Grécia: um debate estratégico na esquerda

Primeiro-ministro da Grécia, Alexis Tsipras

A posse do Syriza e o acordo feito pelo governo Tsipras com a União Europeia desencadearam uma polêmica estratégica na esquerda a nível mundial. Trata-se, em pleno século XXI, de uma atualização do debate entre reformistas e revolucionários para os dias de hoje.

De nossa parte, essa discussão já estava presente antes mesmo da posse de Syriza, se expressando no artigo Sobre um possível governo Syriza” (leia aqui), de 2014. Agora, depois do acordo União Europeia-governo Tsipras, a polêmica se reacende com a enorme vantagem da prática política como critério da verdade.

As conclusões sobre o governo do Syriza lançam luzes não só para a Grécia, mas também para outros países com partidos reformistas semelhantes ao Syriza como o Podemos na Espanha, Bloco de Esquerda em Portugal, NPA na França, PSOL no Brasil.

Uma parte interessante dessa discussão se expressa no excelente debate entre Stathis Kouvelakis (Plataforma de Esquerda do Syriza) e Alex Callinicus (dirigente do SWP da Grã-Bretanha), que incorporamos a essa série de artigos em nosso site (veja aqui). Agregamos também os artigos anteriores Se o Syriza vence as eleições, o que acontece com a questão do poder?“ (Pedro Fuentes do MES brasileiro, 2014) e Sobre um possível governo Syriza” (Eduardo de Almeida, 2014), e a última de Pedros Fuentes Notas sobre o memorando imposto pela Troika e a situação do Syriza”. Em base a esses artigos, vamos ao debate com Kouvelakis e Pedro Fuentes.

I – Um acordo fundamental
Comecemos por um ponto de acordo fundamental com Kouvelakis. Ele faz uma avaliação absolutamente correta do erro estratégico do governo Syriza:

“Acho que o que acontece na Grécia é o fracasso de uma estratégia política, e quando dizemos que uma estratégia política fracassa por completo, significa que ao final da história nos encontramos somente com opções más ou desastrosas… Esta estratégia apoiava-se em dois pilares. Por um lado, baseava-se em uma dissociação da questão da dívida e a questão da austeridade. Não é necessário dizer que, como muitos setores da esquerda radical de dentro e fora do Syriza advertiram, esta estratégia se provou completamente irrealista e inviável.

No que refere à dívida, estava claro que os credores não aceitariam nenhuma discussão, nem sequer uma menção, da palavra “cancelamento”. No máximo discutiriam a reestruturação que não implica nenhuma solução real, já que só alivia a carga da dívida. No que refere à aplicação das medidas antiausteridade do programa de Tesalônica, o que supostamente devia ser dado em qualquer caso, se provou completamente ilusório…  Os setores dominantes reagiram de forma imediata e brutal, da forma mais violenta que tinham à mão, utilizando a arma do dinheiro, a liquidez da moeda.

Esta ideologia que atualmente é compartilhada pela maioria das forças da esquerda radical europeia (se me permitem dizer, a “esquerda europeísta”) está na raiz do problema. E a derrota que estamos sofrendo na Grécia tem que ver com o fracasso desta estratégia.” (Debate Kouvalakis-Callinicos – Para onde vai a Grécia?).

Em outro artigo, Kouvelakis agrega: “De modo que para estas pessoas a eleição é entre duas coisas: ou ser um “europeu” e aceitar o marco existente, que de alguma maneira representa objetivamente um passo adiante comparado com a velha realidade das nações-estado, ou ser um “antieuropeu” o que equivale a voltar ao nacionalismo, um passo reacionário e regressivo. Esta é uma maneira muito débil na que se legitima a União Europeia: “Pode não ser ideal, mas é melhor que qualquer outra coisa colocada sobre a mesa”.

Penso que neste caso podemos ver claramente qual é a ideologia que está em jogo. Apesar de que não esteja no projeto e de que tenha dúvidas sérias a respeito da orientação neoliberal e a estrutura hierárquica das instituições europeias, de qualquer maneira se amarra nestas coordenadas e não pode imaginar nada melhor afora deste marco.

