Manifestações contra os 50 anos do golpe mobiliza milhares em São Paulo

Protesto em frente ao DOI-CODI, antigo centro de repressão

É necessário exigir a revisão da Lei de Anistia

Dia 1º de abril, 15 horas, Avenida Paulista completamente parada. Milhares de manifestantes marchavam em direção ao escritório da Secretaria da Presidência da República para protestar contra o golpe militar e exigir o fim dos inquéritos policiais e da criminalização dos movimentos sociais. Cartazes com desaparecidos da ditadura militar se misturavam com cartazes de mortos pela violência policial  nos dias atuais, como Amarildo Silva  e Claudia  Silva Ferreira.

Pausa na frente da FIESP, poderosa organização dos empresários paulistas, para denunciar o papel nefasto que estes  tiveram  durante e após o golpe, com o financiamento da repressão e perseguição dos trabalhadores que se opunham ao regime. Depois de muitas vaias para a elite empresarial paulista, a marcha segue passando pelo prédio do Ministério Público, onde foi entregue uma carta das entidades denunciando os inquéritos contra ativistas dos movimentos sociais e exigindo a revogação da legislação que tenta impedir os protestos editada pela presidente Dilma. Mais de três mil pessoas chegaram ao final da Paulista e encerraram o ato exigindo a punição dos torturadores. Vários movimentos da periferia de São Paulo, coletivos contra a violência e pelos Direitos Humanos , o MTST  e o MST  organizaram e participaram da manifestação.

DOI -CODI
No dia anterior, cerca de 1000 pessoas participaram de ato na sede do antigo DOI CODI , para relembrar os mortos e desaparecidos da ditadura . Centenas de cartazes com as fotos de presos e desaparecidos foram levantadas e, aos gritos, a platéia dizia “presente”. Faixas e bandeiras da CSP-Conlutas exigiam a punição dos torturadores e às empresas que colaboraram com o regime. Várias atividades culturais deram continuidade ao protesto contra os 50 anos do golpe, que teve a convocação de mais de 200 entidades, entre elas a Comissão da Verdade de São Paulo, centrais sindicais, Comissão de Presos e Perseguidos Políticos da ex-CS, ANEL, CSP-Conlutas, PSTU, e outras entidades.

Atos no teatro TUCA da PUC , no Largo São Francisco, entre outras dezenas de atos, marcaram a data, e uma boa parte deles levantava a necessidade de denunciar também as medidas do Governo Dilma e dos governos estaduais de criminalizar os movimentos sociais e cercear o direito à livre manifestação duramente conquistado.

Na noite do 1º de abril, o Bloco “Cordão da Mentira” saiu da sede do antigo DEOPS, órgão de repressão do regime militar, com centenas de pessoas  que, com humor, irreverência e muita animação, protestaram contra o golpe e a violência que atinge os jovens , mulheres e negros na periferia

Pela revisão da lei de Anistia ! E a bola fora da Dilma
As manifestações que ocorreram e continuam ocorrendo nos 50 anos do golpe são uma demonstração do enorme sentimento democrático que existe entre a população, principalmente após as jornadas de junho . Pesquisa realizada pelo jornal Folha de S. Paulo confirma que  a maioria quer a punição dos torturadores e a revisão da lei da Anistia. Várias manifestações tiveram o  mesmo sentido nestes dias e a comissão internacional  dos Direitos Humanos vai lançar uma campanha pela revisão desta lei .

Na contramão deste sentimento, no entanto, Dilma declarou que é contra a revisão e que esta lei foi feita em nome da conciliação . Nada mais falso . Esta lei foi aprovada por apenas 5 votos em um Congresso com várias dezenas de parlamentares biônicos (que não foram eleitos e sim nomeados pelos militares ) numa sessão cercada pela repressão. Os  setores de oposição não admitiam que os militares pudessem se auto-anistiar. A anistia ampla geral e irrestrita reivindicada não incluía os torturadores e seus mandantes.

Na maioria dos países da América Latina onde houve ditaduras militares, aqueles que torturaram e mataram foram julgados e condenados. Aqui, apesar de quase 12 anos de governo do PT, nada foi feito com aqueles que praticaram tais crimes mais do que provados nos diversos depoimentos nas Comissões da Verdade.

É preciso revisar a lei de Anistia. Dilma se declara contra porque, apesar de ser também vítima da ditadura militar, mantém alianças com os mesmos empresários que financiaram a ditadura, os grandes bancos e as multinacionais. Mantém a ABIN (Agência Brasileira de Inteligência) que espiona os movimentos dos trabalhadores como na greve dos portos em Suape, nos moldes semelhantes aos utilizados pelo extinto SNI. Aprova medidas que cerceiam as liberdades para impedir manifestações justas e legítimas durante a Copa e criminaliza, junto com os governos estaduais, milhares de ativistas que estão respondendo inquéritos. É preciso um amplo movimento dos trabalhadores, da juventude e de todos os setores populares para exigir a revisão da lei de Anistia . Somente a mobilização é capaz de reverter esta situação de impunidade.

VEJA o especial dos 50 anos do golpe militar