Matilde Ribeiro e José Alencar: dois exemplos de como não se combater o racismo

Depois de uma declaração “polêmica” da Ministra Matilde Ribeiro, “justificando” o preconceito de negros em relação aos brancos; o vice-presidente veio a público afirmar que “não há problema racial no Brasil”. Aparentemente opostas, tanto a suposta radicalidade da fala de Matilde quanto o despropósito da afirmação de Alencar são, contudo, idênticas numa coisa: a falta de disposição e políticas, por parte do governo Lula, para combater o racismo.

Na quarta-feira, 28 de março, todos os jornais da grande imprensa estamparam manchetes com uma frase pronunciada pela Ministra Matilde Ribeiro, da Secretaria Especial para Políticas de Promoção da Igualdade Racial (Seppir), em uma entrevista à BBC Brasil: “Não é racismo quando um negro se insurge contra um branco. (…) Quem foi açoitado a vida inteira não tem a obrigação de gostar de quem o açoitou”.

Invariavelmente, as manchetes vieram acompanhadas de declarações de gente que se dizia indignada com a fala de Matilde Ribeiro. Muitas delas acompanharam a linha da afirmação feita por Marcelo Tognozzi, representante da Associação Brasileira de Imprensa no conselho do Ministério da Justiça: “Acirrar os conflitos nunca é bom. Todos nós, não-racistas, não podemos concordar com tal afirmação”.

Outras (a maioria delas identificada com setores governistas do movimento negro) procuraram amenizar a declaração, para poupar a ministra. Foi o caso de Frei David, coordenador da Educafro, que defendeu que “existem várias formas de racismo – entre elas a de negros contra brancos” (O Estado de S. Paulo, 28/3/07).

Vendo-se no olho do furacão e “abandonada” pelos seus chefes no governo – que manteve um oportuno silêncio diante da situação – Matilde Ribeiro emitiu uma nota, na qual apresentou uma envergonhada e mais que batida justificativa para sua frase: ela “aparece no título de maneira descontextualizada, induzindo o leitor ao equívoco”.

É verdade que, na entrevista, Matilde, depois de defender que não é racismo quando um negro se levanta contra um branco, afirmou que “racismo é quando uma maioria econômica, política ou numérica coíbe ou veta direitos de outros”. Algo com que, em parte, concordamos.

Mas, para nos da Secretaria de Negros e Negras do PSTU, o problema não está localizado naquilo que a ministra disse. Pelo contrário. Nossa polêmica com Matilde e o governo do ao qual ela serve é exatamente por aquilo que ela deixa de dizer e jamais se proporá a fazer.

Faces de uma mesma moeda
Dizer que ninguém do governo saiu em defesa da ministra, seria uma mentira. O vice-presidente José Alencar bem que tentou, mas só piorou a situação desfiando um longuíssimo rosário de afirmações contaminadas até a medula pelo mito da “democracia racial”.

Além de defender a inexistência de racismo no Brasil, Alencar apelou para uma versão “rocambolesca” da velha tese da miscigenação generalizada do povo brasileiro: “Nós do Brasil, somos uma raça miscigenada (…) Tenho minha bisavó negra, foi escrava, e a minha avó era mulata. Se você olhar para mim, sou um branco, mas não sou um branco de fato, então não existe problema racial no Brasil” (O Estado de S. Paulo, 29/3/07).

Sobre a ladainha de Alencar não é preciso se estender muito, até mesmo porque já escrevemos várias vezes sobre isso. Negar a existência do racismo é a forma mais cômoda e descarada de não se fazer nada para combatê-lo. Algo que, diga-se de passagem, aproxima o vice-presidente de uma suposta formulação esquerdista, formulada por gente como José Carlos Miranda, coordenador no Movimento Negro Socialista e membro do diretório estadual PT-SP, pela Corrente “O Trabalho”.

