Estátua de Stalin é derrubada durante a revolução húngara de 1956

Todo ativista de esquerda já deve ter se deparado com a polêmica entre Stálin e Trotsky. Mas vem se popularizando uma visão equivocada sobre isso. Há uma relativização do que é o stalinismo, com caricaturas do trotskismo e tentando igualar ambos. O principal divulgador disso hoje no Brasil é Jones Manoel do PCB, que diz que “não há nada mais parecido que um stalinista e um trotskista”, ou chama ambas as correntes de “panelinhas”, comparando-as à igreja e religião.

Vamos ao debate, pois, longe de ser uma questão de mera curiosidade histórica, se trata, na verdade, de ter nitidez sobre os caminhos da revolução socialista.

Socialismo em um só país ou Internacionalismo Revolucionário

O fundamento da argumentação de Jones é que Stálin não era contra a revolução mundial, ou seja, no fundo seria internacionalista. E nem Trotsky estaria contra desenvolver o socialismo na União Soviética. Então, tudo não passaria de uma “diferença de ênfase”. Isso não é verdade. Mas, para começar, o que significa internacionalismo?

Durante toda a sua vida, Lênin defendeu o internacionalismo proletário. Este se expressou tanto na luta contra os reformistas que defenderam seus países na Primeira Guerra Mundial, capitulando a suas burguesias nacionais. Mas também na construção da III internacional após a Revolução Russa, construindo um partido mundial para organizar os revolucionários. A concepção de Lênin fica ainda mais nítida quando vemos sua compreensão sobre como se desenvolve a revolução:

(…) a tarefa dum representante do proletariado revolucionário, é preparar a revolução proletária mundial como única salvação dos horrores da matança mundial. Não é do ponto de vista do «meu» país que devo raciocinar (porque esse é o raciocínio de um estúpido miserável, dum filisteu nacionalista, que não compreende que é um joguete nas mãos da burguesia imperialista), mas do ponto de vista da minha participação na preparação, na propaganda, na aproximação da revolução proletária mundial.

Eis o que é o internacionalismo, eis qual a tarefa do internacionalista, do operário revolucionário, do verdadeiro socialista.” (Lênin)

O anti-internacionalismo de Stálin, sua concepção nacionalista, já havia se expressado antes de estar no poder, por exemplo, no problema das nacionalidades e na questão georgiana. Nesta época, Lênin polemizou e criticou Stálin por não garantir de fato o direito à autodeterminação dos georgianos para organizar o socialismo em seu país. Como podemos ver, antes de Trotsky, o primeiro a criticar duramente isso foi Lênin: “A responsabilidade política de toda esta campanha de verdadeiro nacionalismo grão-russo deve fazer-se recair, naturalmente, sobre Stálin e Dzerjínski.”(Lênin)

O suposto internacionalismo do stalinismo

Jones Manoel erra também ao colocar um sinal de igual entre o internacionalismo proletário e uma diplomacia internacional da URSS ou de Cuba. Ajudas internacionais de acordo com seus interesses econômicos e geopolíticos nacionais não tem nada a ver com internacionalismo proletário e revolucionário. Inclusive, Cuba e URSS, quando intervieram em processos revolucionários no mundo, não foi no sentido de desenvolver as revoluções, mas sim de abortá-las.

Então, argumentos que colocam as políticas de Stálin nos marcos de uma suposta correlação de forças que impedia o desenvolvimento da revolução em outros países é falso. Haja vista que várias revoluções ocorreram e a política de Stálin não foi internacionalista no sentido posto por Lênin, de raciocinar não do ponto de vista do interesse da Rússia soviética, mas sim do desenvolvimento da revolução mundial. Então, enviar remédios, armas e dinheiro, ou apoiar setores políticos em alguns países não basta. Para ser internacionalistas, há que se perguntar a serviço do que fez isso.

O que significa defender a revolução mundial?

A argumentação de Jones Manoel tem um alvo: a teoria da revolução permanente feita por Trotsky. Por isso faz uma caricatura grosseira.

