Inglaterra e Kadafi: ligações perigosas

Documentos mostram que regime de Kadafi recebeu opositores diretamente das mãos da CIA e do M-16; em uma troca intensa de favores. Leia artigo, direto de Liverpool, Inglaterra.Blair com KadafiA grande vitória do povo líbio contra a ditadura de Kadafi está ajudando a classe trabalhadora de outros países a conhecerem melhor seus próprios governos. Aqui na Inglaterra, Tony Blair, do Partido Trabalhista que, quando foi primeiro ministro de 1997 a 2007, costumava fazer discursos defendendo a democracia e os direitos humanos, acaba de ser desmascarado por uma revelação bombástica: sua relação secreta com o ditador líbio Muhamar Kadafi. Que os governos burgueses e imperialistas mantêm relações com ditadores, não é novidade. Mas que essa relação envolveu uma cooperação estreita para violar os direitos humanos do povo líbio e massacrar a oposição contra um governo que se dizia anti-imperialista já ultrapassa todos os limites.

Esta semana um importante jornal inglês, The Independent (4/9), fez revelações surpreendentes sobre essa relação entre a Inglaterra e Kadafi, revelações estas que derrubam por terra qualquer argumento dos apoiadores de Kadafi no seio daquelas correntes de esquerda que tentam mostrá-lo como anti-imperialista. O jornal divulgou documentos encontrados pela Organização de Direitos Humanos da ONU encontrados no escritório de Moussa Koussa, então chefe de espionagem de Kadafi em Trípoli, que comprovam que a Inglaterra, por meio do M16 (serviço secreto), e os EUA, por meio da CIA, atuavam em parceria com Kadafi para reprimir a oposição ao regime do ditador líbio.

Entre outras revelações, os documentos mostram que a Inglaterra, durante o governo Blair, ajudou a capturar um dos líderes da oposição ao regime de Kadafi antes de ele ser enviado de volta à Líbia, onde foi brutalmente torturado.

Uma mão lava a outra
“O envolvimento de Londres na captura de Abdel-Hakim Belhaj, comandante militar das forças rebeldes em Tripoli, é revelado numa carta escrita por um oficial do MI6. Nela, ele lembra Koussa de que foi o serviço de inteligência da Inglaterra que liderou a captura de Mr Belhaj quando era o líder do Libyan Islamic Fighting Group, antes de ele ser entregue ao governo líbio”, diz o jornal. A “confissão de culpa” de Belhaj teria sido obtida por meio de “progressiva técnica de interrogatório”. Belhaj revelou na época que ele havia sido torturado durante o interrogatório. O oficial da M16 escreveu: “Isso foi o mínimo que nós poderíamos fazer por vocês e pela Libia para demonstrar a estreita relação que nós construímos durante os anos recentes”.

Tão próxima era a relação entre os dois governos que várias agências de inteligência européias usaram os serviços do MI6 para também capturar seus próprios líbios suspeitos de ‘terrorismo’. Os serviços secretos sueco, italiano e alemão contaram com a ajuda da agência inglesa e sua ligação com Trípoli para essas ações. Um indício da fraternal relação entre a inteligência britânica e seus parceiros líbios são as cartas trocadas entre Londres e Trípoli, todas encabeçadas pelas frases “Saudações do MI6” e “Saudações do SIS”.

Embora os documentos revelem dados da época em que Tony Blair estava no governo, há indícios de que existam também relações entre a Inglaterra e alguns membros do novo governo líbio, o Transitional National Council (TNC).

Os documentos revelam também que as agências de segurança britânicas davam detalhes sobre a vida dos opositores de Kadafi no exílio, incluindo números de telefone. Entre os “espionados” estava Ismail Kamoka, liberado pela justiça britânica em 2004 por não ter sido considerado uma ameaça à segurança nacional da Inglaterra.

Kadafi anti-imperialista?
Aqui na Inglaterra muitos lutadores de esquerda e outros grupos que se reivindicam “marxistas” desataram uma verdadeira enxurrada de críticas ao povo líbio por ter derrubado, “com a ajuda do imperialismo”, o “anti-imperialista” Kadafi. Fazem coro com Hugo Chávez e Fidel Castro, dizendo que o imperialismo queria derrubar Kadafi para se apossar do petróleo e controlar a Líbia e, portanto, haveria que defendê-lo contra essa agressão.

No entanto, esses documentos agora revelados demonstram o tipo de “anti-imperialismo” que Gadaffi defendia; era um anti-imperialismo de palavra e um pro-imperialismo de política. A colaboração estreita entre seu regime e os governos imperialistas ficou mais uma vez confirmada pela revelação documentada de que os serviços de inteligência imperialistas faziam o papel sujo, fora da Líbia, de identificar, espionar e prender os lutadores de oposição a Kadafi, e depois, os entregava de volta ao ditador para que ele os torturasse em suas prisões sinistras. Se faltava alguma prova, agora não falta nada.

