Gripe A na Argentina: pobreza e crise sanitária*

O país inteiro está comovido pela gripe A, causada pelo vírus H1N1. As máscaras estão fazendo parte da paisagem quotidiana em hospitais, escolas e nas ruas da cidade. As eleições do último dia 28 de junho foram a expressão da crise de um governo, de um regime e um sistema que não dão resposta às mais elementares necessidades e direitos da população: o da saúde.

Até o dia 29 de junho, foram registrados 1.488 casos confirmados na Argentina. Desses, 35 morrerem pela ação do vírus. A Argentina é o terceiro país em quantidade de falecimentos, após o México, com 116, e os Estados Unidos, com 87. O país está acima de Canadá, com 19, e do Chile, com 7 vítimas. Estes são os cinco países onde está mais estendida a epidemia.

Contudo, por trás destes números há uma importante diferença: nos Estados Unidos declararam-se 27.717 casos, no México 8.279, no Canadá 7.775 e no Chile 5.186. Na Argentina, existem 35 mortes para cada mil habitantes que contraíram a doença. É uma cifra bem mais alta do que daqueles países onde a epidemia tem sido mais grave. O México tem 14,1 por mil doentes; os EUA 3,13; o Canadá 2,44 e Chile 1,34.

Razão de diferenças tão significativas
Alguns propõem que existe uma mutação do vírus que atua na Argentina, que o torna mais agressivo. Tal hipótese mercê consideração, contudo isso por si só não justifica que a mortalidade em relação aos casos confirmados seja três vezes mais alta que no México, e mais de 20 vezes maior do que no Chile, países de desenvolvimento econômico e social parecido com o da Argentina.

Esta diferença só é possível pelos altos níveis de pobreza e pela profunda crise sanitária que existe no país. O que é resultado de uma política sanitária sistematicamente aplicada pelo governo nacional e dos provinciais e municipais, cujo objetivo é destruir a saúde pública gratuita e colocá-la nas mãos dos capitais privados pela via das terceirizações, seguros de saúde, planos múltiplos planos que incorporam à medicina privada e das pré-pagas como prestadores de saúde financiados pelo Estado (PROFE, por exemplo).

O que ocorre com a gripe A é o mesmo que se passou com o dengue: não há prevenção, nem os medicamentos ou insumos necessários para controlar a epidemia. Não há recursos humanos, médicos, enfermeiras, técnicos, etc. E não há infra-estrutura adequada para atender à população que o precisa pela situação crítica de hospitais e centros de atenção primária da saúde. Quando a saúde se converte em uma mercadoria para ser vendida aos clientes, o objetivo fundamental é o lucro e não a saúde da população.

Gripe A e pobreza
Estas são algumas das recomendações do Ministério de Saúde da Província de Buenos Aires para as famílias que têm uma pessoa doente na casa com o objetivo que não se contagie o resto da família e dos vizinhos:

  • manter o doente em uma habitação separada e com um banheiro aparte;
  • usar máscaras cirúrgicas;
  • perguntar ao médico se é preciso medicar pessoas com doenças crônicas que convivem com o doente.

    Há outras normas, estas são as mais importantes. Os milhões de habitantes que se encontram abaixo da linha de pobreza não podem cumprir com estas recomendações. Os milhões que têm trabalho precário e salários ou rendimentos abaixo dos 1.500 pesos (aproximadamente mil reais), também não.

    A única alternativa para o isolamento do paciente, o uso de máscaras e medicamentos, é que o Estado forneça estes recursos. Ao não o fazer, a epidemia se propagará mais rapidamente e mais mortes serão registradas em todo o país. A conclusão é uma só: a pobreza acelera a extensão da epidemia e produz mais mortes.

    A crise do sistema de saúde
    Nos hospitais da região metropolitana, sobretudo nos do segundo e terceiro cordão do Grande Buenos Aires, faltam recursos humanos. Em muitos deles não há máscaras para os pacientes internados nem para o conjunto dos trabalhadores. O oseltamivir (medicamento indicado) só é fornecido aos que estão internados, já os pacientes de ambulatórios não o recebem. Os leitos não são o bastante o volume de internação, as terapias estão saturadas e muitos dos pacientes morrem sem receber a atenção adequada. Nas salas, sem isolamento, convivem pacientes com gripe A com pacientes com tuberculoses e Aids, com pacientes cardíacos ou com patologias gastrointestinais. Além disso, nesta época do ano à gripe A se agrega a bronquites e as pneumonias.

    Todas estas carências levaram ao colapso do sistema de saúde, porque o novo modelo que se deseja impor (com o respaldo do Banco Mundial e do Fundo Monetário Internacional) não garante o direito da saúde, mas a converte numa mercadoria para o lucro das multinacionais e dos grandes grupos nacionais.

    Há uma só resposta para isso: um sistema único de saúde pública, gratuito e de qualidade, financiado pela renda nacional.

    *Publicado pela Frente Operária Socialista, seção argentina da Liga Internacional dos Trabalhadores – Quarta Internacional (LIT-QI)

    **Eduardo Barragán é médico e secretário sindical da Associação de Profissionais Universitários do Hospital Larcade, em San Miguel, na província de Buenos Aires, Argentina