Gilmar Mendes, uma pessoa horrível num tribunal horrível

Pablo Biondi, de São Paulo (SP)

Descrito por um de seus pares (Luís Roberto Barroso) como uma “pessoa horrível”, uma “mistura do mal com o atraso e pitadas de psicopatia”, o ministro Gilmar Mendes novamente roubou a cena no Supremo Tribunal Federal (STF). Dizemos novamente porque não é de hoje que ele se destaca como um defensor aguerrido de empresários e políticos ligados à corrupção, aguerrido o bastante para protagonizar debates escandalosos que sempre ensejam deboches relacionados ao seu tribunal e à sua própria postura como ministro da corte.

Gilmar Mendes é o representante mais destacado do sistema político no bojo do Poder Judiciário, em particular no que diz respeito aos interesses do PSDB e do PMDB. No ano passado, seu ativismo em favor desses partidos foi tão descarado que até mesmo a imprensa se viu compelida a noticiar alguns fatos. Apenas para citarmos alguns exemplos, vale lembrar que a Polícia Federal identificou uma série de conversas telefônicas entre o ministro do STF e Aécio Neves, inclusive no dia em que o magistrado proferiu decisão favorável ao tucano, no sentido de dispensar seu depoimento em um dos inquéritos da Operação Lava Jato. Também são conhecidas as relações entre Gilmar Mendes e Michel Temer, e que vão além de encontros ocasionais entre os dois no Palácio do Jaburu. O atual presidente teve seu mandato salvo no Tribunal Superior Eleitoral (TSE) graças à atuação de seu grande parceiro na esfera judicial.

Como ministro, Gilmar Mendes pressiona seus colegas para que decidam o mais rapidamente pela absolvição dos quadros políticos na mira da Polícia Federal e do Ministério Público. Preocupado com a crise sem fim do sistema político, o aliado de Temer travou uma luta sem tréguas contra o procurador Rodrigo Janot por considerá-lo um fator de instabilidade, um indivíduo que, na ânsia de restaurar a credibilidade da ordem burguesa, estaria alimentando uma situação fora do controle, uma purgação do sistema para além do tolerável. Não há dúvidas de que a grande obsessão de Mendes é restaurar a calmaria pré-junho de 2013, de preferência com um governo tucano – muito embora Lula também sirva muito bem para isso.

Cumpre acrescentar que o engajamento de Gilmar Mendes em favor da estabilidade burguesa deve-se não somente à sua posição do ministro do STF, isto é, ao seu pertencimento à alta cúpula do Estado. O referido magistrado é também parte de uma família latifundiária que fornecia gado para a JBS de Joesley Batista no Mato Grosso. Portanto, estamos falando de alguém que é “cria” direta do agronegócio, de alguém cujos interesses coincidem pessoalmente com os interesses do capital.

Seria injusto, no entanto, reduzir as relações entre o capital e o STF à pessoa de um ministro. O próprio Luís Roberto Barroso, que qualificou Gilmar Mendes de modo tão negativo, construiu sua carreira como advogado de um grande escritório que presta serviços para o empresariado em âmbito nacional e internacional. Poderíamos mesmo citar Alexandre de Moraes, suspeito de advogar por um período para o PCC, que é também parte da burguesia brasileira. De um modo ou de outro, temos um tribunal composto por juízes que ou são capitalistas ou se aproximaram da classe capitalista em suas carreiras, o que também conta politicamente para a sua incorporação na máxima instância judicial.

Nota-se, pois, que a questão vai além de um indivíduo determinado. Vale observar que todos os ministros do STF são indicados pelo presidente da República e aprovados pelo Senado Federal – alguns deles, inclusive, foram indicados por Lula e Dilma em seus respectivos mandatos. Isto significa que todo e qualquer ministro desse tribunal passa por um filtro político para chegar em sua posição, e que esse filtro pressupõe (além de gerar) relações mais ou menos orgânicas entre os membros da suprema corte e os quadros do sistema político-partidário. O caso mais escandaloso foi a nomeação de Alexandre de Moraes, ex-ministro da Justiça do governo Temer e filiado ao PSDB até pouco tempo antes de vestir a toga do Supremo.

Também se deve levar em conta que o STF, em sua atuação, vincula todos os órgãos judiciais inferiores em hierarquia. Seu papel principal é o de uniformizar os julgamentos no país, estabelecendo a interpretação que deve prevalecer sobre as leis e, principalmente, sobre a Constituição. Desse modo, pode-se dizer que a suprema corte, em sua função, complementa a esfera parlamentar, responsável pela criação de leis e pela realização de emendas à constituição. Esse fato, por si só, coloca a necessidade objetiva de um intercâmbio político entre os membros desse tribunal e os integrantes do sistema político. Não admira, assim, que a atual presidente do tribunal, a ministra Carmen Lúcia, também seja próxima de Temer.

O STF está, de conjunto, associado ao sistema político, por mais que pretenda parecer separado dele, invocando uma aura falaciosa de imparcialidade. Sua função é servir de ponte entre as necessidades contingentes do sistema político e a interpretação cabível às regras jurídicas. Em dadas situações, aliás, o Supremo assume o ônus de tomar decisões em temas nos quais as forças partidárias da ordem não conseguiram produzir um consenso mínimo. Não por acaso, a crise política que vem se arrastando nos últimos anos tem exigido mais decisões políticas por parte da suprema corte.

Brasília – Sessão do Supremo Tribunal Federal (STF) para julgar o habeas corpus no qual a defesa do ex-presidente Lula tenta impedir eventual prisão após o fim dos recursos na segunda instância da Justiça Federal (Antonio Cruz/Agência Brasil)

Prova inequívoca da relação entre o STF e o sistema político é o seu compromisso com a governabilidade. Em 2016, num nível máximo de atrito entre o Poder Judiciário e o Poder Legislativo, a ministra Carmen Lúcia capitulou à afronta do senador Renan Calheiros, que se recusou a deixar seu cargo, mesmo tendo recebido uma ordem judicial nesse sentido. Como se sabe, Calheiros é um pilar fundamental do sistema político, sendo capaz de transitar habilmente entre os vários setores do PMDB, o PSDB e o próprio PT, haja vista seu laço indissolúvel com Lula. Preservar um político com esse tipo de localização era uma exigência inegociável da ordem burguesa, e o Supremo soube, mesmo desmoralizado, compreender o que estava em jogo e ignorar a desobediência do senador, que se impôs altivamente sobre a corte e estancou boa parte da “hemorragia” relacionada à Operação Lava Jato.

Por tudo isso, não se pode dizer que Gilmar Mendes envergonha o STF, como afirmou o ministro Luís Roberto Barroso. O que ele faz é apenas escancarar de modo mais caricatural (e desastrado) toda a ligação política existente entre o Judiciário, o Legislativo e o próprio capital. De certo modo, ele é o representante mais fiel de sua instituição, ou ao menos o mais transparente, daí os embaraços causados. Diante disso, é inevitável concluir que o proletariado não precisa de uma composição “melhor” da corte suprema – o problema não é quem faz parte do Supremo, mas sim o tipo de poder (burguês) que ele expressa. A real necessidade da nossa classe é a ultrapassagem revolucionária do Poder Judiciário enquanto uma das instâncias fundamentais do poder burguês, enquanto um dos momentos mais sublimados do Estado, como dizia o revolucionário Karl Liebknecht.

A destruição do aparato burguês de dominação passa não apenas pelo desmonte do Congresso Nacional, mas também pela superação dos tribunais burgueses e pela criação de tribunais revolucionários dos trabalhadores, tal como ocorreu há 100 anos na Rússia sob direção bolchevique.

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