Acho que isto diz muito sobre a esquerda hoje. A esquerda está cheia de pessoas que tem boas intenções, mas que são totalmente impotentes no terreno da política real. Mas também diz muito sobre o tipo de devastação mental que causa qualquer tipo de crença religiosa no europeísmo. Isto significa que, até o fim, essas pessoas acharam que poderiam obter algo da Troika, pensaram que entre “sócios” poderiam ter algum tipo de compromisso, que compartilhavam algum núcleo de valores como o respeito e o mandato democrático, ou a possibilidade de uma discussão racional baseada em argumentos econômicos. (“Grécia: a luta continua”, Sebastian Budgen e Stathis Kouvelakis, 15 julho 2015).

Citamos longamente Kouvelakis por se tratar de uma discussão estratégica, uma das mais importantes conclusões do episódio grego. Ele afirma duas conclusões categóricas com as quais concordamos completamente.

A primeira é que não se pode pensar em planos econômicos por dentro da Zona Euro sem que sejam planos de austeridade. Dizendo de outra forma, não se pode aceitar ser parte da União Europeia e a consequente submissão ao imperialismo alemão e francês e sonhar que esses governos aceitem outro tipo de plano que não seja de austeridade. Esses planos garantem os lucros dos bancos imperialistas e não podem ser questionados a não ser por uma ruptura com o próprio imperialismo e a União Europeia.

A segunda conclusão é que a ideologia de adaptação à União Europeia, de toda a “esquerda europeia” está na raiz dessa estratégia falida. Essa visão de que a União Europeia é progressiva e que pode ser reformada em seus aspectos negativos se choca abertamente com a realidade. A União Europeia é um tratado que impõe a dominação do imperialismo alemão e francês aos outros países europeus.

Não existe maneira de reformar a União Europeia, assim como não existe maneira de reformar o Estado burguês. É preciso destruir a dominação imperialista rompendo com a União Europeia e a Zona do Euro. Isso nada tem a ver com um nacionalismo retrógrado, mas com a necessária luta antiimperialista. Deixar essa bandeira nas mãos da ultradireita tem como consequência preparar novos desastres.

A “tragédia grega” só dá cores vivas à importância desse debate com o conjunto da esquerda europeia. Segundo Kouvelakis, essa estratégia fracassou completamente. Temos pleno acordo.

Ele poderia acrescentar que, além da falta de uma estratégia antiimperialista, o governo Tsipras se eximiu de uma posição diretamente anticapitalista na Grécia. Por exemplo, foi um erro não avançar em direção à expropriação de setores empresariais, tais como os bancos.

Mas analisemos o acordo que temos com Kouvelakis, que é muito mais importante.

Kouvelakis, no entanto, não tira as conclusões evidentes dessa afirmação para o resto da Europa. Isso significa negar a plataforma eleitoral do Podemos que promete melhorar a situação do povo espanhol sem romper com o Euro, exatamente como o Syriza. Toda a ascensão eleitoral do Podemos esteve muito vinculada às expectativas geradas pelo Syriza na Grécia. Agora é hora de afirmar: não se podem repetir na Espanha os mesmo erros estratégicos do Syriza. Isso significa ter realmente um plano anticapitalista na Espanha de ruptura com o Euro e para não pagar a dívida aos bancos imperialistas. Basta aplicar essa mesma conclusão à realidade portuguesa para questionar os planos do Bloco de Esquerda, quase uma réplica dos do Syriza.

Se analisarmos a situação do imperialismo hoje, chegaremos facilmente à conclusão de que a reprodução dos mesmos planos neoliberais em todo o mundo nada mais faz que expressar em todos os países a submissão ao capital financeiro internacional. Isso impõe os mesmos limites aos planos reformistas em todo o mundo.

O PSOL no Brasil aponta a mesma estratégia do Syriza. Luciana Genro (da mesma corrente interna do PSOL que Pedro Fuentes – o MES), candidata a presidência por este partido nas eleições passadas, apresentou explicitamente há dois meses, em um debate com José Maria de Almeida (PSTU) no Congresso da CSP-Conlutas, a necessidade de repetir no Brasil a experiência do Syriza na Grécia.  

