Machado de Assis: entre os morros do Rio e a elite

Este ano, comemora-se o centenário da morte daquele que é considerado (tanto aqui quanto mundo afora) um dos maiores escritores de todos os tempos: Joaquim Maria Machado de Assis. Nascido no Morro do Livramento (RJ), em 1839, o escritor morreu em sua casa, no bairro carioca do Cosme Velho, em 29 de setembro de 1908, deixando como herança uma obra composta por clássicos como “Memórias Póstumas de Brás Cubas” (1881), centenas de poemas e uma fantástica coleção de contos e crônicas, além do título de fundador da Associação Brasileira de Letras (ABL).

Seu pai, um pintor de paredes, era neto de escravos e filho de alforriados e sua mãe biológica, que morreu quando ele ainda era muito novo, era uma portuguesa das ilhas dos Açores, população marcada pela discriminação e perseguição religiosa. Machado, contudo, foi criado quase que exclusivamente por sua madrasta, uma lavadeira e doceira, também negra.

Durante a infância e juventude, Machado fez um pouco de tudo. Foi balconista, aprendiz de tipógrafo e vendedor. Sem nunca ter freqüentado uma escola regular, foi autodidata e aprendeu francês ainda na juventude com a dona de uma padaria que vendia os doces de sua mãe.

Foi trabalhando como caixa numa livraria que Machado entrou em contato com o mundo literário de sua época. Aos 21 anos, começou a escrever para uma série de jornais e revistas, nos quais foi publicada boa parte de seus contos e romances iniciais – lançados no formato de “folhetins” (capítulos diários). Paralelo a esta atividade, o escritor exerceu uma série de cargos burocráticos em órgãos públicos do Império.

Negro, pobre, criado como agregado, gago, epilético e extremamente tímido, Machado de Assis atingiu o status de gênio da literatura mundial. Um título inquestionável. Como também é inquestionável que o escritor e sua obra são reflexos distorcidos e complexos de um Brasil que foi, e ainda é, marcado por polarizações.

Um país de escravos, num mundo capitalista; um Brasil de maioria negra que sonha em embranquecer-se; uma sociedade provinciana e colonizada que, nos projetos da elite, tem que se transformar em “metrópole”, custe o que custar. Dois Brasis, que não só moldaram (ou distorceram) a personalidade e postura social e política de um autor que (talvez exatamente por não conseguir se localizar adeqüadamente em nenhum deles) decidiu registrá-lo com “a pena da galhofa (deboche) e a tinta da melancolia”, como declara o narrador-personagem de “Memórias Póstumas”.

Um realismo desencantado
A primeira fase da produção machadiana, marcada por livros como “A mão e a luva” (1874) e “Helena” (1876) e “Iaiá Garcia” (1878), insere-se no período Romântico da literatura brasileira, ao qual também pertenceram autores como Castro Alves e Álvares de Azevedo.

Fruto direto da Revolução Francesa, o Romantismo, na Europa, teve como uma de suas expressões a exaltação dos valores burgueses: o nacionalismo, a valorização da individualidade, os amores trágicos e o constante desejo de fuga da realidade (escapismo).

No Brasil, em meio às contradições de um Império decadente e a busca, por parte da elite, da constituição de uma “identidade nacional”, o Romantismo agregou a tudo isso o “indianismo” e a construção de mitos nacionais (particularmente personagens indígenas, tratados como “bons selvagens”, completamente idealizados e distantes da realidade) e as muitas contradições de uma sociedade escravocrata vivendo num mundo que caminhava a passos largos em direção ao capitalismo moderno.

Essas contradições apareceram de forma particularmente acentuadas na obra de Machado, fazendo com sua relação com o estilo romântico fosse bastante complexa. Por um lado, o fato de seus textos saírem publicados em “folhetins” sempre deu um caráter mais realista às suas histórias; por outro, mesmo nos romances desta primeira fase as marcas registradas do escritor (o ceticismo, a ironia e a melancolia) entravam em choque com o escapismo delirante da maioria dos autores românticos.

Essas características afloraram particularmente a partir do fantástico “Memórias Póstumas de Brás Cubas” (transformado em um bom filme, por André Klotzel, em 2001). Escrito em meio à profunda e generalizada crise da sociedade imperial, Brás Cubas tem uma das mais inspiradas e absurdas dedicatórias da história da literatura mundial. Escrito pelo narrador-personagem, o já falecido Brás Cubas, o livro, cheio de bizarrices que parodiam e desconstroem os costumes da época, abre com a seguinte frase: “Ao verme que primeiro roeu as frias carnes do meu cadáver, dedico como saudosa lembrança estas memórias póstumas”.

