Grupo é preso depois de protesto contra o caos do transporte público em São Paulo

Passageiros e são presos ao organizar protesto pacífico
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A absurda história do professor de inglês que protestou contra o trem parado da CPTM e passou quatro dias na prisãoSão Paulo, dia 21 de maio, quarta-feira. Um trem da CPTM (Companhia Paulista de Trens Metropolitanos) tem uma pane nos freios e pára entre as estações Tatuapé e Brás. O que seria mais um dia de humilhações na vida de milhares de paulistanos que enfrentam diariamente o transporte coletivo acaba se transformando num verdadeiro inferno.

Os minutos se passam sem que o trem se mova. O ar-condicionado não funciona, as janelas não abrem e várias pessoas começam a passar mal. Diante da situação de calamidade, alguns passageiros acionam o botão de emergência e conseguem sair dos vagões. Com milhares de pessoas nos trilhos, os demais trens também vão parando. Depois de algum tempo, algo em torno de 6 mil pessoas estão a pé pelos trilhos.

Caos
Em meio a um cotidiano de sofrimento e descaso nos trens da CPTM, o episódio foi o estopim para a indignação de muitos. Como o professor de inglês Elizeu Adalgiso Souza Rocha, negro, de 29 anos, que chegou à estação do Itaim Paulista às 6h15 da manhã para só conseguir entrar no vagão do trem às 7h10. Elizeu dá aula de inglês e estuda Relações Internacionais. Chega todos os dias à estação de trem às 6h15. Vai do Itaim ao Brás, pegando depois um metrô da Sé à estação Tucuruvi e, de lá, mais uma lotação. Ao final, são 2 horas e 30 minutos de viagem e o mesmo tempo para voltar.

“Nesse dia o trem, que já vem lotado todos os dias, estava superlotado, além de muito atrasado”, afirma Elizeu ao Portal do PSTU. Quando ocorreu a pane, o trem em que estava parou próximo à estação Carrão. Depois de aproximadamente 20 minutos de muito calor e sufoco, as pessoas começaram a passar mal e, desesperadas, acionaram o botão de emergência.

“Várias pessoas saíram do trem indignadas e querendo quebrar o trem, bater na polícia, mas eu disse a elas que o melhor seria organizar um protesto pacífico na estação Tatuapé”, relata o professor. Ele, então, junto com outros passageiros, ficou na frente do trem. Passageiros das outras três linhas também bloquearam a passagem. “Apareceu um senhor e se identificou como chefe da segurança e, ao perceber que as pessoas me ouviam, disse-me para convencê-las a desobstruir a passagem, que aquela situação iria exaltar os ânimos”.

Prisões
Para desobstruir os trilhos, os manifestantes exigiram falar com a imprensa e a direção da CPTM, a fim de denunciar o descaso com os passageiros. O chefe da segurança concordou. Liberado os trilhos, os trens voltaram a funcionar. O segurança pediu que se formasse uma comissão de seis pessoas para serem ouvidas. A história então, já absurda, ganha aqui contornos surreais. De repente, surge a PM e as seis pessoas são orientadas a entrar na viatura. São levadas, sem algemas, à delegacia. Ouvidos pela delegada, é dada voz de prisão e eles são presos em flagrante e enquadrados no artigo 260 do Código Penal, “impedir ou perturbar serviço de estrada de ferro”.

“Ficamos lá o dia todo, à noite veio um repórter da rede Record querendo falar comigo e não deixaram”, afirma Elizeu que, assim como as outras cinco pessoas, não tinha passagem pela polícia. Mas como o crime é inafiançável, eles foram levados à 31ª DP, da Vila Carrão. E o que já era ruim, ficou ainda pior.

Humilhações
Na prisão, os seis detidos dividiram uma cela minúscula com outras 15 pessoas. “Era uma cela que cabiam, no máximo, 3 pessoas, tínhamos que revezar para deitar e dormir, enquanto alguns se deitavam, outros ficavam em pé”. Na sexta-feira, dia 30, eles reivindicaram e foram transferidos de cela. Mas para outra bem pior. “O chão era de concreto, o banheiro sujo e havia apenas uma torneira que servia para beber água, tomar banho, escovar os dentes, não havia a mínima condição, convivíamos com ratos e baratas”. Em todo esse tempo, os seis presos ficaram ao lado de assaltantes, assassinos e estupradores.

Depois de quatro dias no inferno da prisão, os seis detidos obtiveram um alvará de soltura, mesmo contra a vontade do procurador. Eles respondem agora o processo em liberdade, aguardando serem indiciados. “Essa prisão foi um absurdo, fomos presos em flagrante, mas não houve flagrante, fomos à delegacia por livre e espontânea vontade, fomos, na verdade, enganados“. Elizeu pretende agora entrar com uma denúncia no Tribunal Penal Internacional, contra a violação dos direitos humanos e o cerceamento da liberdade de expressão.

Caos cotidiano
Segundo a CPTM, circulam diariamente em seus trens cerca de 1,6 milhão de pessoas. O caos que ocorreu no dia 21 foi o estopim de uma situação degradante. Mas no dia-a-dia, os trabalhadores convivem com todo o descaso do governo com o transporte público. Atrasos, superlotação e péssimas condições fazem parte da vida de quem não tem a opção de ir ao trabalho de carro. “É todo dia isso, gente passando mal, furtos, superlotação, até mesmo assédio sexual, tem sempre confusão”, relata Elizeu.

No episódio do dia 21, o próprio presidente da CPTM, Álvaro Armond, chegou aos limites da insanidade ao culpar os próprios passageiros pelo caos que virou o trem parado. “O sistema identificou uma falha de freio, mas ela poderia ser recuperada e o trem conseguiria se movimentar. Só não conseguiu porque os usuários acionaram os botões de emergência”, informou à imprensa.

A fala absurda do presidente da CPTM se transforma, assim, em síntese do descaso e irresponsabilidade do Estado com o transporte público do qual dependem milhões de trabalhadores e estudantes todos os dias.

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