Talvez Kouvelakis não se tenha dado conta da gravidade de sua conclusão: a experiência grega demonstra que a estratégia fundamental dos novos partidos reformistas revelou-se falida. A plataforma eleitoral básica desses partidos inclui planos de crescimento e redistribuição de renda sem romper com o pagamento das dívidas, sem romper com a dominação imperialista. Muitas vezes, nem sequer contam com um período de crescimento econômico como teve o PT no Brasil. Apenas a gestão direta da crise capitalista. É tão ilusório quanto o plano do Syriza na Grécia, o reformismo sem reformas.

II – Que tipo de “acordo” foi feito?
Temos outro acordo fundamental com Kouvelakis: o “acordo” imposto foi o mais duro já aceito na Grécia, gerando o pior plano de austeridade já aplicado nesse país.

“O acordo é em todos os níveis uma continuação completa da “terapia de choque” aplicada duramente na Grécia ao longo dos últimos cinco anos. Vai inclusive mais longe que tudo o que foi votado até agora. Inclui um pacote de austeridade que estava sendo apresentado pela Troika faz meses, com grandes superávits primários, incrementando o aumento do IVA e os impostos excepcionais que foram criados nestes últimos anos, mais cortes nas pensões, e nos salários do setor público, dado que a reforma da escala salarial implicará em cortes nos salários.

Também há mudanças institucionais importantes, com os ingressos no Ministério da Fazenda voltado completamente autônoma do controle político doméstico, de fato se converte em uma ferramenta em mãos da Troika, e a criação de outra junta “independente” monitorando a política fiscal, habilitada para introduzir automaticamente cortes horizontais se os objetivos em termos de superávit primário não sejam alcançados.

O que se acrescentou e dá um tom particularmente feroz a este acordo, é o seguinte: primeiro confirma enfaticamente que o FMI veio para ficar; segundo, as instituições da Troika estarão permanentemente presentes em Atenas. Terceiro, impede-se que o Syriza implemente dois de seus maiores objetivos, como restabelecer a legislação trabalhista (existe algumas referências vagas para uma melhor prática europeia, mas foi explícito o fato de que o governo não pode retornar à legislação anterior) e claro isto também se aplica ao salário mínimo.

O programa de privatizações sobe a um nível incrível (estamos falando de cerca de 50 bilhões de privatização) de modo que absolutamente todos os bens públicos serão vendidos. Não só isso, senão que serão transferidos a uma instituição completamente independente da Grécia. Falou-se de que uma parte estaria em Luxemburgo (atualmente terá sua base em Atenas), mas será completamente privada de qualquer forma de controle político. Isto é típico do processo Treuhand[1] que privatizou todos os bens públicos na Alemanha do Leste.” (Grécia: a luta continua Sebastian Budgen e Stathis Kouvelakis, 15 jul 2015).

Ou seja, o plano inclui cortes nos rendimentos dos trabalhadores (em particular pelo aumento de impostos), ataques às aposentadorias (que aumenta a idade de 62 a 67 anos), privatiza praticamente tudo que sobrou de empresas estatais (inclusive o porto de Pireus), e entrega as estatísticas e o controle do déficit público nas mãos da troika.


Mobilização durante campanha eleitoral do Syriza

III – Houve ou não uma traição na Grécia?
Tendo em conta esses dois acordos fundamentais com Kouvelakis, passemos às polêmicas.

No artigo citado, Kouvelakis nega que tenha havido “traição” na Grécia: “De todas as formas, a noção de “traição” significa usualmente que em algum momento se toma uma decisão consciente de renegar seus próprios compromissos. Acredito que realmente aconteceu é que Tsipras honestamente pensou que poderia sair triunfante levando adiante uma abordagem centrada nas negociações e na boa vontade, e por isto constantemente diz que não teve outro plano alternativo.”

Pedro Fontes apoia de forma irrestrita esta posição, citando inclusive o próprio Kouvelakis: “Neste mesmo artigo Kouvelakis diz que por essa continuidade na linha de negociação de Tsipras pensa que a palavra “traição” é inadequada.” (Notas sobre o memorando imposto pela troika e a situação do Syriza).

Nós, ao contrário, afirmamos que houve sim uma traição na Grécia. Uma traição dessas que será recordada por muitos anos.

