Leia entrevista com Beto Pianelli, sobre a heróica greve dos metroviários argentinos

Metroviários de Buenos Aires comemoram a força da greve
Indymedia Argentina

Dirigente fala sobre a greve, onde delegados de base atropelaram acordo da burocracia com o governo Kirchner“Nossa luta foi uma paulada na privatização e flexibilização“

Os trabalhadores do Metrô de Buenos Aires realizaram, no começo de fevereiro, uma greve heróica de uma semana. Arrancaram um aumento médio de 44% e o pagamento de todos os dias parados, derrubando o teto de 20%, acordado pelo governo com as empresas e a Central Geral dos Trabalhadores.

Além de Kirchner, os metroviários enfrentaram outro inimigo: suas direções. Os burocratas, assim como deseja Lula e a CUT com a reforma Sindical, negociaram secretamente o fim da greve. À última hora da quarta-feira, 9 de fevereiro, Juan Manuel Palacios, da UTA (Unión Tranviaria Automotor), informava à imprensa o acordo alcançado com a empresa Metrovías e o fim da greve. Entretanto, no dia seguinte, Buenos Aires amanheceu sem metrô. Os delegados, que souberam da negociação pela TV, anunciaram que não suspenderiam o movimento até que os trabalhadores decidissem em assembléia.

Os delegados do metrô apareceram como o oposto aos velhos burocratas. Negociaram nos túneis do metrô, cotovelo a cotovelo com seus companheiros, consultando a todos. Encabeçaram uma luta dura, contundente, souberam rodear-se de solidariedade e responder, com argumentos sólidos, os ataques patronais. Por tudo isso, se transformaram em um exemplo a seguir e em uma alternativa à burocracia, no caminho de começar a construir uma nova direção sindical e política para a classe trabalhadora argentina.

A seguir reproduzimos a entrevista de Beto Pianelli, um dos delegados dos trabalhadores do metrô, ao jornal Lucha Socialista, da Frente Operária e Socialista, partido da Liga Internacional dos Trabalhadores na Argentina. Antes da entrevista, Pianelli estava concentrado no computador, conferindo a extensa lista de mensagens de solidariedade à greve: “Estou vendo o apoio de dirigentes e organizações de outros países. Aqui tem algumas saudações em inglês. Outras em portunhol. Tem de tudo. Estão vindo alguns companheiros para me ajudar a organizá-las.“ Beto fala sobre a luta pela redução da jornada, pela unificação dos diversos setores na luta e do ânimo dos trabalhadores metroviários após a greve.

Lucha Socialista: Você acha que se conseguirá alguma forma de coordenação com todas estas organizações e dirigentes?
Beto Pianelli:
Uma coordenação internacional é meio complicado. Nós temos dia 12 de março um encontro pela jornada de 6 horas. Esse encontro, com a adesão de alguns sindicatos, pode mudar qualitativamente o conteúdo da campanha. Até agora era uma campanha puramente de vanguarda.

Em segundo lugar, acho importante o encontro que se vai fazer dia 2 de abril, de correntes e direções combativas. Na atual situação do Corpo de Delegados do metrô, creio que isso pode servir para que desse encontro saia uma corrente mais permanente.

LS: Que objetivos precisos você considera que devem ter as convocatórias do 12 de março e do 2 de abril?
Beto:
A do 12 de março deve ter o objetivo de ver se o movimento operário argentino e em particular as comissões internas, corpo de delegados e sindicatos recuperados iniciam uma campanha séria e responsável, como se está fazendo em todo o mundo, com relação ao problema dos problemas, que é a falta de trabalho.
Os companheiros que estiveram no Fórum de Porto Alegre viram como em todo o mundo existe a campanha pela redução da jornada de trabalho, inclusive a luta que estão protagonizando os trabalhadores franceses neste momento, porque lhes querem tirar a conquista da semana de 35 horas.

Esta é uma das lutas decisivas do trabalho frente ao capital, que se expressa através da reivindicação da redução da jornada de trabalho. Neste país, com quatro milhões e meio de desempregados, isso tem um grande peso e lamentavelmente a grande maioria das organizações não enxergam a potencialidade desta luta para unir a todos os que estão dentro da classe.

