa da Intel, Qualcom e Micron. Mas não houve clareza sobre se essas concessões incluem o que a Huawei pode vender para empresas americanas (ou seja, redes 5G).

    Mas, assim como a noite segue o dia, a guerra comercial será retomada em algum momento, porque as principais demandas dos EUA são inaceitáveis ​​para a China, ou seja, que a China renuncie à tentativa de igualar a tecnologia dos EUA e aceite a supervisão dos EUA em seus assuntos econômicos.

    O G20 pode oferecer uma breve pausa para os mercados financeiros, mas isso não alterará a desaceleração geral que a economia mundial está experimentando agora, com a probabilidade de uma nova queda na produção, no comércio e no investimento globais cada vez mais próxima. Os índices de atividade global nos setores manufatureiro e de serviços já diminuíram para níveis não vistos desde o final da Grande Recessão em 2009.

    Figura 1: PMI global da J.P. Morgan nos setores de produção e serviços

    O índice de atividade global do JP Morgan de junho sugere que o crescimento econômico mundial está abaixo da taxa anual de 2,5% – um número frequentemente considerado no limiar da “velocidade de paralisia”, ou seja, qualquer coisa abaixo dessa taxa indicaria uma recessão global.

    Figura 2: PMI e PIB industriais globais

    A realidade é que Trump não pode reverter o declínio constante da antiga competência industrial dos EUA e o atual desafio da China à sua superioridade tecnológica. O emprego industrial nos EUA caiu de cerca de 25% da força de trabalho em 1970 para 9% em 2015. Esse declínio não se deve a estrangeiros maldosos ​​que traem acordos comerciais, como Trump gosta de argumentar. A maioria dos estudos (não todos) descartam essa tese.  Um estudo realizado por David Autor e colaboradores avalia que a concorrência da China levou à perda de 985.000 empregos industriais entre 1999 e 2011. Isso é menos de um quinto da perda absoluta de empregos industriais durante esse período e uma parcela muito pequena do declínio industrial no longo prazo.

    A maior razão pela qual Trump não pode trazer de volta esses empregos industriais é que eles foram perdidos em grande parte para o sucesso da “eficiência” norte-americana. Nas últimas três décadas e meia, os industriais eliminaram mais de sete milhões de empregos, mas produzem mais do que nunca. O Economic Policy Institute (EPI) relatou em The Manufacturing Footprint and the Importance of the US manufacturing Jobs que, “se você tentar entender como tantos empregos desapareceram, a resposta que você obtém repetidamente nos dados é que não foi o comércio que causou isso, mas, principalmente, a tecnologia […] Oitenta por cento dos empregos perdidos não foram substituídos por trabalhadores chineses, mas por máquinas e automação. Esse é o primeiro problema ao impor impostos. O que se descobre é que é mais provável que as empresas americanas substituirão seus trabalhadores mais caros por máquinas”.

    Esses estudos revelam o que a economia marxista mostrou muitas vezes. No capitalismo, o aumento da produtividade do trabalho ocorre por meio da mecanização e da redução de força de trabalho. Marx explicou em  O Capital que esta é uma das principais características da acumulação capitalista – a propensão da tecnologia pelo capital – algo continuamente ignorado pela economia burguesa, até hoje.

    Para Marx, ao contrário da economia burguesa, o investimento no capitalismo ocorre apenas para o lucro, não para aumentar a produção ou a produtividade como tal. Se o lucro não puder ser suficientemente aumentado através de mais horas de trabalho (mais trabalhadores e jornadas mais longas) ou pela intensificação do ritmo de trabalho (velocidade e energia – tempo e movimento), a produtividade do trabalho só pode ser aumentada por um avanço tecnológico. Assim, em termos marxistas, a composição orgânica do capital (o valor do maquinário e das instalações em relação ao número de trabalhadores) aumenta ao longo do tempo.

    Contra a visão de “livre mercado” da economia burguesa, historicamente, o desenvolvimento de novas tecnologias tem ocorrido por investimentos do estado. Isso geralmente ocorreu sob pressão, com as inovações durante guerras sendo um notável impulsionador do desenvolvimento, levando a avanços em materiais, produtos e processos. As tecnologias das máquinas a jato, motores de foguete, radares e computação moderna têm sua origem na 2ª Guerra Mundial, enquanto a corrida espacial na Guerra Fria desenvolveu-as ao ponto de lançar a era tecnológica atual nos anos 90.