Não temos nenhum acordo com as seitas que vivem acusando a todos de “traição” a qualquer momento. A vulgarização desse termo tira a hierarquia das verdadeiras traições. Trata-se do mesmo erro dos que acusam de “fascistas” a todo governo autoritário, deixando de lado a caracterização precisa do fascismo como processo político e social que utiliza métodos de guerra civil sobre a classe operária e a mobilização da pequena burguesia como base social.

Podemos falar de traições, com um critério marxista, quando um partido ou movimento apoiado pela classe operária se alia à burguesia e ataca duramente os trabalhadores, deixando de lado compromissos explícitos anteriores, com efeitos duradouros e severos.  Estamos falando de episódios históricos como o apoio da social-democracia europeia as suas burguesias na Primeira Guerra Mundial, a burocratização do Estado operário russo pela burocracia stalinista, a adesão do POUM espanhol à Frente Popular em 1936 e outros episódios do mesmo calibre.

Dito isso, o que houve na Grécia foi sim uma traição. O governo do Syriza foi eleito em base a uma plataforma contrária aos planos de austeridade. Pressionado pelos governos imperialistas, convocou um referendo que disse NÃO ao plano proposto pela União Europeia. Logo depois aceitou um plano de austeridade ainda pior do que o que tinha sido rechaçado pelas massas gregas nas eleições e no referendo.

Trata-se de uma ação objetiva absolutamente contrária e oposta ao que foi prometido e referendado pelas massas gregas. Kouvelakis e Pedro Fuentes, para escapar a essa constatação óbvia, apelam para uma definição subjetiva de traição que seria “uma decisão consciente de renegar de seus próprios compromissos”. Kovelakis diz que Tsipras “honestamente pensou que poderia sair triunfante levando adiante uma abordagem centrada nas negociações e na boa vontade”.

Então segundo eles, não houve traição porque Tsipras não queria trair. Com essa perspectiva subjetiva, passa-se ao erro oposto ao das seitas que veem “traições” em tudo. De acordo com Kouvelakis e Pedro Fuentes não existe nenhuma traição, se quem comete o ato não queria conscientemente trair.

Com este tipo de abordagem, deixa-se de lado qualquer avaliação não só marxista, de classe, mas também qualquer análise objetiva, passando a se julgar as intenções subjetivas. Passamos do terreno da luta de classes para uma improvisação empírica e superficial da psicologia.

Stalin tinha desde seu passado bolchevique na revolução russa de 1917 a intenção de comandar a contrarrevolução burocrática? Os dirigentes da social-democracia alemã, quando ainda esta era a referência para toda a esquerda revolucionária no início do século XX, tinham já a intenção de apoiar a carnificina da Primeira Guerra Mundial?

Se o plano de austeridade acordado entre o governo grego e a União Europeia não foi uma traição, será difícil definir então o que seria uma traição.

Não é correta também a postura de uma parte dos apoiadores do Syriza que ignoram a responsabilidade do governo Tsipras com o argumento de que “não tinha alternativa”. Como que não tinha alternativa? Essa era o mesmo argumento dos governos anteriores de direita para aceitar os planos de austeridade.

No mesmo sentido vão as direções do Podemos, Bloco de Esquerda e PSOL, que para desculpar ao governo Tsipras, dizem que o principal inimigo da Grécia é “o autoritarismo do governo alemão”. Em realidade, o governo Tsipras é o principal ponto de apoio para a implementação do plano de austeridade do imperialismo. 

IV – Syriza é ou não um partido refomista?
Segundo Kouvelakis e Pedro Fuentes, isso não é verdade. Kouvelakis diz: “… vejo o reformismo como uma classe de projeto político coerente que busca melhorar as condições da classe trabalhadora, e obter lucros materiais para dita classe nos limites do sistema capitalista. É um tipo de compromisso com o capitalismo que é parcialmente, mas concretamente, favorável à classe trabalhadora. É um projeto que funcionou durante décadas na Europa e em muitos outros lugares. Claro, com suas próprias limitações estruturais: não poder ir além do capitalismo. Trata-se do reformismo histórico. O Syriza não tem o mesmo tipo de coesão. Podem gostar ou não, mas a identidade do Syriza é anticapitalista. É um partido que busca destruir ao capitalismo mediante a transição ao socialismo, definindo socialismo como a socialização dos meios de produção.” (Grécia: a luta continua, Sebastian Budgen e Stathis Kouvelakis, 15 jul 2015).

