Globalização, militarismo norte-americano e Amazônia

Não é mais possível separar globalização (1)de militarismo norte-americano, e para vários estudiosos, os Estados Unidos estão tentando resolver ou encaminhar seus problemas econômicos através da militarização do processo de globalização. Ou, nos termos de Serfati, “se a mundialização não procede de maneira alguma da ´mão invisível´ do mercado, como afirmam os neoliberais, ela dispõe, na virada do século, de um sólido braço armado” (2). Neste artigo serão levantados aspectos deste processo internacional no seio do qual se desenvolve a cobiça e a pressão atual sobre a Amazônia.

O complexo militar-industrial tornou-se um setor importantíssimo para o capital industrial dos Estados Unidos e para a sua política expansionista; ao mesmo tempo, em que se trata de um processo que se desenvolve associado à multiplicação exponencial do capital financeiro: são movimentos inseparáveis.

Essa escalada, que vem assumindo grande porte, dá indícios de que não tende a arrefecer. A corrida militar da Inglaterra e da Espanha, os dois países europeus que mais investem em ciência e tecnologia (C&T) de natureza militar e cujas burguesias são as que precisamente mais se articulam com os Estados Unidos (que investem 5 vezes mais que a União Européia em C&T militar), são dados apontando nessa mesma direção.

Os gastos militares norte-americanos já superaram os patamares mais elevados da era Reagan: chegaram a U$ 350 bilhões naquele período, sendo que, em 2003, sofreram sua maior elevação em 21 anos, ultrapassando os 350 bilhões de dólares (chegaram a U$ 375). Se forem computados os gastos com veteranos de guerra e outras despesas (como segurança civil e afins), o orçamento militar para o próprio ano fiscal de 2003 ultrapassa os 470 bilhões de dólares, segundo cálculos do economista Jurgen Brauer (3). Isto significa gastos militares, ano passado, de quase meio trilhão de dólares! A previsão orçamentária oficial de W. Bush para 2005 é de U$ 402 bilhões (4); de toda forma, espera-se, para 2005, que os Estados Unidos adotem o maior orçamento de defesa nacional desde a II Guerra Mundial (5). Ao mesmo tempo, assistimos a uma campanha eleitoral para presidente dos Estados Unidos, completamente envolvida pelo militarismo, defesa nacional, Estado policial e “guerra preventiva” contra o ´terror internacional´. Para o próprio Paul Krugman, um notório economista da ordem, estamos diante de uma “orçamento de destruição maciça”. (6)

Esse ascenso militarista, onde ganha destaque a ocupação do Iraque, tem tudo a ver com uma séria crise econômica e política do capitalismo mundial, com uma grande instabilidade que envolve seu funcionamento financeirizado atual. O empreendimento ao qual se lança a administração W. Bush, de impor uma hegemonia incontrastável sobre os demais Estados (nos planos comercial, financeiro e de controle das reservas de petróleo e riquezas naturais), além de ser gerador de mais desordem, mal consegue ocultar um dado crucial em todo esse processo: “a economia capitalista global não conseguiu sair da ´larga fase descendente´ que começou com a primeira crise importante do pós-guerra, nos anos 1973-1974; e o boom americano dos anos 1990 não se mostrou ser mais que um falso despertar”. (7)

As políticas monetárias dos Estados Unidos não surtem efeito, e sua política fiscal se concentra em gastos militares, um bumerangue que implica em pressão sobre os mercados de capitais que pode levar a altas taxas de juros e mais estrangulamento sobre a economia real mundial; e isso numa fase histórica em que vieram abaixo os modelos capitalistas mais incensados: Japão, tigres asiáticos e a supostamente promissora nova economia norte-americana dos anos 90.

A atual ofensiva militarista dos Estados Unidos não pode ser entendida satisfatoriamente fora desse quadro global (cujo exame nos remeteria para reflexões teóricas demasiado extensas para os limites deste espaço (8)) e este artigo pretende chamar a atenção para um dado empírico que merece destaque pelo que representa em termos de grave sintoma e de tendência política concreta do militarismo norte-americano, ou da globalização militarista: a expansão das bases militares norte-americanas em países e regiões cuja soberania fiscal, monetária e econômica vêm sendo reduzidas a pó. E os riscos que isso implica para a Amazônia brasileira, como veremos a seguir.