Revolução permanente nada tem a ver com “sair invadindo um monte de país com o exército revolucionário do país onde já se tomou o poder”. Na verdade, quem fez isso burocraticamente em alguns lugares atendendo ao seu interesse foi o próprio Stálin. Nem tem a ver com achar que tanto faz manter a o poder operário na Rússia ou não. Nada a ver com isso.

Na realidade, tem a ver com apoiar a revolução mundial, como colocou Lênin, pois o socialismo só pode ser mundial devido as exigências de uma realidade onde o capitalismo e as forças produtivas já são todas mundializadas. Significa entender que a revolução nacional está a serviço da revolução internacional. Que os trabalhadores tomarem o poder em um país não é um fim em si, mas serve na medida em que é um ponto de apoio para destruir o capitalismo em todo o mundo. Nesse sentido, a revolução é permanente como um caminho até alcançar o socialismo mundial. Outra coisa é que isso não quer dizer que seja imediatamente.

Revolução Permanente contra as teorias stalinistas

A revolução permanente foi formulada pela primeira vez por Marx. Com Trotsky, esta deu um salto ao ser atualizada e aprofundada em seus mais diversos aspectos ao ponto de se tornar uma teoria da revolução mundial na época imperialista.

Outro aspecto fundamental da revolução Permanente, além do internacionalismo, diz respeito à concepção, caráter e dinâmica de classe das revoluções. Onde, ao entender a dinâmica histórica contraditória, desigual e combinada, do domínio capitalista mundial, encadeia de maneira dialética as tarefas e caráter da revolução com os sujeitos sociais e políticos.

Primeiro, diz respeito à necessidade da transformação da revolução democrático-burguesa em revolução socialista. Mas depois se alarga para a compreensão de que seria o proletariado o sujeito social a encabeçar e fazer revoluções democrático burguesas e transformando-a, ao mesmo tempo, em socialista.

Por exemplo, na Rússia dominada pelo czarismo e, ainda com relações feudais no campo, coube à classe trabalhadora dirigida por um partido comunista, realizar as tarefas que originalmente na história sejam atribuídas às revoluções burguesas.

Ou seja, acabou aquela velha divisão entre os países maduros e imaturos para o socialismo. Como o mundo já é dominado pelo imperialismo, mesmo em países com o capitalismo não plenamente desenvolvido, a tarefa colocada é a revolução socialista encabeçada pela classe operária e não pela burguesia que tinha se transformado inteiramente em contrarrevolucionária.

As Teses de Abril de Lênin é, talvez, o programa político que melhor sintetizou isso. Em resumo, dizia para não capitular ou parar na primeira revolução de fevereiro que derrubou o czar e deu o poder à burguesia “liberal”. Coloca a necessidade de não depositar nenhuma confiança no governo provisório, nem na burguesia, nada de confiar em uma suposta etapa burguesa de desenvolvimento com a burguesia a cabeça. E lança a tarefa dos trabalhadores tomarem o poder em suas mãos e garantir, de uma vez por todas, as tarefas e reivindicações democráticas e econômicas que a burguesia era incapaz de garantir.

Naquela época, os mencheviques, os reformistas da Rússia, capitularam à burguesia, por acreditarem na revolução por etapas. Por entender que, como a Rússia ainda tinha que desenvolver o capitalismo, tinha tarefas democráticas a cumprir, caberia aos trabalhadores apoiar a burguesia na derrubada do Czar. Eis a teoria que o stalinismo retoma a partir principalmente da revolução chinesa de 1927, onde obrigou o Partido Comunista recém-criado a entrar em um partido exército burguês, a capitular ao governo burguês do Kuomitang, o que terminou com um banho de sangue da burguesia contra os comunistas.

Outro exemplo dos crimes do stalinismo ao não entender a dinâmica entre as reivindicações democráticas e socialistas, poderíamos citar toda a incapacidade de combinar a luta contra todas as formas de opressão.

