Mesa usou manobra da renúncia para atacar protestos

Presidente boliviano tenta costurar ‘pacto de governabilidade´ e usará força policial contra manifestaçõesO presidente Carlos Mesa fez uma chantagem populista, entregando uma carta de renúncia ao Congresso. O pedido foi negado e o presidente boliviano não só permanece no poder, como se sente fortalecido para atacar os movimentos sociais. Mesa convocou para hoje, 10 de março, manifestações populares em nove capitais do país contra os atos e bloqueios de estradas que ameaçam seu governo. “Quero propor à Bolívia que na quinta-feira, ao meio-dia, todos os bolivianos e bolivianas saíamos às ruas e enchamos as praças principais, para expressar nossa oposição militante e radical contra os bloqueios“, disse Mesa.

Ontem, o governo havia anunciado um pacto social com as principais bancadas partidárias para garantir a governabilidade do país. Em contraposição a isso, as lideranças sindicais declararam um “antipacto“ contra a oligarquia e as transnacionais que o presidente representa. A convocatória foi assinada até por Evo Morales, do MAS, que durante boa parte da gestão de Mesa sustentou uma trégua e, após o pedido de renúncia, chegou a afirmar que Mesa deveria continuar no poder até 2007.

Repressão – Além de chamar atos governistas para esta quinta-feira, o presidente se comprometeu a enfrentar as manifestações oposicionistas. Se até então, Carlos Mesa dizia não utilizar as Forças Armadas para reprimir manifestações, agora, após a chantagem teatral de sua quase-renúncia, ele declara que aplicará “a abertura de investigação, o julgamento e a eventual prisão daqueles que estão cometendo atos sediciosos e delitos e violando os direitos alheios ao interromper o livre tráfego no país“.

O anúncio de que vai reprimir os movimentos reafirma a manobra de Mesa de ensaiar uma renúncia para se fortalecer politicamente. Tanto é que, no domingo, logo após ter declarado num discurso emocionado na tv que entregaria sua carta de renúncia, o presidente também chamou seus apoiadores a saírem nas ruas para se manifestar. Na mesma noite, Mesa acenava de sua janela para os apoiadores e segurava nas mãos a bandeira boliviana. Parecia muito mais um candidato em campanha do que demissionário.

Lula lá – Diante da crise social que vive a Bolívia e das intensas lutas em defesa da soberania nacional e pela expulsão das transnacionais, o governo brasileiro resolveu apoiar o neoliberalismo e a política subserviente de Mesa. A manobra chantagista do presidente boliviano também foi elogiada por Lula.

O presidente Lula já havia declarado todo apoio à Mesa esta semana por causa do acirramento da crise. Além disso, Lula reafirmou isso ontem, ao dizer que a confirmação de Mesa como presidente “foi feita de forma altamente democrática e graças a uma ampla convergência de opiniões entre o governo e o Congresso bolivianos“. A postura não é de se estranhar. A mesma política neoliberal de privatizações e desnacionalização dos recursos do país e de exploração da classe trabalhadora é aplicada na Bolívia, no Brasil e em toda a América Latina. Além disso, o Brasil tem interesses econômicos no país, principalmente em relação ao gás. Resta aos trabalhadores desses países se levantarem unidos contra a Alca e o neoliberalismo.