A campanha salarial de metalúrgicos de 2021 se encerrou em São Paulo com um reajuste de 11,08%. O PSTU São Paulo entrevistou um dos membros da Comissão de Fábrica da MWM, uma grande empresa de motores, localizada na Zona Sul de São Paulo, sobre como foi a campanha e sobre o futuro das lutas dos trabalhadores.

PSTU-SP – O Sindicato dos Metalúrgicos de São Paulo e Mogi, dirigido pela Força Sindical, realizou a sua assembleia para discutir a Convenção Coletiva de 2021/2023. Você esteve presente, como foi a assembleia?

CABELO – A categoria obviamente está seguindo recomendações sanitárias por causa da pandemia, então foi uma assembleia menor, porque foi feita com representações. Nesse sentido, foi uma assembleia muito representativa, não em contingente, mas em quantidade de empresas presentes. Foi uma assembleia muito animada. Embora com o número reduzido, tinha bastante delegados sindicais e ativistas de base. Ao o sindicato dar informe dos índices [que estavam sendo negociados] deu uma animada na galera. Ainda mais porque 11,08%, que foi o que a gente tirou de reajuste salarial, mais um abono de 26% em duas vezes, isso obviamente elevou os ânimos da galera.

Pra além disso, houve o debate político. Nisso, a linha foi em geral muito na defesa do Lula, com a defesa da ampliação do número de parlamentares no Congresso e no Senado pra poder contrabalancear o número de parlamentares ao lado do trabalhador. Em relação ao cenário nacional e a questão do governo Bolsonaro, a discussão ficou muito no terreno eleitoral e nessa polarização entre o Lula e o Bolsonaro.

O sindicato, os seus principais representantes, declararam apoio à candidatura do Lula. Inclusive chamaram um coro de apoio a ele como presidente e gravaram um vídeo que foi mandado direto pra ele.

O que você acha dessa saída política apresentada pela diretoria do sindicato para os metalúrgicos, de jogar as esperanças em uma candidatura do Lula, para recuperar o emprego e as condições de trabalho no país?

O problema maior que eu vejo aí é colocar para os trabalhadores a saída “Lula” como a solução para os seus problemas. Porque a gente sabe que não é isso. O Lula e o PT foram governo, fizeram projetos sociais em que distribuíam parte da arrecadação para projetos como o Bolsa Família, mas a gente sabe que isso tudo tá longe de resolver o problema da opressão e da exploração do nosso povo. Pelo contrário, a quantia que ele deu de dinheiro pra os trabalhadores e pro povo pobre nem se compara com os trilhões que foram para os bolsos dos bancos e das grandes empresas com isenções e incentivos fiscais.

É desproporcional e essa desproporção aumentou com os ataques que fez o PT a direitos como o abono do PIS, o seguro-desemprego, essas mudanças que foram feitas e isso fez com que os mais pobres que já estavam sentindo o desemprego, o arrocho salarial e o aumento do custo de vida perceberam que o governo tinha mudado de lado. E a verdade é que essa balança mostra que sempre esteve muito mais preocupado em garantir os lucros dos bancos. E hoje é muito pior. Se era assim antes imagina hoje com uma chapa chamando o Alckmin pra ser vice e outros partidos da direita. São diretamente aqueles que ele se opunha como os “neoliberais”, hoje ele já diz que é a cara mais próxima do pobre no PSDB.

Nesse sentido, apoiar uma candidatura e dizer pro trabalhador que a saída para a sua vida é o Lula, que está prometendo fidelidade pra burguesia, isso não é verídico. É mais um governo que vai decepcionar, trair e atacar os trabalhadores. Além de manter as reformas trabalhista e da previdência e seguir atacando os direitos dos trabalhadores.

 Essa semana aconteceu a assembleia na sua empresa. Como foi?

Sim, teve a assembleia terça aqui na empresa. Os trabalhadores ficaram, no geral muito animados. Alguns com críticas, mas a maioria com sentimento de conquista. Porque além do reajuste que a gente conseguiu, também conseguimos algumas melhorias na empresa, com o reajuste do nosso Vale-Alimentação.

Foram negociações em que a Comissão de Fábrica participou pouco. Foi muito mais fazendo o debate com a direção do sindicato, do que diretamente na mesa de negociação com a empresa. Mas de qualquer forma a gente conseguiu colocar para o sindicato as reivindicações dos trabalhadores.