    A corrida espacial foi importante, pois ambos os lados da Guerra Fria colocaram em ação seus recém-adotados cientistas e engenheiros alemães para impulsionar seus projetos de foguetes. Isso culminou com o programa Apollo do presidente Kennedy. Os EUA, tendo sido deixados para trás pelos soviéticos que lançaram o primeiro homem no espaço, reagiram dedicando imensos recursos para recuperar o atraso. A corrida espacial em seu auge envolveu quase 400.000 pessoas e atraiu 20.000 indústrias e universidades privadas. A missão não apenas despejou inúmeras inovações – grande parte da tecnologia necessária para chegar à Lua não existia quando o programa foi anunciado – mas também criou grupos de novas indústrias de alta tecnologia nos EUA, com base nas redes que tinham começado a surgir durante a guerra.

    Isso acelerou o desenvolvimento de inúmeras tecnologias de computação, incluindo o circuito integrado, a transferência de dados em massa e o software de sistemas. Essas foram as tecnologias revolucionárias que impulsionaram o desenvolvimento da IBM e da HP, transformando-as em gigantes da computação. Outros engenheiros do programa criaram a Intel e várias outras empresas de tecnologia. Sem a Apollo, é improvável que o Vale do Silício se tornasse a potência tecnológica e econômica inquestionável de hoje. O programa Apollo também impulsionou amplas inovações de negócios, incluindo coisas que os consultores têm utilizado desde então, como planejamento estratégico, orçamento, bem como novos processos de gerenciamento e de melhoria de tomada de decisões.

    Mas como a lucratividade do setor privado caiu entre meados da década de 1960 e a década de 1980, o governo reduziu os impostos e os gastos, principalmente o investimento estatal, foram reduzidos. Os avanços técnicos nos EUA passaram a depender cada vez mais do setor privado. Mas, na maioria das vezes, isso não aconteceu. Os capitalistas dos Estados Unidos e das principais economias optaram por transferir sua produção para o exterior em busca de mão de obra barata para exportar de volta para os EUA. Isso foi expresso em investimentos na América Latina (especialmente no México) e depois na China.

    Figura 3: Investimento do governo dos EUA e produtividade (média em 5 anos). Linha azul: produtividade industrial (%); linha vermelha: investimento bruto do governo (% do PIB)

    Houve uma exceção: o setor de alta tecnologia dos EUA. Os avanços tecnológicos dos EUA estão agora completamente dependentes do investimento neste setor. Tudo nos EUA agora depende das FAANGs (Facebook, Apple, Alphabet, Netflix e Google) mais a Microsoft. Essas poucas empresas investem surpreendentes 80% do que o governo dos EUA gasta com educação, transporte, ciência, espaço e tecnologia. O tamanho desse investimento supera em muito os gastos dos dez anos do programa Apollo, que chegaram a aproximadamente US$ 150 bilhões em dólares de hoje – menos de dois anos de investimentos totais das FAANGs mais a Microsoft.

    Figura 4: Despesa anual de capital (FAANGs + Microsoft). Linha preta: como porcentagem do investimento bruto do governo.

    O setor de alta tecnologia dos EUA é o último bastião da superioridade produtiva dos EUA. O banco de investimentos Goldman Sachs observou que, desde 2010, os EUA são o único país onde os lucros corporativos cresceram. E isso, de acordo com o Goldman Sachs, deve-se inteiramente às empresas de supertecnologia. Os lucros globais, exceto do setor de tecnologia, são apenas moderadamente superiores aos de antes da crise financeira, enquanto os lucros do setor de tecnologia subiram acentuadamente (refletindo principalmente o impacto das grandes empresas de tecnologia dos EUA).

    Se a China eventualmente for capaz de competir com as FAANGS, a lucratividade do capital nos Estados Unidos sofrerá uma grande queda, e, com isso, o investimento, o emprego e a renda dos EUA na próxima década. Isso está no centro da guerra comercial e tecnológica e a explicação de porque continuará.

    Fonte: https://thenextrecession.wordpress.com/2019/07/01/the-g20-and-the-cold-war-in-technology/

    Tradução: Marcos Margarido