Há muito Gil não sabe onde (e o que) é o Haiti

A lamentável participação do ministro-cantor (cada vez mais cantor do que ministro) Gilberto Gil no não menos lamentável governo Lula parece não ter limites no que se refere aos absurdosDepois de ter passado o ano de 2004 usando todas suas poucas folgas entre um show e outro para patrocinador um projeto de Agência Nacional de Cinema e Audiovisual pra lá de questionável — tanto pelo incentivo que dá ao setor privado quanto pelo alto grau de controle que queria exercer sobre a produção cutural — Gil esbaldou-se no Carnaval em camarotes e trios patrocinados por seus amigos e empresários.

Agora, como o show não deve parar, o ministro-cantor decidiu ir para o Haiti, onde desembarcou na segunda, dia 14 de fevereiro, como parte dos esforços brasileiros na ocupação de um país que tem em sua história a louvável marca de ter se livrado da escravidão colonial no mesmo movimento que deu origem a uma República Negra.

Balas e circo
Mudando a máxima romana que pregava “pão e circo” para controlar os povos dominados e explorados, o governo Lula decidiu, com a benção de Bush, evidentemente, promover a política de “bala e circo”. Meses depois de um jogo de futebol espetáculo, Gil se deslocou para o Haiti para, durante três dias, segundo suas palavras “estreitar as relações entre ambos os países”, desconsiderando completamente que um dos países em questão é “ocupado” e o outro o “ocupante”.

Como parte da viagem, o ministro cantor irá visitar entidades culturais e as tropas de ocupação. Que não faltaram “canjas” e apresentações de “improviso” ninguém tenha dúvida. Contudo, cabe esperar para ver se lá, Gil terá a cara de pau de cantar a música “O Haiti é aqui”, principalmente aquela parte que diz:

“(…) Pra ver do alto a fila de soldados, quase todos pretos
Dando porrada na nuca de malandros pretos
De ladrões mulatos e outros quase brancos
Tratados como pretos
Só pra mostrar aos outros quase pretos
(E são quase todos pretos)
E aos quase brancos pobres como pretos
Como é que pretos, pobres e mulatos
E quase brancos quase pretos de tão pobres são tratados
E não importa se os olhos do mundo inteiro
Possam estar por um momento voltados para o largo
Onde os escravos eram castigados (…)”