Intervenção militar faz mais uma vítima no Rio: Marcos Vinicíus, de 14 anos

Uniforme do garoto Marcos Vinicíus manchado de sangue Foto Agência Brasil/Fernando Frazão

Na manhã desta quarta-feira, 20, a intervenção federal e a ação policial no Rio de Janeiro fizeram mais uma vítima. O garoto Marcos Vinicíus, de 14 anos, foi baleado durante uma ação da polícia e do Exército no Complexo da Maré, em plena luz do dia. Marcos estava atrasado para a aula e, na rua, não pode se proteger dos disparos como os 500 colegas do colégio Operário Vicente Mariano, que se abrigaram de forma desesperada no interior da escola.

Mãe do garoto Marcos Vinicíus segura uniforme manchado de sangue. Foto Agência Brasil/Fernando Frazão

Marcos Vinicíus foi baleado no abdômen e levado ao hospital, mas morreu horas depois. Teve tempo, contudo, de dizer à mãe que o tiro que o acertou havia partido de um blindado da polícia. Reclamou ainda que tinha sede. “Meu filho morreu com sede“, lamentou aos prantos a mãe do menino, enquanto segurava o uniforme de Marcos manchado de sangue.

A culpa é desse Estado doente que está matando as nossas crianças com roupa de escola. Estão segurando mochila e caderno, não é arma, não é faca. Não estão roubando e nem se prostituindo, estão estudando!”, protestou a mãe do garoto, trabalhadora doméstica.

Após o garoto ter sido baleado, colegas, familiares e professores do colégio fizeram uma manifestação na Linha Amarela e foram agredidos e ameaçados por policiais civis.

Ação de guerra
A operação que causou a morte do garoto envolveu equipes da Delegacia de Roubos e Furtos de Cargas (DRFC), entre policiais civis, militares e soldados do Exército. Havia, segundo a polícia, 23 mandados de prisão a serem cumpridos. A ação, tal qual uma operação de guerra numa região conflagrada contra um exército inimigo, contou com um helicóptero blindado atirando a esmo do alto, numa região habitada e repleta de escolas. Esse helicóptero, apelidado de “caveirão voador”, já havia sido utilizado dias antes. Na ação,ninguém foi preso, mas sete pessoas foram mortas, incluindo o menino Marcos.

A operação, ao que tudo indica, teve como fundo uma ação de vingança contra a morte do inspetor Ellery de Ramos Lemos, assassinado no dia 12 de junho em Acari. O delegado da Polícia Civil, Marcus Amim, já havia dado a senha num programa da TV, dizendo que iriam caçar os responsáveis pelo assassinato. E completava: “Se vocês resistirem à nossa ação, nós vamos manchar o ambiente com o sangue sujo de vocês“. Mancharam o ambiente com o sangue de um garoto de 14 anos a caminho da escola.

Uma guerra contra o povo
Quatro meses após o governo Temer ter decretado a intervenção militar no Rio de Janeiro, a violência contra o povo pobre só aumentou, assim como os casos de barbárie policial como o que chocou o país nesta semana. Além da brutal execução da vereadora Marielle Franco e do motorista Anderson, que se completa 100 dias nesta sexta sem qualquer solução, os índices de crimes aumentaram no período, assim como as denúncias de abusos por parte da polícia e do Exército.

Enterro do garoto assassinado

Segundo o Observatório da intervenção Federal, os tiroteios aumentaram 36% nesses quatro meses. O número de mortos pela polícia cresceu 34%. O de roubos, 5%. Mas nem esses números demonstram a real situação de guerra em que se encontram a população das comunidades no Rio. O próprio Observatório vem tendo negado pedido de informações baseado na Lei de Acesso à Informação. Ou as autoridades não respondem, ou simplesmente negaram os 77 requerimentos enviado às polícias do estado. O interventor General Braga Netto simplesmente ignora questionamentos da própria imprensa, quando não manda repórteres desligarem câmeras e microfones em eventos públicos, como na palestra realizada na ACR (Associação Comercial RJ) no último dia 13.

Em quatro meses, a intervenção militar de Temer já mostrou que seu objetivo nada tem a ver com o combate à violência ou ao tráfico. Trata-se de uma medida de exceção cuja intenção é a de recrudescer a guerra e a repressão do Estado contra os pobres, sobretudo a juventude negra das favelas do Rio.

LEIA MAIS

O retrato da barbárie racista e machista no Brasil