Trata-se de um dado concreto dos últimos anos, esse mesmo período em que crescem os gastos militares dos Estados Unidos: novas bases militares foram abertas na América Latina, Ásia e África. Equador, Bolívia, Turquistão, Tadjiquistão, Afeganistão, Arábia Saudita, Qatar, Kuwait, Kosovo, Aruba e Filipinas estão nessa lista de novas bases militares sobre zonas estratégicas, processo que tem a ver – embora se trate de uma política de alcance bem maior – com a agudização da luta pelo controle de recursos naturais mundiais.

Há denúncias de que o Pentágono planeja instalar um novo “comando” (à semelhança do Comando Sul, sediado em Miami) na Ilha de São Tomé para proteger a sua exploração de petróleo em Angola, Gabão e Nigéria. (9)

Nos dois últimos anos, essa foi uma tendência dominante na política norte-americana: o uso da força militar para controlar – contra seus rivais globais – regiões e recursos estratégicos, especialmente o petróleo: bases militares dos Estados Unidos foram instaladas na Ásia Central, Afeganistão, em redor da China e, agora, o Iraque (segunda reserva mundial de petróleo cru) tornou-se um protetorado militar norte-americano. A linha de política externa dos Estados Unidos, acentuada depois do 11 de setembro a pretexto de guerra contra o terror, passou a ser aquela de “inimigo público número um do planeta”: minha soberania é inviolável, a sua não, e há duas regras, uma para nós, os Estados Unidos, outra para o resto do mundo.(10)

No caso específico da América Latina, lado a lado com a ofensiva norte-americana pela Alca (Associação de Livre Comércio da América Latina), passou a haver um aumento importante dos gastos militares dos Estados Unidos, tendo como foco o nosso continente. Como argumenta Petras, o Plano Colômbia, a Iniciativa Andina e os gastos relacionados com a militarização das fronteiras do Equador com a Colômbia e do Panamá com a Colômbia, implicam em mais de 1,5 bilhão de dólares e incluem centenas de agentes militares dos Estados Unidos. (11)

Pompeu chega a mencionar 20 bases em volta da Amazônia. (12)Essa rede de bases militares se espalha na América Latina a partir da coordenação militar do Comando Sul (norte-americano) sediado na Flórida, com sub-sede em Porto Rico. Há bases militares dos Estados Unidos nas Antilhas Holandesas, em Manta, El Salvador, Honduras (Soto Cono), Aruba-Curaçao e outros pontos da região; a partir delas, os Estados Unidos penetram no espaço aéreo de vários países da América Latina. Isso sem mencionarmos o processo de terceirização de vários exércitos periféricos que “agem de forma complementar à política militar do Pentágono”. (13)

Evidentemente, recursos não-renováveis estão na mira dessa ofensiva geopolítica e militar. Há uma conjuntura política internacional, uma estratégia militar norte-americana e aquela profunda crise econômica dos Estados Unidos e do conjunto do sistema, que empurram na mesma direção: o mais poderoso Império militar de que se tem notícia, está disposto a tudo para garantir os recursos naturais que mantêm os padrões de consumo da civilização do desperdício; recursos esses que estão não apenas no Iraque, mas também na Amazônia (e alguns deles em terras indígenas). (14)

Conflitos como o de índios e garimpeiros por diamantes, embates com a guerrilha na fronteira com a Colômbia ou similares, podem, perfeitamente, ser usados como álibi para uma intervenção militar na Amazônia a partir daquela rede de bases militares de alta tecnologia que vem sendo instalada recentemente na região pelos Estados Unidos. Não se pode deixar de considerar que um Estado delinqüente (Rogue State) – na expressão de Pascal Boniface (15) – não precisa de qualquer mandato para organizar uma operação militar, sempre que encontre uma relação de forças favorável e governos locais colonizados e de espinha dorsal suficientemente flexível. (16)