Também desta fase é “Dom Casmurro” (1899), que traz uma das personagens femininas mais enigmáticas da literatura: Capitu, que com seus “olhos de ressaca” embriaga e transtorna seu marido Bentinho, obcecado pela suposta “traição” da esposa.

O “realismo” de Machado nasceu de seu profundo senso de observação, treinado nos morros pobres (mas ainda não “favelados”) cariocas, atrás dos balcões de venda, nas oficinas, nos bondes, ruas, redações da imprensa e repartições públicas.

Filtrado pelo ceticismo e pelas contradições pessoais (e, também, políticas e sociais) do escritor, esta realidade surge quase cercada pela ambigüidade, por devaneios de ordem psicológica, por lacunas que transferem ao leitor a construção dos sentidos e significados das histórias, por contraditórios pontos-de-vista que ao mesmo tempo em que refletem o olhar da elite europeizada, deixam entrever o olhar e o pensamento das camadas massacradas da sociedade: dos negros alforriados e desempregados, das escravas violentadas, das mulheres presas à lógica opressiva da sociedade patriarcal.

Presente em toda sua obra, estas características aparecem particularmente em seus contos. Assim, numa sociedade aristocrática, em que trabalho e “coisa de escravo”, o conto “Teoria do medalhão” apresenta um pai ensina ao filho que único caminho para o sucesso é a prática da descarada picaretagem.

Já em “A cartomante”, os conselhos de charlatã acabam detonando a tragédia em um triângulo amoroso e no excepcional “O caso da vara” as muitas falcatruas e hipocrisias que rondam a sociedade são desmascaradas e ironizadas numa história que envolve um jovem fugitivo do seminário, uma “sinhᔠcheia de maldade e uma escrava duplamente sucessivamente surrada e iludida.

Dentre as quase duas centenas de contos, também merecem destaque “Pai contra mãe”, que recentemente passou por uma interessantíssima releitura no filme “Quanto vale ou é por quilo”, de Sérgio Bianchi e retrata de forma cruel a escravidão e a opressão.

Negro de “alma branca”? Alienado?
A criação da Associação Brasileira de Letras, em 1897, é exemplar da complexa e contraditória figura do escritor. Pensada como um “oásis de civilização” em meio a uma sociedade que Machado acreditava estar destinada a uma inevitável barbárie, a ABL e a forma como Machado a presidiu dizem muito sobre um sujeito que nunca se sentiu “confortável” no mundo que vivia, particularmente do ponto de vista social e racial.

Em termos sociais, as obras de Machado (incluindo a ABL) revelam um sujeito preocupado em “educar” e “civilizar” a elite dominante, sem mudar a estrutura da sociedade (com exceção da abolição), para por fim aos disparates resultantes da existência de dois Brasis que viviam em constante choque: aquele em que Machado gostaria de viver, cercado de progresso e modernidade, e o que de fato existia, atrasado, corrompido pelas práticas violentas e desigualdades gigantescas. Esse choque, por exemplo, é o que marca as desventuras de Rubião, o personagem do excelente “Quincas Borba” (1891), cujo final da saga é marcado pela máxima “Ao vencedor, as batatas!”.

Mergulhado num mundo onde dominavam as idéias da sociologia Positivista (que, dentre outras coisas, pregava as elites dominantes deveriam servir como padrão para a “evolução social”), do ponto de vista racial, o mínimo que se pode dizer é que Machado, por mais simpático que tenha sido à abolição. no mínimo nunca conviveu bem com sua negritude. Algo estimulado desde sempre pelos o que o cercaram e, hoje, pelos meios de comunicação (e livros didáticos) que se esforçam ao máximo para embranquecer nosso “autor maior”.

No passado, para ser ter uma idéia, basta lembrar que para sua própria mulher, Carolina, a “mulatice” de Machado era “um simples acidente” e Olavo Bilac cunhou uma bobagem que entrou para a história: “Machado de Assis não é negro, é um grego”.

Sem nunca ter sequer tentado questionar estas histórias, Machado ainda carrega em seu currículo o nada louvável feito de ter participado (senão orquestrado) a campanha que bloqueou a entrada de Cruz e Sousa, um poeta negro extremamente consciente disto, na ABL. Postura que também o distanciou dos abolicionistas “radicais”, como Luis Gama.

Contudo, seria um equívoco afirmar que Machado foi um completo alienado ou um reacionário. Isso não significa, evidentemente, poupá-lo de críticas, mas também, principalmente do ponto de vista literário, é necessário compreendê-lo dentro de seu contexto. Mais do que um “alienado”, Machado se aproxima muito de um de seus mais famosos e interessantes personagens, o médico de “O alienista” (1882). Na obra, Machado, ao mesmo tempo e com igual ironia, revela a “loucura” do mundo das soluções propostas para “salvá-lo”. Postura típica de um cético. Um cético, contudo, genial.