Para contestar a caracterização do Syriza como reformista, Kouvelakis argumenta que o PASOK – social-democrata e reconhecidamente reformista – fez reformas reais, que foram reivindicadas pelo povo grego. E que o Syriza não seria isso, e sim “um partido anticapitalista”.

Não concordamos com Kouvelakis ao caracterizar o reformismo da social-democracia no passado como progressivo. O reformismo utilizou todas as conquistas parciais dos trabalhadores para desviar os processos revolucionários. Depois, nas décadas de 80 e 90 do século passado, foi o agente direto enquanto governos na implementação dos planos neoliberais que retiraram estes mesmos direitos. O reformismo foi e continua sendo um pilar da dominação burguesa entre os trabalhadores.  Entretanto, esta não é a maior diferença que temos com Kouvelakis neste terreno. A mais importante é que não caracteriza o Syriza como reformista.

É verdade que entre o Syriza e o velho reformismo da social-democracia e do stalinismo existem enormes diferenças. Começando pelo fato de que o velho reformismo tinha laços orgânicos com o movimento operário (sindicais e políticos) muito mais sólidos que o Syriza. Tantos os partidos social-democratas como stalinistas europeus dirigiam centrais sindicais de peso, e tinham bases políticas e eleitorais sólidas de dezenas de anos entre o proletariado. E para atingir este status, houve momentos em que estes partidos conquistaram reformas para os trabalhadores apoiados em situações como do pós Segunda Guerra Mundial (o chamado Estado de bem estar social).

Já o Syriza, assim como o Podemos (e em nível bem menor o Bloco de Esquerda, NPA e o PSOL no Brasil) são fenômenos eleitorais, com uma implantação sindical e política muito mais frágil entre os trabalhadores. Além disso, têm de enfrentar um momento diferente do capitalismo com crises econômicas que não dão espaço para reformas, para concessões aos trabalhadores.

Essas diferenças tornam mais frágeis estes novos partidos reformistas. O tempo de experiência das massas com este tipo de partido é muito menor que com o velho reformismo. Mas não muda o caráter reformista desses novos partidos. As plataformas eleitorais desses partidos são reformistas, como os de fazer planos econômicos que não sejam de “austeridade”, sem romper com o imperialismo.

Esses novos partidos reformistas também tiveram uma evolução no tempo. Quando surgiram em suas primeiras versões, como Refundação Comunista na Itália, NPA (Novo Partido Anticapitalista) na França e Bloco de Esquerda em Portugal se denominavam a si próprios como “anticapitalistas”. Essa era uma expressão, naquele momento, de um giro à direita na medida em que boa parte dessas organizações tinha origens trotsquistas (em particular do Secretariado Unificado da IV Internacional). Mas depois dos primeiros fracassos dessas experiências, os partidos reformistas surgidos posteriormente (como Syriza e Podemos) já não se caracterizam sequer como “anticapitalistas”.

Afirmar que Syriza é “anticapitalista” é quase uma calúnia contra Tsipras, que em todo momento evitou com clareza se confundir com qualquer projeto antiimperialista e anticapitalista.  O nome “Syriza” que em grego quer dizer “esquerda radical”, é tão ilusório como o “socialista” na social-democracia ou “comunista” dos stalinistas.

V – Que balanço fazer?
A ala esquerda do Syriza – da qual Kouvelakis é uma das principais expressões – foi parte do governo Tsipras. Pedro Fuentes, antes do governo Syriza defendeu a possibilidade de participação nesse tipo de governo.

