Mesmice impera em debate antidemocrático

A palavra “socialismo” não foi citada em nenhum momento do debateO tom faraônico da abertura do debate da Band já era um prenúncio do tédio que dominaria o resto do programa. A emissora, prevendo a ausência de um real debate que empolgasse os telespectadores, parecia tentar compensar com uma superprodução, com direito a helicópteros pousando no prédio da Band trazendo os candidatos, além de uma orquestra ao vivo tocando a vinheta da abertura do programa.

E foi exatamente isso o que se viu durante aquelas duas horas. Os dois principais candidatos, Dilma e Serra, evitaram ao máximo se atacar e praticamente não se diferenciaram. Nem poderiam, já que na prática compartilham do mesmo programa de governo.

A candidata do governo ainda deixou transparecer muito nervosismo naquela sua primeira aparição pública sem Lula a tiracolo. Nos primeiros minutos de debate, o PT certamente lamentou mais uma vez o escândalo do mensalão, que derrubou os principais quadros do partido e deixou o governo sem alternativas à sucessão, sendo obrigado a engolir uma candidata sem o menor carisma e de trajetória burocrática.

Sem confrontos
O que se viu no confronto entre Dilma e Serra foi exatamente a ausência de qualquer confronto. Dilma se limitou a destacar os números do governo Lula, enquanto Serra se esforçava em argumentar que o governo do PT era uma continuação do governo FHC. “Está aqui o principal assessor da Dilma, Antonio Palocci, que passou anos e anos elogiando a política econômica do governo FHC”, afirmou o tucano num dos raros momentos de maior rispidez entre os dois candidatos.

As duas principais candidaturas disputavam a posição de melhor continuador do atual governo. Em nenhum momento, por exemplo, Serra atacou qualquer aspecto mais geral da política econômica de Lula. Criticou apenas alguns problemas de infra-estrutura, como as estradas federais, os portos e aeroportos. Só quando apareceu o tema das privatizações, o tucano aproveitou para espetar a petista. “Se eles não gostam de privatização, não sei como é que não reestatizaram nada, muito pelo contrário, Dilma elogiou várias vezes a privatização das telecomunicações”, destacou. A candidata apenas respondeu que não estava entre aqueles ” que reviam contratos”.

Os dois candidatos só expuseram suas verdadeiras opiniões em alguns poucos momentos. Questionada por Plínio sobre a redução da jornada e o limite da propriedade rural, Dilma desfilou não uma pérola, mas um verdadeiro colar. “Não é papel do governo substituir o movimento social e dizer qual a jornada de trabalho que este ou aquele setor deve ter”, afirmou.

Sobre a proposta da CNBB, de limitar o tamanho da propriedade da terra, Dilma disse não ser “prudente estabelecer um limite à propriedade do Oiapoque ao Chuí”. Para a candidata petista, uma estrutura fundiária extremamente concentrada, que gera uma massa de sem-terras e uma explosiva violência no campo é o que deve ser “prudente”.

José Serra deu exatamente a mesma resposta a essas questões. “Jornada de trabalho tem que ser definido sindicato por sindicato, região por região”, defendeu. Sobre a estrutura fundiária, o tucano disse não querer “mexer” com o latifúndio, já que “o governo está cheio de terras que não distribui”. Só não disse se, uma vez eleito, iria distribuir as terras nas mãos da União aos sem-terras.

A candidata do PV, Marina Silva, foi uma das maiores frustrações a quem via nela uma possibilidade de terceira via frente à mesmice entre PT e PSDB. Tentando unir o discurso da sustentabilidade com a defesa dos lucros das empresas, Marina jogou seu discurso no descrédito ao evitar se posicionar contra a Usina de Belo Monte e a transposição do Rio São Francisco. No mais, não se diferenciou das duas principais candidaturas. Ao invés de se contrapor, Marina preferiu se juntar a elas.

Já o candidato do PSOL, Plínio de Arruda Sampaio, levantou temas importantes como a reforma agrária e a redução da jornada de trabalho. Infelizmente, o discurso de Plínio se limitou à oposição entre “igualdade e desigualdade”, atacando a má distribuição de renda, mas não denunciando o caráter intrinsecamente desigual do capitalismo. Nem mesmo o governo Lula foi frontalmente atacado pelo candidato, mesmo Plínio se colocando como o “candidato dos movimentos sociais”.

A falta de uma candidatura socialista
Ao finalizar o debate, o mediador Ricardo Boechat tentava conferir um aspecto histórico ao programa. “Assim se escreve mais um capítulo na historia do Grupo Bandeirantes, de encontros democráticos para que você decida o seu voto”, disse num tom portentoso. Mas na verdade o que se viu foi mais um triste capítulo dessa campanha eleitoral, já que apenas quatro dos nove candidatos à presidência puderam comparecer.

Perdeu, assim, a população, que não teve o direito de conhecer todos os candidatos e suas propostas, e perde também o próprio debate político, entregue à mesmice e a falta de discussão estratégica. Não foi por menos que, por exemplo, a palavra “socialismo” não tenha sido pronunciada uma só vez durante todo o debate. Não foi por menos também que questões fundamentais para o país, como a dominação das grandes multinacionais ou a crise internacional, não tenham sido tocadas.

Foi por isso que o PSTU, além de ativistas independentes e pessoas que simplesmente defendem a democracia na campanha eleitoral, vêm impulsionando uma ampla campanha para que Zé Maria participe dos debates eleitorais. Infelizmente Plínio, que poderia ter denunciado publicamente o caráter antidemocrático do debate, não só não o fez como classificou o debate como “democrático”, frustrando até mesmo militantes do próprio PSOL que se engajam nessa campanha.

O veto da emissora impediu a participação de Zé Maria, mesmo o candidato contando com 3% das intenções de voto na pesquisa espontânea da CNT/Sensus, divulgada no dia 5, mesmo dia do debate. Impediu também que outras candidaturas de esquerda se expressassem, como as do PCB e PCO.

Não se trata apenas de uma questão de justiça com o partido ou o candidato, mas principalmente, como demonstrou o debate da Band, de uma necessidade de se tocar em questões fundamentais e apontar uma estratégia claramente socialista nessas eleições.