Então, se pudéssemos sair com uma grande campanha, introduzir a questão no conjunto do movimento operário, começar a dar uma batalha sobre a jornada de trabalho, as condições de trabalho e os ritmos, acredito que seria algo qualitativo.
E o 2 de abril tem muito mais a ver com os aspectos de organização, ou seja, verificar se há condições para forjar uma corrente antiburocrática, antipatronal, anticapitalista, no movimento operário, que sirva como alavanca para levar adiante uma política.

Muitas vezes se encontra companheiros de diferentes organizações que dizem coisas parecidas, quase iguais – não digo iguais, porque seria subestimar as divisões que existem – e que não podem atuar de conjunto. Esta é uma debilidade que arrastamos desde o período em que a ofensiva patronal nos encurralou.

LS: Nós vemos cada vez mais perto o perigo de que a participação, de forma separada, das distintas correntes operárias e de esquerda nas eleições, leve a dividir os lutadores. O que você pensa da possibilidade de impulsionar uma frente em que se unifiquem todos os lutadores para dar, também, a batalha nas eleições?
Beto:
Creio que seria ideal poder confluir todos numa mesma frente no terreno político para dar a batalha unificada que se dá no movimento operário também nas eleições. Mas vejo isto muito distante. Não vejo maturidade no movimento operário para fazê-lo. Prevalecem as mesquinharias que impedem a apresentação de uma frente única diante dos partidos da burguesia. Acredito que temos que ir a esta unidade, mas ainda não há maturidade suficiente.

LS: Como estão agora os trabalhadores do metrô?
Beto:
Estão um pouco convencidos. Já eram convencidos, imagine o que vai ser agora! Brincadeira à parte, estão muito contentes e se concentram cada vez mais na idéia de gerar uma organização alternativa à burocracia. De articular-se com outros sindicatos. Isto é algo que está cada vez mais sólido. Sente-se cada vez mais. Se estende a solidariedade para outros setores. Cada experiência destas é um salto enorme na consciência. Debatem-se temas que em outras oportunidades não se falava. Por exemplo, toda a discussão que armou nosso conflito com respeito ao teto salarial e o pacto social que promovem a UIA, a CGT e o governo. O pessoal avança na experiência com o governo, com a burocracia. Não me refiro à burocracia de Palacios, com a qual a experiência já foi feita, mas sim com a burocracia de conjunto. O conflito ajuda a politizar e todos saem muito fortalecidos.
Além disso, os companheiros se sentem cada vez mais identificados com os trabalhadores e setores que lutam, com os setores progressivos.

LS: Há algum ponto débil na luta que você gostaria de superar ou fortalecer?
Beto:
Muitos. Na verdade, o conflito foi um crescente. No princípio, nas assembléias, a discussão se centrou em questões puramente táticas. Com companheiros que só estavam preocupados em acelerar o conflito. Mas se foi vendo a necessidade de ter uma política, de responder a todos os aspectos da luta.

E a verdade é que este conflito expõe e questiona toda a ideologia dos anos noventa, a privatização e as condições de trabalho, a flexibilização trabalhista. Nós demos uma grande batalha antes, que foi a de 6 horas, que inverteu a lógica, deu uma punhalada no coração da flexibilização. Mas este conflito bateu no peito da ideologia dos anos 90. No sentido de que colocou qual é o papel dos trabalhadores na sociedade. Se é ser escravo ou viver dignamente. Se está no mundo para servir ao capital ou para desfrutar a vida.

O discurso dos 90 nos dizia que temos que trabalhar o dia todo e quem não trabalhar o dia todo é um vagabundo. O trabalhador que ganha muito dinheiro e trabalha pouco é um vagabundo. A mensagem deste conflito é: “Eu trabalho pra viver.“ Um companheiro disse algo bastante interessante. Ele disse que se uma pessoa quer ganhar a maior quantidade de dinheiro possível, no menor tempo possível com o menor risco possível, se é um empresário, é bem sucedido, se é trabalhador, é vagabundo.
Este é o conteúdo da luta dos trabalhadores do metrô. Somos trabalhadores que temos uma jornada de trabalho de seis horas e queremos ganhar bem e queremos isso para todos os trabalhadores. E nos colocamos contra o aumento de tarifas, contra os subsidios à patronal, contra o problema da segurança. E nosso discurso foi: não é que nos negam o aumento salarial, negam a todos os trabalhadores.

Tradução: Eduardo Henrique