E agora, que balanço fazem disso? Segundo Pedro Fuentes, o apoio ao governo Syriza foi absolutamente correto:

“Isto não significa achar que estivemos equivocados em nossa política de apoio ao Syriza. Pelo contrário, temos orgulho dela. Os grupos de ultraesquerda que, desde agora e por bastante tempo, vão repetir com certa alegria ”viram, nos tínhamos razão”, e a seguir dizem que o Syriza “não é revolucionária como nós”, chamem como se chamem, não têm nenhuma razão e nenhum futuro como o disse Statis Kovelaskys em sua última e excelente nota. Sem o Syriza no governo não tinha nenhuma disputa, não tinha nenhuma chance, essa era a “única” e continua sendo a aposta possível, porque expressava o nível de consciência e o grau de organização das massas neste período histórico.”

Kouvelakis e Pedro Fuentes reafirmam que tiveram razão sobre isso.  O argumento fundamental, segundo Pedro, é que “essa era a única” (e ainda é) “aposta possível” porque expressava “o nível de consciência e grau de organização das massas neste período histórico.”

Ou seja, o que justifica esse apoio e participação nesse governo é que ele tinha apoio popular. Nada de novo. Esse é o argumento de todas as correntes que se adaptaram aos governos burgueses dirigidos por partidos reformistas (como o do PT no Brasil) ou nacionalistas burgueses (como o de Chavez e Maduro na Venezuela).

Nós partimos de uma avaliação marxista, de classe. Não é por acaso que nem Kouvelakis nem Pedro falam sobre o caráter de classe do governo Tsipras. No entanto, o marxismo – a “teoria” tão negada por essas correntes – começa sua avaliação da realidade exatamente pela avaliação das classes sociais.

Dissemos na polêmica anterior com Pedro, que um possível governo Syriza não poderia ser interpretado como “a esquerda anticapitalista no poder”. Chegar ao governo com um partido reformista por eleições e tomar o poder são coisas muito diferentes. O Estado burguês com suas instituições fundamentais – incluindo as Forças Armadas – estaria preservado. Um governo dirigido por um partido reformista, com a manutenção do Estado burguês, seria um governo burguês.

Portanto, a discussão era sobre a participação ou não em um governo burguês. Pedro Fuentes tentou justificar sua postura, dizendo que um possível governo Syriza se enquadraria “como governo antiausteridade” nos critérios de “governos operários” da III Internacional nos quais se poderia fazer parte.

Hoje, basta rever o artigo de Pedro, para comprovar a distância entre suas previsões e a realidade do governo Syriza. Na realidade, ele fez um malabarismo teórico (muito comum nessa corrente) para tentar justificar o injustificável: ser parte de um governo burguês.

Kouvelakis se recusa a entrar nessa discussão, dizendo coisas como “Eu acho que mesmo se nessa situação estiverem em jogo questões teóricas muito mais gerais, devemos começar com a análise concreta da situação concreta”.

Pedro Fuentes e sua corrente (MES) cometeram esse mesmo erro diversas vezes. Por exemplo, apoiaram o governo Chavez na Venezuela, chegando mesmo a concordar com seu chamado para a construção de uma “V Internacional”: “… Chávez colocou uma proposta que, a nosso ver, é progressiva diante do vazio internacional existente; um avanço que pode transformar-se em um salto para criar uma nova alternativa à situação atual que vivemos de profunda crise capitalista, para dar uma resposta à política imperialista. A resposta do PSOL a este chamado, como de todos aqueles que se reclamam antiimperialistas e socialistas, e como já fizeram outras forças socialistas como o NPA da França, tem que ser afirmativa e dizer  “presentes”; estamos e estaremos aí porque queremos participar na construção deste processo que está apenas começando e que tem como próxima data marcada a reunião de final de abril em Caracas” (“O chamado de Chávez a formar uma V Internacional e atual situação mundial”, Dezembro de 2009.

Olhando essas afirmações e a situação atual do governo Nicolás Maduro pode se sentir uma distância tão abismal como entre a definição de Pedro sobre um futuro governo Syriza (governo operário de acordo aos critérios da III Internacional) e a realidade do acordo Tsipras-União Europeia.

De nossa parte, não se trata de uma postura sectária ou dogmática. Apenas da reafirmação do marxismo como instrumento científico de interpretação da realidade, por estar apoiado na avaliação das classes sociais em luta. Caracterizamos o atual governo grego como burguês porque não se pode definir o caráter de classe de um governo pela origem de seu governante. Não se pode caracterizar o governo Lula no Brasil como operário, pela origem de Lula. O fundamental é caracterizar o governo pela classe social a que vai responder.

