Lula é protegido por Dirceu, mas é atingido por Roberto Jefferson

No dia 2 de agosto, dois depoimentos trouxeram novos dados à novela da corrupção no governo Lula. O primeiro deles foi o do ex-secretário nacional de Segurança, Luiz Eduardo Soares, na CPI dos Bingos. Em seu depoimento, Luiz Eduardo disse que a direção do PT sabia de tudo sobre as maracutaias do ex-assessor da Casa Civil, Waldomiro Diniz. Luiz Eduardo declarou que avisou à direção petista que Waldomiro recebia propinas de R$ 300 mil por mês.

O segundo depoimento, que teve mais atenção da mídia, foi o do deputado e ex-ministro José Dirceu (PT-SP) no Conselho de Ética da Câmara. O principal embate do depoimento foi a nova revelação do petebista Roberto Jefferson, de que Dirceu promoveu uma aproximação entre a multinacional Portugal Telecom com o PT e o PTB, para auxiliar financeiramente os dois partidos.

A acusação também envolve o presidente Lula, já que Jefferson disse que a reunião de aproximação foi com o próprio presidente. “No final do ano passado, Dirceu promoveu uma aproximação entre a Portugal Telecom e o presidente Lula. Depois disso, autorizou que tanto o PT como o PTB enviassem emissários a Portugal. O objetivo era negociar com o grupo um acordo que pusesse em dia as contas dos dois partidos”, conta Roberto Jefferson.

Como era de se esperar, Dirceu negou qualquer negociação com a Portugal Telecom, assim como também negou que saiba qualquer coisa sobre mensalões ou empréstimos ao PT. “É mais uma denúncia que ele traz, de tempos em tempos, e procura me envolver. É mais uma mentira”, disse Dirceu.

Porém, não é o que as investigações estão mostrando. António Mexia, ex-ministro das Obras Públicas, Transportes e Comunicações de Portugal, afirmou, em entrevista ao jornal Expresso, que recebeu “o senhor Marcos Valério, na qualidade de consultor do Presidente do Brasil e a pedido de Miguel Horta e Costa”, presidente da empresa Portugal Telecom. Os negócios além-mar não param por aí. Segundo o jornalista Ricardo Noblat, no primeiro trimestre, o presidente do Banco do Espírito Santo, Ricardo Salgado Coutinho, veio de Lisboa em um jato apenas para jantar com o então tesoureiro do PT, Delúbio Soares. Terminado o jantar, Salgado decolou de volta a Lisboa.

Furnas
O deputado Roberto Jefferson (PTB-RJ), ao mesmo tempo em que repetiu que Lula é um “homem de bem, honrado” fez uma revelação que envolve o presidente ainda mais no mar de lama. Jefferson afirmou que o ‘esquema’ de Furnas, (responsável pelo desvio de verbas para o PT e o PTB) foi acertado no gabinete presidencial. Além de Jefferson, estariam presentes o deputado José Dirceu e o ministro Walfrido Mares Guia. Lula estaria ‘ouvindo’.

Ironias, arrogância e cara-de-pau
José Dirceu também negou ter participado da distribuição de cargos do governo com partidos da base aliada. “A Casa Civil não indica, não nomeia, que nomeia é o presidente, os ministros ou presidentes de autarquias. A Casa Civil faz um controle e, como eu acumulava a articulação política, fazia a composição com outros partidos. Mas isso não me dava mais poder. As decisões eram do presidente, dos ministros ou dos presidentes de autarquias”. Quase sem querer, no entanto, a afirmação de Dirceu, na tentativa de se livrar das acusações, joga a batata no colo de Lula, que vem sendo poupado pelos depoentes.

Roberto Jefferson também fez questão de reafirmar as denúncias sobre a existência de um grande esquema de pagamento de mensalões a deputados, chefiado por José Dirceu. Ao ouvir as negativas de Dirceu, Jefferson ironizou. “Quer dizer que ele não sabia nada disso? A Abin não contou para ele, ele não lia os relatórios? A Polícia Federal não contou para ele, milhões de reais viajando em malas e a Polícia Federal não contava para o homem mais importante do governo?”, questionou Jefferson.

Dirceu, por sua vez, arrancou gargalhadas sinceras de toda a platéia durante seu depoimento, ao responder às ironias do petebista, afirmando “Eu nunca fui arrogante!”.

Mas as cenas cômicas não pararam por aí. Dirceu teve a audácia de, diante de toda a lama escancarada na qual se afunda o governo, afirmar que “esse é um governo que não rouba, não deixa roubar e combate a corrupção”. Para o ex-ministro, não há limites para a cara-de-pau.