Lênin, Trotsky e Kamenev

A revolução é sufocada pela burocracia

Além do internacionalismo e da dinâmica de classe, outro aspecto importante da revolução permanente é sobre a própria dinâmica interna da revolução depois da tomada do poder.  Ou seja, os trabalhadores tomarem o poder também não é um fim em si, não significa já a vitória total, mas coloca um novo começo onde estaria colocado avançar e aprofundar as transformações sociais, econômicas, culturais, em todos os terrenos da vida. Ou seja, há três níveis de aprofundamento e permanência da revolução e eles se complementam.  Neste aspecto, há um problema caro aos stalinistas, que é a burocratização e degeneração da União Soviética que impede esse desenvolvimento.

Na verdade, socialismo em um só país se combina com o etapismo e são a expressão teórica de um setor social específico. Foram usadas por Stálin como justificativa para atender os interesses da burocracia soviética.  Estamos falando de milhares de dirigentes, funcionários e pessoas que, por sua localização no partido, no soviete ou no Estado, gozavam de privilégios e benesses. Para defender seus interesses de casta social desataram uma verdadeira contrarrevolução.

Socialismo em um só país a serviço da burocracia e da burguesia

A teoria do “socialismo em um só país” também significa uma relação da própria burocracia com setores da burguesia. São, inclusive, expressão de uma teoria que vê a sociedade dividida não em classes sociais, mas em campos políticos de acordos com os interesses da própria burocracia.

A nível nacional, na Rússia, expressava os anseios e os interesses dos camponeses ricos, homens da NEP, e todos setores pequeno burgueses e burgueses que ainda restavam ou se desenvolviam naquele país. Aqui também vemos a capitulação ao “campo dito progressivo”, mas que são expressão de outra classe social que não os trabalhadores.

Assim, a nível internacional, o “socialismo em um só país” era a teoria que justificava a capitulação ao imperialismo do campo burguês tido como “progressivo” ou “democrático”. Uma coisa era o acordo na luta militar para derrotar Hitler e o fascismo. Outra, completamente diferente, era colocar os Partidos Comunistas sob a asa das suas burguesias nacionais.

Na Espanha, traíram a revolução espanhola. Fizeram os trabalhadores, que já controlavam fábricas e terras, as entregarem de volta à burguesia, destruindo a resistência operária e popular ao fascismo. Após a segunda guerra, Stálin chegou ao absurdo de assinar os acordos de Potsdam e Yalta, participando da divisão do mundo em zonas de influências, sepultando a III Internacional de Lênin e aplicando a estratégia que depois se chamaria “coexistência pacifica com o imperialismo”.

Quem está correto? Lênin ou Jones Manoel?

A tese de Jones Manoel é frágil. A verdade é que não só havia polêmicas importantes entre Stálin e Trotsky, como o primeiro a alertar para a gravidade da luta entre ambos foi Lênin. Inclusive, foi ele quem abriu a batalha contra o “marasmo burocrático no qual está atolada a revolução”, propondo que Trotsky se juntasse a essa luta no XII Congresso do PCUS.

O problema da burocracia era fruto tanto do atraso russo herdado do czarismo, como também se agravou com a guerra, o isolamento da revolução e a pobreza do país. Vejamos Lênin novamente: “Os burocratas czaristas começaram a entrar nos escritórios dos órgãos soviéticos, nos quais introduzem seus hábitos burocráticos, se encobrem com o disfarce de comunistas e, para assegurar um maior êxito em sua carreira, procuram as carteiras de militantes do PC da Rússia. De modo que depois de serem lançados pela porta, se metem pela janela!”

Lênin também rompeu e denunciou Stálin tanto em relação aos seus trabalhos no Comissariado do Povo para a Inspeção, como também sobre a concentração excessiva de poder em suas mãos, pedindo sua demissão do cargo de Secretário Geral por falta de tolerância, lealdade e cortesia.