O governo burguês de Tsipras terminou se adequando à imposição do imperialismo alemão, porque, como governo burguês, não se dispõe a romper com o capitalismo. Por isso, se adequou a realidade atual do imperialismo.

Uma demonstração a mais de que o governo Syriza se integrou à dominação imperialista foi o recente acordo militar (26/7) assinado entre a Grécia e Israel que assegura exercícios militares conjuntos entre suas forças armadas e proteção legal aos militares de ambos os países. Israel só tem um acordo similar com seu grande sócio, o imperialismo norte-americano. Com o governo Syriza, a Grécia não só continua sendo parte da União Europeia e aplica um plano de austeridade, senão que continua na OTAN (Organização do Tratado do Atlântico Norte, a aliança militar imperialista, encabeçada pelo imperialismo norte-americano) e assina um acordo direto com o governo fascista de Israel.

A ala esquerda de Syriza participou de um governo burguês, que não foi sequer um governo “anti austeridade” como tentava justificar Pedro Fuentes. Esse governo cometeu uma traição ao povo grego. E o balanço que fazem é que estiveram corretos. Pedro Fuentes chega a dizer que tem orgulho dessa política.

O argumento fica ainda mais desorientado na realidade grega. Culpar ao nível de consciência das massas gregas pelo o que ocorreu é um despropósito. Contra uma gigantesca operação da mídia, o povo grego disse NÃO no referendo, em uma belíssima manifestação de consciência com os planos de austeridade. Tsipras, na madrugada do dia seguinte, despediu a Yanis Varoufakis do Ministério da Fazenda para facilitar a reconstrução do SIM, chocando-se contra a consciência das massas.

Nós, ao contrário, afirmamos que se comprovou mais uma vez o critério marxista de não participar de governos burgueses. A argumentação de que eles têm o apoio de massas, mais uma vez, não justifica isso. Como dizíamos antes: A lógica é simples: como esses governos são populares, fiquemos juntos deles. Mas na verdade, essa não é uma “opção pelas massas” e sim pelos governos. Quando um governo burguês ainda tem apoio de massas é preciso saber estar em minoria. Os bolcheviques fizeram isso em 1917, diante do governo provisório, explicando pacientemente às massas que aquele não era o “seu governo”, como elas pensavam. Como souberam ser minoria puderam se transformar em maioria quando as condições objetivas mudaram.” (“Sobre um possível governo Syriza”, Eduardo de Almeida).

VI – Governo Syriza “em disputa”?
Existe outra dimensão nesse debate sobre estes novos partidos reformistas. Tanto o Syriza como Podemos, Bloco de Esquerda e PSOL incorporam a “unidade entre reformistas e revolucionários”.

Este tipo de unidade foi defendido teoricamente pela direção do Secretariado Unificado como uma das conclusões a ser tirada dos acontecimentos do Leste Europeu (com a restauração do capitalismo), já que, segundo essa corrente, as barreiras entre os reformistas e revolucionários estavam se superando.

A experiência grega também nesse sentido pode ser considerada como definitiva. Depois que o Syriza chegou ao governo, o setor reformista de Tsipras impôs a política de governo, sem qualquer atenção ao que opinavam as correntes de esquerda e os setores revolucionários presentes em seu partido.

Acontece nesses casos exatamente o que se passava com o velho reformismo da social-democracia, no poder: constituem governos burgueses dirigidos por partidos reformistas. Esses governos aplicam a política determinada pelas necessidades da burguesia.

Houve um fato simbólico: o Comitê Central do Syriza votou majoritariamente contra o acordo com a Troika. Apesar disso, o acordo foi aprovado pelo governo e o Parlamento, mostrando que, nas palavras de Kouvelakis: “O que vimos claramente neste período é que o governo, a condução, tornou-se totalmente independente do partido”. A “unidade entre reformistas e revolucionários”, quando um partido reformista como Syriza chega ao governo se revela mais uma vez em um erro catastrófico.

