Mario Benedetti: Na rua, lado a lado, somos muito mais que dois

O escritor uruguaio Mario Benedetti

Em seu “Adeus número três”, o poeta uruguaio Mario Benedetti dizia: “Estarei onde menos esperas (…) Eu estarei em um distante horizonte sem horas, na impressão do tato, em tua sombra e minha sombra”.

Benedetti de fato permanece, não como sombra, mas imagem viva na poesia que deixa. A poesia, que para ele, “ensina a não temer a morte”. E, mais que isso, a poesia que sempre foi ferramenta de transformação do mundo: “quando a poesia abre suas portas, é como se mudássemos de mundo”.

Mario Benedetti morreu no último 17 de maio, aos 88 anos. Sua morte significa, para a América Latina, a perda de “um escritor continental, um escritor cuja obra reflete o sentir de todos os países da região”, nas palavras do escritor colombiano Álvaro Mutis.

Antes de viver apenas de seus escritos, Benedetti foi funcionário de uma oficina de autopeças, taquígrafo, vendedor, contador, funcionário público, tradutor e jornalista. Escreveu mais de 80 livros de poesia, romances, contos e ensaios, tendo recebido vários prêmios por suas obras. Mas ele mesmo dizia que a poesia era o gênero no qual se sentia mais confortável. “Quando tenho uma preocupação, uma dor ou um amor, tenho a sorte de poder transformar em poesia”, afirmava.

Foi militante da esquerda, atividade que se entrelaçava à sua literatura. Em 1971 ele fez parte do grupo que fundou o “Movimiento de Independientes 26 de Marzo”, que posteriormente integraria a Frente Ampla, alternativa aos partidos Branco e Colorado no país. Com o golpe de estado no Uruguai, em 1973, inicia-se seu período de exílio. Perseguido e ameaçado de morte, Benedetti viveria uma década em países como Argentina, Peru, Cuba e Espanha. O poeta nutria grande simpatia pelas conquistas da revolução cubana. Ele retorna ao Uruguai apenas em 1983, iniciando um período que ele chamou de “desexílio”, que também influenciaria profundamente suas obras.

Durante sua vida, Benedetti não teve necessidade de crer em deus e considerava a consciência como sua única religião, à qual todos deveriam prestar contas de seus atos. Criticou a globalização capitalista, chamando-a de uma “ditadura indiscriminada, que cada vez conduz mais ao suicídio da humanidade”.

Porém, falar que os ideais políticos influenciaram sua literatura é dizer pouco sobre a obra de Benedetti. Se ele fala de injustiças e de mudar o mundo, o faz de forma coloquial, simples e tocante, não como quem discursa, mas como quem fala de esperanças humanas. É assim em seu poema “Defesa da alegria”, em que ele afirma ser necessário “defender a alegria como um destino”, “defender a alegria como um direito”.

É desta mesma forma sensível que ele entrelaça as relações pessoais aos laços de camaradagem nas lutas: “Se te quero é porque sois / meu amor, minha cúmplice e tudo / E na rua, lado a lado / Somos muito mais que dois”.

Entre suas obras mais importantes estão “Poemas da Oficina”, “A trégua” e “A borra do café”. “A trégua” lhe rendeu fama internacional, sendo traduzida para cerca de 20 idiomas. Sua última obra publicada foi “Testigo de uno mismo”, em agosto de 2008.

Benedetti morreu em maio de 2009, mas já suportava uma ferida aberta desde 2006, a perda de Luz Lopez, seu amor, sua cúmplice, tudo. Grande companheira e amada, amigos desde a infância, Luz se fez sempre presente em sua vida e em sua obra.

Os olhos se fecham e a poesia de Benedetti segue sendo, segundo sua própria definição, “uma clarabóia para a utopia”.

Alguns poemas

DEFESA DA ALEGRIA
Defender a alegria como uma trincheira
defendê-la do escândalo e da rotina
da miséria e dos miseráveis
das ausências transitórias
e das definitivas

Defender a alegria como um princípio
defendê-la da surpresa e dos pesadelos
dos neutros e dos nêutrons
das doces infâmias
e dos graves diagnósticos

Defender a alegria com uma bandeira
defendê-la do raio e da melancolia
dos ingênuos e dos canalhas
da retórica e das paradas cardíacas
das endemias e das academias

Defender a alegria como um destino
defendê-la do fogo e dos bombeiros
dos suicidas e dos homicidas
das férias e do fardo
da obrigação de estarmos alegres

Defender a alegria como uma certeza
defendê-la do óxido e da sujeira
da famosa ilusão do tempo
do relento e do oportunismo
dos proxenetas do riso

Defender a alegria como um direito
defendê-la de deus e do inverno
das maiúsculas e da morte
dos sobrenomes e dos lamentos
do azar e também da alegria

Arco Iris

A veces
por supuesto
usted sonríe
y no importa lo linda
o lo fea
lo vieja
o lo joven
lo mucho
o lo poco
que usted realmente
sea

sonríe
cual si fuese
una revelación
y su sonrisa anula
todas las anteriores
caducan al instante
sus rostros como máscaras
sus ojos duros
frágiles
como espejos en óvalo
su boca de morder
su mentón de capricho
sus pómulos fragantes
sus párpados
su miedo

sonríe
y usted nace
asume el mundo
mira
sin mirar
indefensa
desnuda
transparente

y a lo mejor
si la sonrisa viene
de muy
de muy adentro
usted puede llorar
sencillamente
sin desgarrarse
sin deseperarse
sin convocar la muerte
ni sentirse vacía

llorar
sólo llorar

entonces su sonrisa
si todavia existe
se vuelve un arco iris.

Hagamos un trato

Compañera,
usted sabe
que puede contar conmigo,
no hasta dos ni hasta diez
sino contar conmigo.

Si algunas veces
advierte
que la miro a los ojos,
y una veta de amor
reconoce en los míos,
no alerte sus fusiles
ni piense que deliro;
a pesar de la veta,
o tal vez porque existe,
usted puede contar
conmigo.

Si otras veces
me encuentra
huraño sin motivo,
no piense que es flojera
igual puede contar conmigo.

Pero hagamos un trato:
yo quisiera contar con usted,
es tan lindo
saber que usted existe,
uno se siente vivo;
y cuando digo esto
quiero decir contar
aunque sea hasta dos,
aunque sea hasta cinco.

No ya para que acuda
presurosa en mi auxilio,
sino para saber
a ciencia cierta
que usted sabe que puede
contar conmigo.