Não temos o direito de repetir os erros do passado

Depois de todo exposto, poderíamos ainda nos perguntar: Se não havia polêmica entre Stálin e Trotsky, porque Stálin perseguiu a oposição de esquerda dentro da União Soviética? Porque ocorreram os processos de Moscou, quando foram assassinados todos os dirigentes soviéticos da histórica direção bolchevique, todos que podiam contestar Stálin e a burocratização? Ou, por que os trotskistas foram perseguidos e assassinados pelos stalinistas em todo mundo, culminando com o assassinato de Trotsky no México em 1940?

Trotskismo também não tem nada a ver com stalinismo por conta disso. Um foi uma corrente operária e revolucionária perseguida e eliminada fisicamente por todos os inimigos dos trabalhadores. A outra foi um dos principais agentes contrarrevolucionários opressivos dessa perseguição. Segundo os arquivos oficiais soviéticos, foram fuzilados pelo menos 800 mil militantes operários comunistas opositores ao stalinismo.

A busca pela verdade e pela memória é fundamental. Quando alguém que se diga comunista ironiza esta história, ou chama a luta pela memória dos revolucionários assassinados de “mimimi”, é uma demonstração de que o stalinismo, embora tenha se enfraquecido muito, deixou uma pesada e triste herança.

Longe de estarmos discutindo apenas o passado, na verdade se trata da necessidade de os marxistas de hoje aprenderem com os erros do passado. A luta contra a burocratização deve ser parte integrante e fundamental do programa revolucionário e socialista atual. Isso significa lutar contra a burocratização dos partidos, nos sindicatos e em todos os aspectos das organizações. É preciso ter métodos e ações que evitem e minimizem esses perigos de desvios.

Qualquer um que não entenda isso, infelizmente, não está à altura das tarefas colocadas pela revolução socialista e terminará inevitavelmente repetindo a degeneração burocrática de tipo stalinista que tantas vezes se repetiu na história.

Por isso é tão absurdo ver Jones Manoel afirmar que não é stalinista, nem trotskista. Pois enquanto suaviza o stalinismo, tenta ridicularizar o trotskismo. Considera-se “marxista-leninistacom um critério de considerar marxista-leninistas todos que se chamem assim, julgando as coisas pelo que acham de si e não pelo que são de fato. No fim das contas, defende todas as organizações e dirigentes stalinistas do século passado.

Ser marxista e leninista, depois de mais de 80 anos de traições do stalinismo, significa incorporar as contribuições daqueles que tombaram contra a degeneração burocrática, lutando para defender a maior conquista dos trabalhadores na história: a revolução russa. Dentre as várias organizações de oposição de esquerda à burocracia e aos stalinistas, sem dúvida a maior e mais importante foram os trotskistas, que chegaram a ter 15 mil membros em sua organização na oposição de esquerda a Stálin.

Estes formularam um programa onde colocava a necessidade de derrubada da burocracia, defendendo uma revolução política para instituir uma verdade democracia operária, com o poder voltando para a mão dos trabalhadores. Trotsky alertou que caso isso não ocorresse, estava colocada a possibilidade de os burocratas virarem burgueses e restaurarem o capitalismo.

O stalinismo e a burocracia soviética foram a negação de marxismo e leninismo. Foi a corrente política que, no final das contas, destruiu a revolução e restaurou o capitalismo na URSS. E aqui não se trata de uma opinião, mas da constatação de fatos. Depois de décadas de perseguições, mentiras, calúnias e falsificações, já temos o “veredicto da história”.

Talvez Jones Manoel seja apenas a expressão do momento histórico que atravessa o próprio PCB. Afinal, se encontram entre uma autocrítica em relação ao seu passado stalinista, mas também sustentam um revisionismo do próprio stalinismo, no sentido de tentar suavizá-lo, amansá-lo. Meio que liberando e construindo um certo ecletismo teórico e programático que, ao não chamar as coisas pelo seu verdadeiro nome, na prática alimenta uma reabilitação do stalinismo mesmo que requentado e com nova roupagem. Esta operação não é nova, nem é brasileira, mas é preciso ser contraposta, pois não se trata simplesmente de um debate sobre o passado, mas, principalmente, sobre o futuro do comunismo.