É o caso de se perguntar: se Kadafi fosse realmente anti-imperialista, como entender o porquê dessa colaboração que vem desde 2002, quando a CIA e o M16 começaram um engajamento ativo com os agentes de inteligência líbios para sufocar os focos de oposição dentro do país?

Os fatos são os fatos
Os que hoje defendem Kadafi dizem que ele foi vítima de uma agressão imperialista e por isso, é obrigação dos revolucionários defendê-lo. No entanto, os fatos demonstram o contrário. Não houve qualquer agressão imperialista contra Gadaffi, porque o imperialismo o defendia e tinha um acordo com ele para juntos reprimirem a oposição, como demonstram agora os documentos encontrados. Os protestos que acabaram por derrubar essa ditadura que já durava 42 anos começaram a ficar mais fortes a partir de fevereiro de 2011. A prisão de um ativista pelos direitos humanos em Benghazi, no dia 15, foi a gota d’agua que deu início a uma onda de protestos por todo o país, incendiando uma população já cansada e prestes a explodir. A reação violenta de Gadaffi contra os manifestantes, usando armas e tropas treinadas pela Inglaterra e armamento antigo comprado da URSS e de outros países, inclusive do Brasil, e também armas químicas, espalhou os protestos, animados pela revolução no Egito e Tunísia. O que empurrou o povo líbio à revolução foi o próprio governo, uma ditadura sanguinária, que fechava a porta a todo movimento de oposição, que vinha entregando o petróleo ao imperialismo sem que isso se revertesse em benefícios para a população, submersa em péssimas condições de vida.

Os fatos são categóricos. A intervenção imperialista veio depois que os protestos já haviam se espalhado e os rebeldes ameaçavam ocupar os poços de petróleo. Apesar de toda a repressão, Kadafi não conseguiu controlar uma insurreição que crescia cada vez mais, fazendo assim com que as potências imperialistas interviessem no sentido de deter o movimento de massas e garantir a continuidade capitalista na Líbia, por meio de um governo burguês encabeçado pelo TNC.

Outra acusação contra os rebeldes é que eles não são lutadores honestos, revolucionários que dão a vida para derrubar a ditadura na Líbia. Seriam, na verdade, agentes imperialistas infiltrados no meio do povo, armados pelas grandes potências para derrubar Kadafi e assim abrir o caminho para o controle imperialista do país. A intervenção imperialista na Líbia como tentativa de controlar a insurreição das massas realmente dá margem a esse tipo de interpretação, porque torna todo o processo altamente contraditório.

Mas essa é uma interpretação fácil porque é mecânica. O imperialismo, em muitas ocasiões, usou desse expediente, de armar mercenários para atingir seus fins. Na Líbia é possível que isso também tenha ocorrido, mas se analisamos os fatos friamente, fica claro que se isso ocorreu não foi o determinante. A maioria dos rebeldes não conforma um exército regular, como haveria de se prever caso fosse preparado pelo imperialismo. Ao invés de capacetes, botas, uniforme com proteção anti-bombas, o que se vê são pessoas sem qualquer tipo de proteção na cabeça, sem sapatos ou com chinelos nos pés, e roupas puídas. Nada parecido a soldados ou mercenários de um exército imperialista! Quanto ao armamento, em geral são armas arrancadas da própria ditadura, graças a que os rebeldes conseguiram invadir muitos dos depósitos de armas de Kadafi para se apossar de fuzis e metralhadoras.

No entanto, todas essas acusações contra os rebeldes não têm sustentação alguma na realidade. Se fossem agentes do imperialismo, seria difícil acreditar em sua capacidade de contaminar todo um país. Caso Kadafi se tratasse de um governo democrático e não uma sanguinária ditadura, caso se tratasse de um governo que garantisse boas condições de vida à população, e não um governo corrupto e espoliador, difícil seria acreditar que alguns mercenários conseguiriam levar adiante uma insurreição que envolveu todo o povo com tamanha força, que enfrentou um exército bem mais equipado e levou abaixo esse mesmo governo.

Quanto a Kadafi sim, há provas irrefutáveis de sua ligação com o imperialismo, de suas tentativas de sufocar as massas a qualquer custo para continuar no poder. Por isso são tão importantes os documentos revelados agora pela Organização de Direitos Humanos da ONU e divulgados pelo The Independent, mostrando as ligações perigosas entre Kadafi, a Inglaterra e os Estados Unidos para manter a espoliação do povo líbio.

Os trabalhadores ingleses têm agora mais um motivo para não acreditar nas mentiras do Partido Trabalhista e devem exigir imediatamente uma retratação pública dos dirigentes desse partido, que devem ser punidos por terem colaborado com a prisão, tortura e morte de muitos ativistas líbios de oposição. Também têm mais razão para continuar combatendo o governo Conservador de Cameron, que continua bombardeando a Líbia e busca impor sua política através do novo governo do TNC e tem como objetivo desarmar os comitês populares do povo líbio. Os trabalhadores ingleses precisam mostrar agora todo o seu apoio à luta do povo líbio pela liberdade, exigindo do governo inglês a imediata desativação dos serviços secretos do M16 e a abertura total de seus arquivos.