Uma vitória foi a efetivação dos trabalhadores com contrato temporário. Existe uma pressão para a efetivação desses trabalhadores. Nós conseguimos uma vitória parcial com a efetivação de uma parte deles. Vamos ter que seguir lutando. O contrato por tempo determinado é uma lei da Reforma Trabalhista que as empresas podiam ter trabalhadores em contrato temporário por um ano. O Bolsonaro durante a pandemia aumentou isso pra dois anos. A gente conseguiu a efetivação na luta de quem tem um ano. O sindicato teve um papel importante nisso.

Você é membro da Comissão de Fábrica da empresa, qual a função da comissão de fábrica e como você vê a importância da organização de base dos trabalhadores dentro das empresas?

Aqui nós temos uma Comissão de Fábrica que é histórica. A Comissão de Fábrica aqui foi criada em 1978, em uma greve de 28 dias. Uma greve de ocupação na época que ainda era ditadura militar. E parte das reivindicações era que tivesse uma comissão de trabalhadores da fábrica. E ela foi conquistada na greve. Era uma comissão independente em relação ao sindicato, tinha um estatuto próprio. Os sindicatos na época, e o nosso não era diferente, eram controlados pela ditadura.

Então surgiu e foi a única que se manteve. Aqui na região tinham muitas fábricas. Caterpillar, Rolamentos FAG, Vilares… e essas fábricas foram todas migrando para o interior. E ficou aqui a nossa empresa. E a história da comissão se manteve. Em que pese que em 94 acabou ficando sem eleição, ficou 20 anos sem eleição, e em 2014 os trabalhadores cobraram muito pra ter uma renovação da Comissão, ter eleição. E ai a gente conquistou a eleição. Eu faço parte da Comissão de Fábrica desde então. Fui eleito e reeleito.

Ela é importante pra que? É porque justamente tá ali, no “chão da fábrica”, no “olho do furacão”, conversando com o trabalhador, debatendo, levantando suas demandas, suas reivindicações. E também dando um retorno pros trabalhadores das negociações, das dificuldades que tiveram. Então tem uma importância muito grande existir a Comissão de Fábrica porque é justamente a organização viva do trabalhador dentro da estrutura fabril.

A dificuldade nossa é ser em São Paulo a única com estrutura, com estatuto. Então a gente batalha com o próprio sindicato, faz esse debate, pra ver se expandia esse instrumento de luta nosso pra outras empresas e a gente ir fortalecendo. Em outras regiões ainda tem as comissões, o ABC ainda tem. É importante as direções sindicais estarem atentos a isso, tanto pra democratizar a organização sindical mas também para trazer o trabalhador ativista para a movimentação sindical e fortalecer o ativista também.

Você assinou o Manifesto do Polo Socialista e Revolucionário, que tenta construir uma alternativa política para o Brasil que seja independente dos grandes empresários e banqueiros e que aponta para a necessidade de uma revolução socialista no Brasil. Como você vê a importância do Polo para os trabalhadores?

Justamente a gente estava falando sobre a polarização entre o Lula e Bolsonaro. O que pôr no lugar? A gente vê que que o que tá surgindo de alternativa por ai são alternativas tudo da patronal, tudo do “lado de lá”. A gente precisa fazer um debate que não é só eleitoral. O Bolsonaro está ai já há três anos massacrando os direitos dos trabalhadores, destruindo a Amazônia, favorecendo o desenvolvimento de milícias. Então não dá pra gente manter um governo desse até o final de 2022. Não só ele vai seguir com isso, como vai seguir ameaçando as liberdades democráticas.

Então é necessário debater pra hoje como aglutinar os lutadores para construir uma alternativa de direção pra nossa classe. Não só lutadores, mas aqueles que se reivindicam socialistas e revolucionários. Os trabalhadores precisam entender que se reivindicar socialista é reivindicar um mundo melhor para aqueles que trabalham. Que aqueles que produzem a riqueza, tenham essa riqueza sob o seu controle. Esse é o debate que faz o Polo Socialista. É uma iniciativa do PSTU, que chamou as organizações e ativistas a se somar. Então outros ativistas e organizações vieram construir.  E é fundamental os trabalhadores conhecerem, se somarem e virem construir essa alternativa que é não só para a eleição, mas para juntar os lutadores e os revolucionários para ter uma alternativa para luta para questionar esse governo assassino que é o governo Bolsonaro.

É essa a importância e é por isso que estamos convidando os trabalhadores para construir essa alternativa.