Globalização mata: França enfrenta onda de suicídios

Onda de suicídios em empresas francesas revela uma das faces mais cruéis do mercado de trabalho em tempos de globalização e “reestruturação produtiva”No dia 16 de julho, um operário se dirigiu a seu posto de trabalho numa fábrica do grupo automobilístico PSA Peugeot Citröen, em Mulhouse, na França, como fazia há anos. Mas, ao invés de dar início a mais um dia de trabalho, decidiu fazer o mais desesperado dos protestos: pôs fim à própria vida, enforcando-se.

O suicídio do operário de 55 anos, pai de três filhos e funcionário da empresa há 29 anos, está longe de ser um caso isolado e excepcional. Somente na Peugeot, já ocorreram seis mortes desde o início do ano (a maioria deles trabalhadores da seção de ferragens da fábrica de Mulhouse). No mesmo período, outros três suicídios foram registrados na Renault.

Outra empresa em que suicídios têm sido freqüentes é a estatal de energia EDF. Em dois anos, quatro agentes da central nuclear de Chinon se mataram. O último caso foi registrado em maio, quando uma funcionária de 50 anos suicidou-se depois de ser transferida de uma cidade para outra como parte do processo de reestruturação da empresa, uma imposição do processo de privatização que está em curso sob orientação da União Européia.

Apesar dos franceses conviverem com um dos mais altos índices de suicídios no mundo – cerca de 11 mil casos por ano, o que faz dessa a maior causa de mortes violentas, à frente de acidentes de trânsito e homicídios – a seqüência de mortes relacionada ao trabalho tem chamado a atenção da imprensa mundial que, em geral, não consegue esconder o que, de fato, levou todos estes trabalhadores à atitudes tão desesperadas: as nefastas práticas e as conseqüências da reestruturação produtiva no mundo neoliberal.

Morrer pelo trabalho e pela empresa
David Criquy, de 31 anos, o último operário da Renault a se matar (em fevereiro passado) deixou uma carta atribuindo sua decisão a dificuldades e à sobrecarga que ele estava encontrando no trabalho. Dois dias depois, motivado pelas mesmas razões, outro operário tentou o suicídio sem sucesso.

Parte significativa das dificuldades estão relacionadas com o que vêm ocorrendo com a fábrica particularmente depois de 2005, quando o brasileiro Carlos Ghosn assumiu a presidência da sede da empresa, na França.

Conhecido como um cost killer (“matador de custos”), o sanguessuga neoliberal impôs à empresa um ambicioso plano de aumento de produção, com drásticas reduções de custos, a partir de metas fixadas até 2009. Isto, obviamente, significou um aumento absurdo da pressão sobre todos os trabalhadores da empresa.

O fato do brasileiro ter chegado à presidência da matriz da empresa francesa diz, por si só, a que se refere à devoção de Ghosn à cartilha neoliberal. Para atingir suas metas, ele tem se utilizado de mecanismos que, lamentavelmente, grande parte dos trabalhadores de todo mundo já conhecem: incentivo à “competividade”, precarização e tercerização, aumento das jornadas, assédio moral, cortes de direitos e renda. Enfim, exploração sem limites, além da constante ameaça de desemprego.

Infelizmente, não são poucas as vezes que toda essa pressão leva trabalhadores ao estresse, à depressão e a um nível de desespero que, em alguns casos, pode levar ao suicídio, como nos casos da Peugeot Citröen e da Renault. Uma situação para a qual o presidente da Renault tem uma explicação digna do parasita que ele é: “Há uma noção de fracasso que foi mal interpretada” (revista Carta Capital, 25/07/07).

Ainda segundo a lógica hipócrita de Ghosn, os trabalhadores “não interpretaram” bem o que a Renault quer dizer quando afirma que “a empresa não tem direito ao fracasso (…), mas os indivíduos têm direito ao fracasso, sem cair na complacência”. Na verdade, os trabalhadores entenderam muito bem. “Sem cair na complacência” nada mais é do que ser implacável com os trabalhadores, para garantir o único objetivo que realmente importa para Ghosn e gente de sua laia: a garantia do sucesso e dos lucros de suas empresas, mesmo que para isso os trabalhadores naufraguem, em proporção inversa, em perdas.

Que este acúmulo de perdas leve trabalhadores a um beco sem saída, infelizmente, não chega a surpreender. Principalmente, em casos como o da empresa francesa, onde as perdas têm significado ataques a conquistas históricas.

Suicídio: sintoma de uma sociedade doente
O caso da Renault é exemplar. Sua história tem tudo a ver com os avanços neoliberais nas últimas décadas e, também, nos diz ensina muito sobre a luta dos trabalhadores.

Em 1945, pressionado pela mobilização dos trabalhadores franceses – que saiam de uma heróica vitória contra o nazismo, conquistada com decisiva participação da Resistência -, o General De Gaulle foi obrigado a nacionalizar a empresa, como punição por sua nefasta colaboração com o regime de Hitler, através da fabricação de veículos para as tropas de ocupação.

Durante as décadas seguintes, os trabalhadores da Renault arrancaram várias conquistas, que começaram a ser sistematicamente arrancadas a partir da privatização promovida pelo presidente “socialista” François Mitterrand.

Agora que as mortes começam a ser tratadas como uma “epidemia”, a única resposta das empresas tem sido oferecer serviços de atendimento psicológico e psiquiátrico para seus funcionários. Uma medida totalmente paliativa, ineficaz e bastante hipócrita, na medida em que não ataca as verdadeiras raízes do problema: as insuportáveis condições de trabalho que os mesmos patrões que, hoje, oferecem terapias criaram no capitalismo globalizado.

Uma situação que, é importante lembrar, está longe de ser uma “novidade”. Há quase dois séculos, em 1846, Karl Marx escreveu um pequeno estudo – a partir de casos policias relatados por Jacques Peuchet, diretor dos Arquivos da Polícia de Paris – intitulado “Sobre o suicídio”, destacando que a prática é uma expressão extrema de uma sociedade doente, de um sistema que necessita de uma transformação radical para resolver não só questões políticas e econômicas, mas também relacionadas à opressão.

Nas palavras de Marx, o suicídio “deve ser considerado um sintoma da organização deficiente de nossa sociedade; pois, na época da paralisação e das crises da indústria, em temporadas de encarecimento dos meios de vida e de invernos rigorosos, esse sintoma é sempre mais evidente e assume um caráter epidêmico”.

Lamentavelmente, seria impossível descrever o que vêm ocorrendo na França e em tantos outros cantos do mundo – inclusive no Brasil – na atualidade. A “cura” para esta epidemia já foi há muito apontada pelo próprio Marx: a unidade dos trabalhadores e oprimidos para derrubar este sistema doente que, das formas mais distintas, têm levado cada vez mais trabalhadores à morte.