Hillary Clinton não veio a passeio

Sorrisos e simpatia embalam a militarização da América Latina
Ag. Brasil

A secretária de Estado norte-americana Hillary Clinton desembarcou no Brasil no dia 2 de março, como parte de seu giro pela América Latina. Nesses dias, ela visita cinco países, em um tour que vai do Uruguai do recém-empossado Pepe Mujica, passando pelo Chile, que ainda sente os efeitos do terremoto; e por Brasil, Costa Rica, e terminando na Guatemala.

Além da pressão para a adoção de sanções contra o Irã, a secretária trouxe na bagagem uma série de temas, que vão das bases na Colômbia ao futuro do Haiti. A visita de Clinton serve para mostrar que, apesar de o centro das atenções dos EUA estar voltado ao Oriente Médio, a América Latina não foi esquecida pelo imperialismo, que não abre mão de periódicas inspeções em sua área de influência.

Nesse dia 3, a secretária reuniu-se com os presidentes da Câmara, Michel Temer (PDMB), e do Senado, José Sarney (PMDB), indo depois ao encontro de Lula, do ministro das Relações Exteriores Celso Amorim e da ministra-candidata Dilma Roussef. Oficialmente, pouco ou quase nada será firmado entre os dois governos. O que diminui em nada a importância e o significado do encontro.

Além dos temas principais, a líder democrata aproveitou para defender os produtos de seu país, no caso os caças da Boeing, que disputam com os modelos de França e Suécia a preferência do governo e dos militares. Na semana anterior, o porta-aviões Carl Vinson deslocou-se do Haiti diretamente ao Rio de Janeiro, trazendo consigo modelos dos caças e um porta-voz da Boeing, como em uma feira ao ar livre.

Pressão contra o Irã
A visita faz parte da campanha movida pelos EUA contra o Irã, que ganhou novo impulso a partir do início deste ano. O imperialismo norte-americano encabeça a pressão para que o Irã abandone qualquer tipo de pesquisa com energia atômica, alegando que o país dos aiatolás pretende desenvolver armamento nuclear.

O discurso hipócrita dos EUA, porém, ignora os demais países imperialistas que já detém armamento nuclear, como o enclave ianque no Oriente Médio, Israel. Além de tentar manter a tecnologia nuclear restrito a um pequeno número de potências, a campanha dos EUA visa ainda criar um clima de medo e insegurança em torno do Irã, a exemplo do que ocorreu momentos antes da invasão no Afeganistão e, posteriormente, no Iraque.

Já o governo Lula, ávido em buscar consensos para conquistar um assento no Conselho de Segurança da ONU, evitou qualquer discurso contundente, limitando-se a pregar o “diálogo” para solucionar o impasse. Ao contrário do tom da maioria da imprensa, a posição do governo brasileiro está longe de se enfrentar com os interesses dos EUA.

O governo brasileiro não só não criticou os EUA por sua pressão contra o Irã, como declarou ser a favor da “política de desarmamento”. Respondendo sobre possíveis divergências entre Brasil e EUA, Celso Amorim deixou claro: “Há convergência também nos objetivos, em relação ao Irã, em relação ao Oriente Médio e muitos outros assuntos”.

Haiti
Outro tema, porém, deve ter sido tratado entre Lula e Hillary, mas não teve o mesmo espaço na imprensa. Trata-se dos planos dos EUA para o Haiti. No dia 23 de fevereiro o ministro da Defesa Nelson Jobim esteve em Washington, onde se reuniu com o ministro da Defesa norte-americano, Robert Gates. Na pauta, a “reconstrução” do Haiti.

Um dos temas discutidos pela secretária em sua visita seria justamente uma ampliação das medidas de livre-comércio entre EUA e Haiti, o que facilitaria as exportações de produtos haitianos. Desta forma, o Brasil poderia utilizar o país devastado pelo terremoto como plataforma de exportação ao mercado norte-americano.

Os empresários brasileiros ganhariam duas vezes: dividiriam com as multinacionais a vasta mão-de-obra barata no país e teriam ainda caminho livre para enviar os produtos aos EUA. Isso num país devastado, onde as tropas do Brasil, agora com o exército norte-americano, impedem revoltas e levantes populares.

O papel do Brasil
A passagem de Hillary Clinton pela América Latina expressa a política externa de Obama. Sorrisos e simpatia embalando uma política de crescente militarização, como expressam as bases norte-americanas na Colômbia ou a reativação da IV Frota, unidade da marinha ianque para a região.

Por outro lado, reforça o papel que os EUA querem que o Brasil desempenhe, de sócio menor do imperialismo na América Latina. Um exemplo disso foi o fato de a Argentina não ter sido incluída na rodada de Hillary, provocando reclamações do casal Kirchner. Ao mesmo tempo, a secretária coloca o Brasil do governo Lula como um exemplo a ser seguido pelos demais.