Em artigo publicado na mesma edição do Estado de S. Paulo, Miranda negou a necessidade da existência de uma luta específica por parte de negros e negras para combater a opressão racial ao afirmar que o racismo existente no país “não e produto da opressão de ‘brancos´ contra ‘negros´, mas do princípio da desigualdade social que dissolve as esperanças dos trabalhadores de todos os tons de pele”. Cabe ressaltar que seria, no mínimo, interessante como Miranda explicar ataques abertamente racistas como o assassinato de Gerô, no Maranhão, e o incêndio criminoso na UnB (leia matérias no site).

Aparentemente distintas, as afirmações de Matilde, José Alencar e Miranda têm algo muito importante em comum: a negação sistemática de que a existência de negras na sociedade capitalista está marcada, indissoluvelmente, pela combinação da exploração de classe e da opressão racial.

A hipocrisia do governo
A declaração de Matilde, por mais que possa se compreendida no marco da desconfiança “natural” que negros e negras podem, e, realmente têm, em relação aos brancos é de uma hipocrisia ímpar ao “deixar de lado” aquilo que, hoje, para ministra, deve ser apenas um detalhe: aqueles que nos açoitaram e nos açoitam até hoje não são os brancos de forma generalizada, mas sim os brancos que detêm o poder econômico neste país e no mundo. Exatamente os brancos com os quais Matilde, Lula, o PcdoB, o PT e todos os partidos e setores governistas do movimento, hoje, trocam incansáveis afagos e favores.

Brancos como José Alencar, empresário que nunca se acanhou em explorar e oprimir homens e mulheres negros (como sua “bisavó”, já que ele faz questão!). Brancos como os Sarneys, os Barbalhos, os Malufs, os “heróis” usineiros de Lula e todo o restante da corja que compõem a base governista com a qual Matilde finge promover políticas de igualdade racial.

Da mesma forma que supostos esquerdista como os membros do governista Movimento Negro Socialista, na prática, não vão mover uma palha para lutar contra o abismo social existente entre negros e brancos, na medida em que negam a necessidade de uma luta de “raça e classe”, Matilde, de braços dados com seus “novos heróis” não tem autoridade nem política para combater o racismo. Muito menos para, da boca pra fora, pregar o “ódio” entre negros e brancos.

A lição dos quilombos: ódio aos senhores
Diferentemente de Matilde, não odiamos todos os brancos. Para todo e qualquer revolucionário, ou seja, para todo aquele que sabe o significado da luta de classes, brancos trabalhadores, jovens, explorados, desempregados, sem-teto e sem-terra são mais do que nossos irmãos, são nossos companheiros. Gente com as quais temos orgulho de compartilhar as fileiras de lutas e os enfrentamentos com todos aqueles que nos oprimem e nos exploram: sejam brancos ou negros.

Como também não temos o menos problema em declarar em alto e bom som que os negros têm sim todo o direito, e inclusive o dever, de se levantar e se insurgir contra todos aqueles que fazem da exploração e da opressão a razão de suas existências. E, entre eles, há evidentemente, uma maioria branca: de Bush ao fascista Le Pen, na França, dos skinheads que vagam pelas ruas aos representantes da elite branca que tomam assento no Congresso Nacional.

Contra estes, nosso “ódio” não tem limites. Como também, é ilimitado o ódio que nutrimos por negros e negras como Condollezza Rice e todos aqueles que romperam com seu passado de opressão e exploração para aliarem-se aos capitalistas, os quais, como diria Malcolm X, para continuar a viverem em suas gaiola de ouro, dependem, também do racismo.

Por fim, não poderíamos deixar de mencionar uma coisa: qualquer um que faça parte de um governo que, hoje, em aliança com os herdeiros diretos dos senhores de engenho e das oligarquias escravagistas, açoita o povo negro haitiano ou quer fazer uma Reforma Trabalhista que irá jogar negros e negros em uma situação ainda pior, deveria ter vergonha em afirmar que é “natural” que “quem foi açoitado a vida inteira não tem a obrigação de gostar de quem o açoitou”.