Mas, para escapar dessa realidade, Pedro Fuentes se defende com outro erro: a tese do “governo em disputa” (“Se o Syriza vence as eleições, o que acontece com a questão do poder?”). Essa política mais uma vez demonstrou seus resultados: não existe nenhuma disputa, o setor reformista impôs sua política e ponto. Para a esquerda do Syriza, nas palavras do próprio Kouvelakis: “Então é verdade que houve uma espécie de falta de realismo elementar e que isso estava diretamente ligado ao maior problema que a esquerda tem de enfrentar hoje, ou seja, nossa própria impotência.”

VII- E agora?
O debate em relação ao que poderia fazer um governo Syriza foi respondido pela realidade. Independente de termos ou não acordo de que houve uma traição na Grécia, não se pode negar a realidade: Tsipras está implementando o pior plano de austeridade já aplicado na Grécia.

E agora? Qual deve ser a postura da esquerda revolucionária perante o governo Tsipras?  A resposta mais óbvia deveria ser a ruptura com o governo e a busca de construção de um polo de resistência contra o plano de austeridade aplicado por Tsipras. No entanto, não é essa a avaliação de Kouvelakis, mesmo fazendo uma avaliação crítica dura desse governo. Ele chegou a prever que será “um governo que sabemos que será lentamente digerido pela lógica da administração do novo liberalismo”.

Mas Kouvelakis se recusa a romper com o governo. Panayotis Lafazanis foi ministro de Tsipras representando a ala esquerda do Syriza e não renunciou mesmo depois do acordo. Foi demitido por Tsipras por ter votado contra o acordo no Parlamento.  Até agora, em todas as avaliações da Plataforma de Esquerda do Syriza não existe nenhuma conclusão de ruptura com o governo.

Segundo Pedro Fuentes, deve-se continuar com a política de “governo em disputa: “Nós pensamos que se deveria evitar que haja uma maior fragmentação no movimento de massas e uma situação de crise que leve ao caos, um caos político-social que pode favorecer também à direita. Não temos que ser impressionistas. Não está descartada a hipótese que o governo consiga certa estabilidade relativa por uns meses e que isto crie as condições para que se prepare a saída do euro. É uma hipótese e não podemos apostar politicamente a que ocorra. O objetivo que está colocado é construir um plano econômico alternativo e uma política capaz de levá-lo a cabo e que para isso que conte com apoio de massas.”

A nosso ver, a ala esquerda do Syriza deve rever essa postura equivocada. É fundamental combater o governo burguês de Tsipas e seu plano de austeridade. O principal ponto de apoio do imperialismo alemão e francês hoje na Grécia é o governo Syriza que aplica seu plano econômico. Romper com o governo Tsipras é um ponto básico nos dias de hoje. Sem isso, a esquerda do Syriza continuará cumprindo um papel de ‘cobertura pela esquerda’ do governo burguês de Tsipras. E sendo, portanto, também responsável pela atuação desse governo.

As consequências para os setores de esquerda que seguiram por esse caminho no passado foram desastrosas. Basta ver que não sobrou nada da esquerda peronista, assim como não está sobrando nada da esquerda chavista e da esquerda petista.

É necessário romper com o governo Tsipras e construir outro pólo que unifique os setores que já eram independentes do governo como a plataforma Antarsya. É preciso unir esse pólo político com todos os sindicatos e movimentos populares e estudantis que estejam de acordo com um programa de combate ao novo plano.

O NÃO do Referendo grego agora deve se traduzido em um NÃO ao plano de austeridade de Tsipas- União Europeia. Pela ruptura com o euro, pelo não pagamento da dívida e por um plano anticapitalista na Grécia que inclua a estatização dos bancos e que possibilite ao povo grego comer, vestir e ter casa. Por um verdadeiro Governo dos Trabalhadores!


[1] Ndt: A holding estatal Treuhandanstalt (também chamada Instituto Treuhand) foi criada ainda antes da unificação política da Alemanha, em agosto de 1990, com os votos dos primeiros e únicos parlamentares da RDA eleitos democraticamente. Sua tarefa inédita era administrar, liquidar e privatizar o que antes era “patrimônio do povo” (14 mil empresas e imóveis) e transformar a “economia planificada” da Alemanha Oriental numa economia social de mercado.