Líbia: um duro debate divide a esquerda

Como acontece com frequência, a revolução árabe em curso está dividindo águas na esquerda em todo o mundo. A experiência em curso vai se incorporar ao aprendizado que sempre proporciona uma revolução.

Por outro lado, os ativistas têm a possibilidade de testar a resposta que cada uma das organizações de esquerda dá a essas revoluções e tirar suas próprias conclusões. O duro debate atual aponta para novas divisões e reorganizações em todo o mundo.
Trata-se de um processo revolucionário de conjunto, que tem na sua origem o sofrimento de seus trabalhadores por uma exploração selvagem. A crise econômica em curso amplia o desemprego, e produz aumentos nos preços de gêneros de primeira necessidade, gerando explosões nos elos mais frágeis do capital. O outro fator decisivo é o levante dessas massas enfurecidas contra ditaduras brutais que dominam esses países há décadas.

Não há dúvidas que se trata de uma revolução no sentido mais pleno da palavra. Um momento particular da história em que as massas resolvem tomar em suas mãos os destinos de seus países. Pessoas que se dedicavam a tentar sobreviver , muitas vezes sem qualquer participação política, se transformam em grandes agitadores e organizadores, em lideranças populares. Algumas vezes, em milicianos de armas nas mãos, dispostas a arriscar suas vidas para mudar o mundo.

Existe ou não uma revolução árabe?
A revolução árabe espantou e colocou na defensiva em um primeiro momento os governos imperialistas. Seus aliados ditadores estavam em xeque, e não havia nenhum plano alternativo. Foi assim com o ditador Ben Ali na Tunísia, e mais ainda com Moubarak no Egito derrubados em janeiro e fevereiro últimos. Obama teve de se adequar, apostando nos militares que assumiram o governo no Egito depois da quedade Moubarak.
Foi a selvageria da repressão das tropas de Khadafi que causou a guerra civil na Líbia. Em Benghazi, dezenas de milhares de pessoas enfrentaram as tropas, mesmo não tendo armas. Morriam centenas e outros milhares voltavam para a luta. Até que as tropas se dividiram, oficiais desertaram, a população teve acesso ao arsenal local e se armou. Começava a guerra civil.

Quando a revolução árabe tocou os territórios líbio e sírio, foi a vez dos governos “de esquerda” da Venezuela, Cuba e Nicarágua ficarem na defensiva. A corrente castro-chavista- a mais legítima expressão do reformismo stalinista nos dias de hoje- passou a tentar separar a reação das massas nesses países do restante da revolução árabe.

A heróica ação das massas na revolução árabe é reconhecida como tal por esses stalinistas até as fronteiras líbias e sírias. Nesses países se transformava misteriosamente em uma conspiração imperialista ou monárquica para “retomar o petróleo”. É extremamente educativo que os ativistas de todo o mundo estudem os textos desses stalinistas. Nenhum deles consegue escapar desses exercícios de acrobacia.

Aqui se revive uma característica típica do stalinismo: a utilização ampla e consciente de mentiras e calúnias. Em um passe de mágica, escondem a revolução e mostram uma conspiração da CIA.

Alguns deles chegam a negar a existência de genocídio por Khadafi, dizendo que é tudo “invenção da mídia”. O próprio Khadafi, no entanto, para tentar novamente o apoio dos governos imperialistas, comparou suas tropas com a ação de Israel com os palestinos: “Mesmo os israelitas de Gaza tiveram de recorrer aos blindados para combater tais extremistas. Conosco é mesma coisa” (France 24, 7 março 2011)
A imagem de um Khadafi como um lutador antiimperialista é mais uma farsa consciente do stalinismo. Usam o passado nacionalista do ditador líbio para justificar o presente. Na década de 90, Khadafi entregou o petróleo de novo para as multinacionais. A Exxon Mobil (EUA) , British Petroleum, ENI (Itália), Total (França), Royal Dutch Shell controlam a produção e exportação de petróleo. Mesmo um defensor de Khadafi como James Petras, é obrigado a dizer que: “As maiores companhias de petróleo estão mais presentes na Líbia do que na maioria das regiões produtoras de petróleo de todo o mundo.”

Infelizmente para os castro-chavistas, o heroísmo dos egípcios na Praça Tahrir é o mesmo nas ruas de Benghazi na Líbia ou de Deraa na Síria. Os motivos que movem os jovens desempregados e sem perspectivas nesses países são os mesmos.

O imperialismo retoma a ofensiva
A intervenção militar do imperialismo trouxe mais confusão pra a discussão.
A invasão imperialista é uma grande ameaça para a revolução árabe. Além de seu poderio militar, ainda vem disfarçada de “apoio” contra Khadafi, o que gera esperanças , em particular nas cidades ameaçadas pelas forças do ditador.

Os governos dos EUA, França, Inglaterra que estão a frente da invasão querem estabelecer um controle direto sobre a região. Khadafi já não oferece nenhuma garantia. Mesmo que ganhasse a guerra, não conseguiria reestabilizar o país, por ter uma base social muito diminuída. A imensa maioria do povo líbio apóia a rebelião militar e isso levaria provavelmente a uma guerrilha de massas.

