Imigrantes e o proletariado europeu

Enganam-se os que acham que o que ocorreu na França é expressão de setores marginais. Ao contrário, a rebelião indica que a temperatura está aumentando rapidamente nos ambientes operários da França e, provavelmente, de vários outros países europeus.

Os imigrantes são componentes de peso do proletariado europeu, pauperizado e precarizado pela globalização.

A partir da década de 80, passou a haver uma imigração massiva, tanto dos países semicoloniais como do Leste europeu (por causa da restauração do capitalismo). Isso levou um fluxo impressionante de imigrantes aos países da Europa (atualmente com 56 milhões) e aos EUA (40,8 milhões), e uma parte deles entrou nesses países de maneira “ilegal”, sem documentos (só na Europa, estimativas duvidosas falam em mais de 3 milhões).

Esse processo impressionante causou modificações no proletariado, a ponto dos imigrantes serem majoritários em alguns setores. Na Alemanha, existem 650 mil turcos, e as assembléias metalúrgicas são em duas línguas (alemão e turco). Na Espanha, a presença de marroquinos é maciça na construção civil. Na Itália, quase 3 milhões de imigrantes estão instalados em bairros como o Laurentino 38 de Roma, semelhante aos que explodiram nos subúrbios de Paris.

Barris de pólvora
Na França, existem cerca de 4,5 milhões de imigrantes, que constituem 11% da classe operária. O imperialismo tem uma postura dupla em relação aos imigrantes. Por um lado, necessita da imigração para assegurar o funcionamento de suas empresas. Por outro, para assegurar que essa mão-de-obra siga barata e dispensável, não aceita uma verdadeira integração, exatamente para que os imigrantes não tenham os mesmos direitos dos trabalhadores nascidos na Europa. Por isso, os mantém na ilegalidade ou semilegalidade, os deixa em guetos, sem verbas para saúde e educação etc.

Além disso, a burguesia utiliza os ataques aos imigrantes para dividir politicamente os trabalhadores. Esse papel cabe normalmente à ultradireita, com o discurso de que “os imigrantes ocupam os empregos”. Desde a crise econômica de 2001, vêm sendo estabelecidas leis cada vez mais repressivas em relação aos imigrantes.

Os bairros que explodiram na França, são bairros operários. Os que saíram queimando carros são já franceses, descendentes de imigrantes, entre os quais o desemprego alcança 40%.

É preciso passar a incorporar na avaliação política da situação francesa, e de muitos dos países europeus, a existência de barris de pólvora prestes a explodir nas redondezas das grandes cidades. A revolta manifestada pode ser um sinal de radicalização crescente do ânimo dos trabalhadores, e não só dos imigrantes.

Post author Eduardo Almeida Neto e Jeferson Choma, da redação
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