Há fortes indícios de que esteja sendo preparada uma intervenção militar respaldada pelos Estados Unidos contra a Colômbia. Um exemplo: a cúpula de presidentes latino-americanos (Grupo Rio) reunida em Cuzco, Lula incluído, apelou à ONU para intervir e desarmar as FARC, caso contrário “se buscaria outras alternativas”. A declaração do presidente Uribe, da Colômbia, foi mais longe: se a guerrilha rejeitar a mediação da ONU, ela “deverá ser derrotada militarmente com apoio internacional” (o presidente Chávez, da Venezuela, criticou esse pronunciamento). Os chanceleres do G-8, reunidos na França no mesmo dia, respaldaram de forma incondicional a “ação do presidente Uribe (…) em favor do fortalecimento da autonomia do Estado”.

Condolezza Rice, secretária de Segurança Nacional dos Estados Unidos declarou que “os Estados Unidos são contrários à negociação com os terroristas (colombianos)”. Ao mesmo tempo, Uribe vem procurando envolver Brasil e Argentina nessa operação militar e Kirchner não reagiu negativamente ao pedido do presidente colombiano.

O objetivo não é o que parece ser (o “narcoterrorismo”). O que está em jogo é bem mais o interesse de controlar uma área – a Colômbia – que funciona como porta de entrada para a Amazônia (a maior reserva de água doce do planeta), os Andes e a Venezuela, através de um país que fica numa posição geográfica privilegiada entre o Pacífico e o Caribe. Não se deve deixar de levar em conta que na zona conhecida como das “cinco fronteiras” (Colômbia, Equador, Peru, Brasil e Venezuela) existe um gigantesco lençol de petróleo parcialmente explorado por esses cinco países (17).

De uma vez por todas, vale reiterar: o processo político deflagrado pelos Estados Unidos, em sua condição de potência militar, midiática e financeira, inclui, além de outros objetivos – como assegurar a cobrança da dívida externa -, uma busca de controle das reservas naturais que decidem (petróleo, gás, minerais essenciais, biodiversidade genética e água), e num processo dessa natureza, evidentemente, a Amazônia ocupará um papel central.

Há pressões dos Estados Unidos pela instalação de bases norte-americanas na Patagônia em troca de rearranjos na dívida externa. Coggiola argumenta que a proposta de exercício militar conjunto dos Estados Unidos e mais sete países da América Latina (inclusive o Brasil), a chamada “Operação Aguila III” com duração de 14 dias, é parte da pressão norte-americana pela implantação de tais bases na Argentina e que seriam integradas ao plano do “escudo antimíssil” das Forças Armadas dos Estados Unidos. Com o acordo Brasil-Estados Unidos para implantação da Alca, “abre-se a porta para um vasto plano de colonização econômica, política e militar da América Latina pelos Estados Unidos, sob a forma de um ´Tratado de Livre Ocupação da América Latina ”.(18)

Dessa forma, a mão armada da globalização pode se ver tentada a arrematar a obra que sucessivos governos entreguistas e neoliberais da região têm levado a cabo contra suas Nações. Certamente se esse processo não for detido, a metrópole imperialista pode se lançar em campo aberto a tentar controlar, manu militari seus tradicionais objetos do desejo, no caso da chantagem da dívida externa não se mostrar um recurso de pressão suficiente. As bases para isso (sem trocadilho) já estão sendo montadas.