Os stalinistas passaram a justificar o apoio a Khadafi como a única forma de combater a agressão imperialista.

Na verdade, aconteceu o oposto: o ditador líbio possibilitou que o imperialismo deixasse a situação defensiva em que estava na revolução árabe para assumir uma contra-ofensiva política e militar. De aliados das ditaduras em xeque passaram a ser os “defensores dos direitos humanos” ameaçados por Khadafi.

As contradições no campo da revolução na Líbia entre o movimento revolucionário e suas direções são semelhantes às do restante do mundo árabe. No Egito, muitos dos dirigentes mais reconhecidos como El Baradei, são figuras claramente pró imperialistas. A Junta Militar atual é composta por oficiais formados e pagos pelo governo dos EUA. Nem por isso, se viu Castro e Chavez repudiar as mobilizações de centenas de milhares de pessoas que derrubaram Moubarak.

Não se pode confundir uma revolução com seus dirigentes. Certo? Sim, mas para o castro-chavismo isso só é certo para o Egito, mas não para a Líbia. Ali as posições pró imperialistas agrupadas no Conselho Nacional Líbio são suficientes para eles desqualificarem a própria revolução.

Para nós, é fundamental estar no campo da revolução contra Khadafi, lutando contra sua direção pró-imperialista.

Frente a essa invasão, seria necessária uma ampla unidade de ação contra o imperialismo. O que impede essa unidade é o próprio Khadafi que gerou o levante contra ele, e segue a guerra civil contra o povo líbio. Por isso, seguem existindo duas guerras.

A favor dos bombardeios?
Como se não bastasse todas as lições da história, o passado recente das intervenções militares imperialistas “humanitárias” deveria servir para lembrar que estamos perante o braço armado da contra-revolução.

A invasão do Afeganistão também foi justificada como uma necessidade “humanitária”, pelos desastres do Taleban. A do Iraque para acabar com armas de destruição massiva de Saddam Hussein. Tanto uma como a outra foram para controlar política e militarmente a região, e se utilizam dos mesmos métodos bárbaros que antes denunciavam. A invasão do Kosovo, também “humanitária”, terminou com a imposição da maior base militar dos EUA na Europa, Camp Bondsteel.

Infelizmente, não é isso o que uma parte da “esquerda” pensa.
Ignacio Ramonet, editor do jornal Le Monde Diplomatique e um dos animadores do Forum Social Mundial, declarou : “Nesse momento, a ONU constitui a única fonte de legalidade internacional. POr isso, e contraditoriamente as guerras do Kosovo e Iraque, a intervenção atual na líbia é legal, segundo o direito internacional; legítima, segundo os princípios de solidariedade humanitária; e desejável , para a fraternidade que une povos na luta pela liberdade” (LMD, abril 2011, pg32)
Gilberto Achcar, um intelectual de prestigio, ligado ao SU, em um recente artigo saiu em defesa da ação do imperialismo: “Nessas condições e na falta de qualquer outra solução plausível, era moral e politicamente um erro, por parte da esquerda, se opor à zona de exclusão aérea”. (Um debate legítimo e necessário desde uma perspectiva antiimperialista)
Deveria ser óbvio, mas nesses tempos de retrocesso ideológico não é. Se guerra é a extensão da política por outros meios, ou o imperialismo se transformou em um sistema humanitário, ou o apoio a essa invasão é uma aberração. A ação militar do imperialismo é uma extensão de sua política de controle econômico e político da região. Esse setor da “esquerda” está legitimando a tentativa do imperialismo de sair da defensiva na revolução árabe e reconstruir seu domínio. Estão simplesmente apoiando a outra face da contra-revolução.

Qualquer idéia de “unidade de ação” com as forças da OTAN contra Khadafi vai se virar violentamente contra a continuidade da revolução. Uma possível vitória do imperialismo vai levar a criação de uma zona sob controle da ONU na região, com uma base militar do imperialismo, a semelhança de Kosovo. Ou a divisão da Líbia, com a imposição militar de um enclave militar imperialista no meio.
Se a corrente castro-chavista apóia Khadafi e Assad, toda essa parte da “esquerda” defende a intervenção imperialista. Interessante como se dividem esses dois setores que estiveram unidos nos Fóruns Sociais Mundiais ao redor de dois blocos burgueses (Khadafi e Assad de um lado e o imperialismo de outro).

Nenhum deles se orienta por um critério básico, de classe. É preciso estar junto do processo da revolução, junto com as massas árabes ( o que inclui o povo líbio e sírio, rebelados contra as ditaduras nesses países) , lutando contra suas direções burguesas e pró-imperialistas. É preciso lutar contra a intervenção militar do imperialismo, que também quer derrotar a revolução. Por isso falamos de uma revolução e duas guerras na Líbia : uma guerra civil contra Khadafi e outra contra a invasão do imperialismo.

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