BIBLIOGRAFIA
CAMPOS, Lauro, 2001. A crise completa: a economia política do não. São Paulo: Boitempo.
CHESNAIS, François, 1996. A mundialização do capital, São Paulo, Xamã.
COGGIOLA, Osvaldo, 2002. O capital contra a história: gênese e estrutura da crise
contemporânea, São Paulo, Xamã/Pulsar, 2002.
FREGAPANI, Gelio, 2000. Amazônia, a grande cobiça internacional, Brasília, Thesaurus.
GILL, Louis, 1996. Fondements et limites du capitalism. Montreal, Quebec: Boreal.
MÉSZÁROS, István, 2003. O século XX: socialismo ou barbárie? São Paulo: Boitempo.
PETRAS, James, 2002. Império e políticas revolucionárias na América Latina, 2002, São Paulo, Xamã, p.101.
SERFATI, Claude, 2001. La mondialisation armée: le déséquilibre de la terreur. Paris: Textuel.
SERFATI, Claude, 2002. O braço armado da mundialização, revista Outubro, n.6, 2002, São Paulo, Instituto de Estudos Socialistas, p.47-65, p.49.


NOTAS

1 Expressão que ficaria mais bem posta como mundialização do capital (Ver François Chesnais, A mundialização do capital, São Paulo, Xamã, 1996).
2 Claude Serfati, O braço armado da mundialização, revista Outubro, n. 6, 2002, São Paulo, Instituto de Estudos Socialistas, p.47-65, p.49.
3 Jurgen Brauer, United States military expenditure, 8 june 2004. Disponível em: www.aug.edu/~sbajmb/paper-Brunswick.pdf. Acessado em 2/8/04.
4 Bush favorece gastos com segurança, Gazeta Mercantil 3 fevereiro 2004.
5 Godoy, El presupuesto norte-americano y las nuevas victimas de George W. Bush, 6/2/2004. Disponível em www.rebelion.org, Acessado em 4/3/2004.
6 Mampaey, Luc, L´hysterie sécuritaire, moteur de la relance américaine, 10 février 2004. Disponível em www.grip.org.bdg. Acessado em 6/3/2004.
7 Alex Callinicos, Crisis de rentabilidad de larga duración y desajuste entre potencia militar y potencia econômica. Lo que subyace em la política guerrerista de los Estados Unidos, inverno 2003, revista Herramienta n.23. Disponível em www.herramienta.com.ar. Acessado em 2/1/2004.
8 Ver, a respeito, Serfati (2002), Gill (1996), Chesnais (1996), Coggiola (2002), Mészàros (2003), Campos 2001) e outros, além do estudo de Letizia, A terceira oportunidade imperial americana, mimeo, 2002.
9 Rui Namorado Rosa, Com que armas são feitas as guerras e para quê, 7 março 2004. Disponível em www.resistir.info. Acessado em 4/4/2004.
10 Namorado Rosa, op.cit. Ver também as análises de Donahoe, Myrna, Fernández, Raúl, González, Gilbert, 2003. Crisis general y militarización del império ianqui, 12 janero 2003. Disponível em: www.rebelion.org. Acessado em janeiro 2004.
11 James Petras, Império e políticas revolucionárias na América Latina, 2002, São Paulo, Xamã, p.101.
12 Renato Pompeu, O retrato assustador do novo imperialismo, 2003, Caros Amigos-Especial, n.17, junho 2003, p. 4-7.
13 Osvaldo Coggiola, O capital contra a história: gênese e estrutura da crise contemporânea, São Paulo, Xamã/Pulsar, 2002.
14 A respeito da Amazônia e os riscos que pairam sobre ela, pode-se consultar os escritos de Gelio Fregapani, em especial seu livro Amazônia, a grande cobiça internacional, Brasília, Thesaurus, 2000.
15 P. Boniface, Etats-Unis: shérif ou bandit?, Le Monde, 20/3/1999.
16 Enviar tropas brasileiras para sustentar a ação norte-americana no Haiti e, ao mesmo tempo, uma atitude de complacência para uma intervenção militar imperialista ao lado de Uribe, na Colômbia podem ser expressão dessa postura. É a política de Lula neste momento.
17 Plan Colombia: papel de las petroleras, Allende La Paz, 07 mayo 2004. Disponível em: www.rebelion.org; Acessado em: 22/4/2004.
18 Coggiola, Osvaldo, 2003. A política externa do governo Lula e a Alca, 14 jul 2003. Disponível: www.brasilnews.com.br. Acessado: 6/6/2004.